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Vorcaro: "diga a eles que eu sou a anarquia do sistema"

Mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro revelam bastidores do escândalo do Banco Master e tensões no mercado financeiro de São Paulo

Vorcaro: "diga a eles que eu sou a anarquia do sistema" (Foto: Divulgação )

247 - O banqueiro Daniel Vorcaro, preso novamente nesta semana no âmbito das investigações sobre o colapso do Banco Master, descreveu a si próprio como “a anarquia do sistema” em mensagens privadas enviadas à então namorada, a empresária e influenciadora Martha Graeff. As conversas, recuperadas pela Polícia Federal a partir do celular do executivo, revelam bastidores da crise que culminou na liquidação da instituição financeira pelo Banco Central do Brasil e expõem tensões no mercado financeiro, relata o Brazil Stock Guide.

As mensagens mostram Vorcaro relatando a crescente pressão do mercado, disputas com banqueiros e o intenso escrutínio sobre o Banco Master, instituição que ganhou notoriedade ao oferecer investimentos com rendimentos muito acima dos praticados pelos grandes bancos.

"Sou a anarquia do sistema"

Em uma das conversas, enviada em março de 2025, Vorcaro comentou o impacto que o caso Banco Master já causava no centro financeiro da Avenida Faria Lima, em São Paulo. Ele relatou ter passado pelos prédios de grandes instituições e disse ter sido abordado por diversas pessoas.

“Fui na XP e no BTG… eu não conseguia nem andar pelo lobby. Pessoas me parando. Surreal”, escreveu.

Segundo ele, o caso havia se tornado o principal assunto entre banqueiros, operadores do mercado e jornalistas. “Nunca na história do mercado financeiro do Brasil um assunto deu tanto burburinho”, afirmou.

Entre comentários e comparações feitas por pessoas do setor, uma frase chamou atenção. “Um cara disse: você é o pirata badass contra os caras de cueca de bolinha”, relatou.

Foi nesse contexto que Vorcaro resumiu sua visão sobre o momento que enfrentava: “Diga a eles que eu sou a anarquia do sistema.”

Um outsider no sistema bancário

Daniel Vorcaro, de 42 anos, era visto por muitos no mercado como um outsider do sistema financeiro brasileiro. Nascido em Belo Horizonte e filho de um corretor imobiliário, ele não fazia parte da tradicional elite bancária do país.

Sua ascensão ocorreu após transformar uma pequena instituição chamada Banco Máxima no Banco Master. O banco ganhou espaço rapidamente ao oferecer produtos financeiros com rendimentos elevados, atraindo investidores em busca de retornos acima da média.

Paralelamente, Vorcaro construiu uma ampla rede de relações com empresários e políticos.

A interlocutora das mensagens

Grande parte das mensagens foi enviada a Martha Graeff, empresária e influenciadora digital com quem Vorcaro mantinha um relacionamento desde 2023.

Graeff, de 40 anos, nasceu no sul do Brasil e vive há cerca de duas décadas em Miami, nos Estados Unidos. Ela construiu carreira como modelo, empreendedora no setor de bem-estar e personalidade nas redes sociais, além de ter trabalhado como jornalista.

Nas conversas analisadas pelos investigadores, ela aparece como confidente frequente enquanto o banqueiro descreve reuniões, pressões do mercado e o aumento da exposição pública do caso.

O banco que cresceu rápido demais

O Banco Master tornou-se um dos nomes mais comentados do setor financeiro brasileiro após expandir rapidamente sua base de investidores.

A estratégia consistia em oferecer certificados de depósito bancário (CDBs) com rendimentos significativamente superiores aos praticados por grandes bancos. Para muitos investidores, os produtos pareciam combinar alto retorno com risco limitado.

Isso ocorria porque os depósitos eram protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que cobre até cerca de R$ 250 mil por investidor em caso de quebra de uma instituição financeira.

Críticos afirmam que esse modelo permitiu que bancos menores captassem recursos de forma agressiva enquanto parte do risco era compartilhada com o próprio sistema financeiro.

Investigação do Banco Central e suspeitas de corrupção

À medida que o Banco Master crescia, o Banco Central — responsável pela supervisão do sistema financeiro — passou a examinar suas operações com maior rigor.

