Trump ameaça elevar tarifas contra a Índia por compras de petróleo russo
Presidente dos EUA pressiona Nova Délhi a reduzir importações e reacende temor de impasse em acordo comercial
247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Washington pode elevar rapidamente as tarifas sobre produtos indianos caso o governo de Narendra Modi não atenda à exigência americana de conter as compras de petróleo russo. A declaração, feita no domingo, intensifica a pressão sobre a Índia em meio a negociações comerciais que seguem sem desfecho.
As informações são da Reuters, que acompanhou Trump a bordo do Air Force One, onde o presidente comentou o tema ao responder perguntas de jornalistas sobre a continuidade das importações indianas de petróleo proveniente da Rússia.
Trump disse que Modi teria consciência do descontentamento americano e ressaltou que a relação entre os dois líderes passa por esse tipo de cobrança política. “O (primeiro-ministro Narendra) Modi é um cara legal. Ele sabia que eu não estava feliz, e era importante me deixar feliz”, afirmou Trump, segundo o relato da agência.
Em seguida, o presidente dos EUA indicou que o instrumento principal de pressão continuará sendo o comércio. “Eles fazem comércio, e nós podemos aumentar as tarifas sobre eles muito rapidamente”, declarou, ao ser questionado sobre a compra de petróleo russo pela Índia.
Tarifas já chegam a 50% e mercado reage
A Reuters lembra que, após meses de negociações, os Estados Unidos dobraram no ano passado as tarifas de importação sobre produtos indianos para 50%, como punição pelo volume elevado de compras de petróleo russo. A fala de Trump sugere que novas rodadas de aumentos podem estar no horizonte, caso Nova Délhi não apresente mudanças mais contundentes.
O impacto político e econômico foi imediato. Na segunda-feira, os mercados indianos reagiram com forte cautela: o índice de ações de tecnologia da informação caiu cerca de 2,5%, atingindo o nível mais baixo em mais de um mês, com investidores temendo que a deterioração das relações comerciais atrase ainda mais um acordo entre os dois países.
Lindsey Graham defende tarifas de até 500%
Ao lado de Trump, o senador republicano Lindsey Graham, aliado do presidente, afirmou que sanções americanas contra empresas petrolíferas russas e o aumento tarifário imposto à Índia ajudaram a reduzir as importações indianas de petróleo russo.
Graham apoia uma proposta legislativa que prevê tarifas de até 500% sobre países que continuem comprando petróleo russo, citando a Índia como exemplo. Ele justificou a medida relacionando as compras de energia ao conflito na Ucrânia: “Se você está comprando petróleo russo barato, você mantém a máquina de guerra do Putin funcionando”, disse. Em seguida, explicou a lógica da pressão econômica: “Estamos tentando dar ao presidente a capacidade de tornar isso uma escolha difícil por meio de tarifas”.
O senador também afirmou que as medidas adotadas por Washington foram decisivas para reduzir as compras indianas: a Índia estaria agora adquirindo “substancialmente menos petróleo russo”, segundo ele.
Especialistas alertam que “ambiguidade” pode custar caro
Apesar da redução apontada por autoridades americanas, especialistas em comércio ouvidos pela Reuters avaliam que a estratégia de cautela da Índia pode enfraquecer sua posição e abrir espaço para novas exigências de Washington.
O economista Ajay Srivastava, fundador do think tank Global Trade Research Initiative, afirmou que as exportações indianas já enfrentam tarifa de 50%, sendo 25% vinculados às compras de petróleo russo. Segundo ele, embora refinarias tenham reduzido importações após sanções, as compras não foram totalmente interrompidas, deixando a Índia em uma situação delicada.
“A ambiguidade não funciona mais”, afirmou Srivastava, defendendo que Nova Délhi declare com clareza sua posição sobre o petróleo russo. Ele também advertiu que mesmo uma interrupção completa talvez não encerre a pressão americana: Washington poderia simplesmente migrar para outras exigências comerciais, enquanto tarifas mais altas ampliariam as perdas de exportação.
Exportações oscilaram e governo cobra relatórios semanais de refinarias
Mesmo sob tarifas elevadas, as exportações da Índia para os EUA saltaram em novembro, segundo a Reuters. Ainda assim, as remessas caíram mais de 20% entre maio e novembro de 2025, evidenciando instabilidade no comércio bilateral.
Na tentativa de destravar um acordo com Washington e reduzir tensões, o governo indiano passou a exigir que refinarias informem semanalmente as compras de petróleo russo e americano, sinalizando que o tema energético entrou no centro das discussões.
A Reuters relata ainda que Modi conversou com Trump pelo menos três vezes desde a imposição das tarifas. No mês passado, o secretário de Comércio da Índia se reuniu com autoridades comerciais americanas, mas as negociações seguem sem resolução.
Contexto político mais amplo e cenário de pressão crescente
O episódio se soma a um cenário de crescente endurecimento da política externa americana. A matéria também menciona que, após os Estados Unidos capturarem o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no sábado, a Índia adotou uma postura diplomática cautelosa, pedindo diálogo — sem citar diretamente Washington. A combinação desses fatores reforça o ambiente de alta tensão geopolítica, no qual decisões comerciais e energéticas passam a ter consequências imediatas.
Com Trump elevando o tom e aliados defendendo sanções ainda mais agressivas, a Índia se vê diante de um dilema: ceder ao pressionamento tarifário e reduzir ainda mais o petróleo russo, ou manter alguma margem de manobra e arriscar um aprofundamento do desgaste comercial com os Estados Unidos — justamente quando busca fechar um acordo estratégico com Washington.



