Datafolha: desconfiança no STF e no Judiciário bate recorde e expõe crise de legitimidade
Pesquisa mostra avanço da rejeição ao Supremo e à Justiça em meio a controvérsias, questionamentos éticos e revolta com privilégios salariais
247 – A desconfiança dos brasileiros em relação ao Supremo Tribunal Federal e ao Poder Judiciário atingiu os maiores níveis já registrados nas séries históricas do Datafolha, aprofundando a crise de imagem das instituições e revelando um desgaste crescente da autoridade judicial no país. Os dados apontam para uma deterioração expressiva da confiança pública, em meio a decisões controversas, suspeitas éticas envolvendo ministros do STF e indignação social com os chamados penduricalhos pagos a magistrados.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, com base em pesquisa Datafolha, 43% dos brasileiros afirmam não confiar no STF, o maior patamar desde o início da série, em 2012. Na pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2024, esse índice era de 38%. Ao mesmo tempo, caiu de 24% para 16% a parcela dos que dizem confiar muito na corte.
O levantamento também mostra que o descrédito não se limita ao Supremo. Em relação ao Poder Judiciário como um todo, o percentual dos que dizem não confiar na Justiça saltou de 28% para 36%, também o maior nível da série histórica iniciada em 2017. O cenário reforça a percepção de que a crise de confiança deixou de ser episódica e passou a atingir o conjunto do sistema judicial brasileiro.
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios do país, entre os dias 3 e 5 de março. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-03715/2026.
Queda na confiança e piora na avaliação do STF
Além do aumento da desconfiança, o Datafolha identificou uma piora na avaliação do desempenho dos ministros do STF. Apenas 23% dos entrevistados classificam a atuação da corte como ótima ou boa, contra 32% em dezembro. Já a avaliação ruim ou péssima subiu de 35% para 39%.
Embora o menor índice absoluto dos que dizem confiar muito no STF tenha sido registrado em junho de 2018, com 14%, o quadro atual é considerado mais grave porque o contingente dos que não confiam no tribunal agora é maior. Naquele momento, 39% declaravam desconfiança, enquanto 43% diziam confiar um pouco na corte. Agora, o avanço da rejeição aparece de forma mais consolidada.
Os dados sugerem que a erosão da imagem do Supremo deixou de ser restrita a momentos específicos de tensão política e passou a refletir uma crise mais estrutural de legitimidade. A percepção de distância entre a corte e a sociedade, somada a sucessivos episódios de desgaste público, ajuda a explicar a deterioração do prestígio institucional.
Rejeição é maior entre homens, ricos e eleitores da direita
A insatisfação com o STF é especialmente elevada em alguns segmentos sociais. Entre os homens, 46% dizem não confiar na corte. Entre pessoas com maior escolaridade, o índice chega a 45%. Já entre os brasileiros com renda superior a dez salários mínimos, a reprovação ao tribunal alcança 65%.
O recorte eleitoral mostra uma clivagem política nítida. Entre os eleitores do presidente Lula, 44% dizem estar satisfeitos com o STF, enquanto 12% se declaram insatisfeitos. Já entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, apenas 7% se dizem satisfeitos, e 67% afirmam estar insatisfeitos.
Esse contraste ajuda a mostrar como a avaliação do Supremo também é influenciada pelo ambiente de polarização política. O fato de a corte ter condenado à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado por tentativa de golpe de Estado é um elemento central para compreender a hostilidade mais intensa entre setores ligados ao bolsonarismo.
Caso Master amplia desgaste e alimenta suspeitas
Entre os fatores apontados para o agravamento da crise de imagem do STF em 2026 está o caso Master, que envolve relações suspeitas entre ministros da corte e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. O episódio atingiu diretamente os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Toffoli, que era relator de um inquérito sobre o Master e havia imposto sigilo total ao caso, deixou a relatoria após a Polícia Federal identificar que fundos ligados ao banco compraram participação de uma empresa de sua família em um resort de luxo. Já Moraes foi citado em meio a perícias da PF que revelaram diálogos com Vorcaro por mensagens.