As investigações avançaram para a relação de Vorcaro com autoridades regulatórias. Procuradores suspeitam que o banqueiro possa ter cooptado integrantes do Banco Central, incluindo um ex-diretor responsável pela supervisão bancária.

De acordo com investigadores, pagamentos informais podem ter sido feitos para facilitar a aprovação de determinadas operações do banco.

As suspeitas fazem parte de uma investigação mais ampla da Polícia Federal sobre possíveis crimes financeiros e corrupção envolvendo executivos do setor bancário e agentes públicos.

Vorcaro foi preso novamente em 4 de março, na segunda detenção desde a liquidação do Banco Master.

Tensões na Faria Lima

As mensagens também revelam tensões entre Vorcaro e outros banqueiros. Em conversas com Graeff, ele mencionou o nome de André Esteves, presidente do conselho do BTG Pactual.

Quando questionado pela empresária sobre o executivo, Vorcaro respondeu de forma direta: “Ele enlouqueceu".

Segundo o relato do banqueiro, rumores e acusações circulavam pelo mercado. “Alguém disse que falei mal dele. Outro disse que falei outra coisa”, escreveu. Em determinado momento, classificou a situação como infantil: “Virou dois adolescentes".

Mesmo diante da pressão, ele tentou demonstrar confiança. “Agora amor, como um amigo jornalista meu diz… segura a linha".

Vorcaro acreditava que a crise poderia diminuir rapidamente: “Se eu aguentar duas semanas, a pressão da mídia acaba".

Mas também reconhecia a dimensão que o caso havia alcançado: “Isso está em todo lugar agora… Jornal Nacional e tudo".

Um encontro entre banqueiros

Dias depois, Vorcaro relatou a Graeff um encontro com Esteves. Ele disse ter levado um terceiro participante para testemunhar a conversa. “Você não vai acreditar no que ele falou hoje. Eu trouxe o Augusto (Lima, seu sócio) para eu ter uma testemunha”, escreveu.

Segundo o relato do próprio Vorcaro, Esteves teria feito uma afirmação contundente: “André disse que era o maior banqueiro do mundo. Que era como Deus aparecendo em nossas vidas. Que deveríamos agradecer a Deus pela proposta dele. E esquecer o BRB".

O BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, chegou a ser cogitado como possível comprador do Banco Master. A operação acabou barrada pelo Banco Central.

Na mesma conversa, Vorcaro afirmou que havia aceitado a reunião após incentivo para ouvir a proposta do BTG. “Eu fui porque o Banco Central pediu".

E acrescentou: “Ele entra na cabeça dos caras do Banco Central".

A reação do sistema financeiro

Dias depois, o tom das mensagens mudou. Vorcaro afirmou que os ataques haviam diminuído e que Esteves teria reduzido a pressão.

Nas conversas analisadas pelos investigadores, não aparecem novos confrontos diretos entre os dois banqueiros após esse período.

Semanas depois, o episódio terminou em um acordo pragmático. Em 27 de maio de 2025, o BTG Pactual anunciou a compra de determinados ativos ligados a Vorcaro, incluindo participações societárias, imóveis e direitos creditórios.

A operação foi estimada em cerca de R$ 1,5 bilhão.

O BTG afirmou que não tinha interesse na compra do Banco Master em si, apenas em ativos específicos.

Documentos e conexões investigadas

O material apreendido pelos investigadores inclui cerca de 200 arquivos, entre planilhas, contratos — alguns protegidos por senha — fotografias e trocas de e-mails.

As autoridades também identificaram 47 contatos telefônicos, muitos pertencentes a figuras influentes da política e da economia brasileira, como líderes do Congresso, ministros do Supremo Tribunal Federal, integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), empresários, autoridades do Banco Central e operadores políticos ligados ao chamado Centrão.

Fontes próximas à investigação afirmam que o material divulgado até agora representa apenas uma parte do conteúdo apreendido.

O colapso do Banco Master

Meses antes da liquidação do banco, Vorcaro já havia resumido sua visão sobre a crise em uma frase enviada nas conversas privadas: “Diga a eles que eu sou a anarquia do sistema".

Pouco tempo depois, o Banco Master deixaria um rombo estimado em R$ 50 bilhões no sistema financeiro brasileiro — parte dele coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos, financiado pelos próprios bancos.

No desfecho da crise, a “anarquia do sistema” mencionada por Vorcaro acabou sendo absorvida pelo próprio sistema financeiro.

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