Ainda que parte dessas informações tenha vindo a público depois da realização da pesquisa, já era conhecido antes o contrato bilionário de prestação de serviços advocatícios mantido entre a esposa de Moraes e o Master. O caso levantou questionamentos sobre a imparcialidade do magistrado e ampliou a percepção pública de promiscuidade entre interesses privados e funções de Estado.
A sucessão de episódios do tipo ajuda a consolidar a impressão de que o STF opera sem controles éticos suficientemente claros. Em vez de aparecer como guardião da Constituição, o tribunal passou a ser visto por parcela crescente da população como uma instituição blindada, pouco transparente e resistente ao escrutínio público.
Maioria da população quer limites éticos mais rígidos
O Datafolha também mediu a percepção dos brasileiros sobre a conduta dos ministros do Supremo, e os resultados mostram amplo apoio social à imposição de barreiras éticas mais severas. Segundo a pesquisa, 79% discordam que um ministro julgue causas envolvendo clientes de parentes. Outros 78% rejeitam que ministros sejam sócios de empresas.
Além disso, 76% dos entrevistados são contra o recebimento de pagamentos por palestras organizadas por instituições privadas. Os números revelam que a sociedade cobra padrões mais rigorosos de comportamento e vê com preocupação zonas cinzentas que hoje cercam a atuação de membros da corte.
Mesmo assim, a criação de um código de ética formal no STF enfrenta forte resistência interna. De um lado, há ministros que enxergam a medida como uma tentativa de reconstruir a credibilidade institucional. De outro, há os que consideram esse tipo de norma uma limitação excessiva à atuação da magistratura.
A divisão interna evidencia uma contradição central: enquanto cresce a pressão da sociedade por regras claras, parte da própria corte parece relutante em aceitar mecanismos que reforcem a transparência e previnam conflitos de interesse.
Penduricalhos aprofundam descrédito do Judiciário
No caso do Poder Judiciário em sentido mais amplo, um dos principais focos de desgaste é a permanência dos penduricalhos, isto é, auxílios e bônus que permitem a juízes e integrantes do Ministério Público ultrapassar o teto constitucional de R$ 46.366,19. Em muitos casos, essas manobras resultam em remunerações líquidas superiores a R$ 100 mil por mês.
O tema se tornou símbolo da distância entre o sistema de Justiça e a realidade da maioria da população brasileira. Em um país marcado por desigualdade social aguda, supersalários e benefícios sem base legal clara reforçam a percepção de privilégio e alimentam a descrença nas instituições.
Para tentar conter esse mecanismo, o Conselho Nacional de Justiça vem intensificando o monitoramento das folhas de pagamento e buscando barrar benefícios criados por tribunais estaduais sem respaldo legal. No STF, o debate gira em torno da definição de que toda verba de natureza salarial deve respeitar obrigatoriamente o teto constitucional.
Até o momento, porém, esse debate avança lentamente. A demora em enfrentar o problema contribui para a leitura de que o próprio sistema protege seus privilégios e resiste a mudanças capazes de restabelecer algum grau de legitimidade perante a população.
Crise institucional e perda de autoridade moral
Os números do Datafolha indicam que STF e Judiciário atravessam um momento especialmente delicado. Não se trata apenas de uma oscilação conjuntural de popularidade, mas de um processo mais profundo de corrosão da confiança pública, alimentado por práticas questionadas, falta de transparência e manutenção de privilégios.
Quando cresce a sensação de que ministros e juízes não seguem padrões éticos compatíveis com a responsabilidade de seus cargos, o impacto vai além da imagem das instituições. O que entra em xeque é a própria autoridade moral do sistema de Justiça para arbitrar conflitos, punir ilegalidades e se apresentar como referência de equilíbrio republicano.
O retrato revelado pela pesquisa sugere que a recuperação da credibilidade do Judiciário dependerá menos de discursos defensivos e mais de mudanças concretas. Sem transparência, sem contenção de privilégios e sem critérios éticos rigorosos, a tendência apontada pelo Datafolha é de aprofundamento da crise.


