Lula cobra diálogo direto com Trump e defende industrialização de minerais críticos no Brasil
“Não vamos só cavar buraco e exportar minério bruto", disse o presidente Lula
Por Leonardo Attuch, de Nova Déli, para o Brasil 247 – Em entrevista coletiva em Nova Déli neste domingo (23), após a missão do Brasil à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou a escalada de tensões comerciais com os Estados Unidos, criticou a forma “anômala” como medidas tarifárias foram comunicadas e afirmou que pretende tratar diretamente com Donald Trump de uma pauta ampla que inclua comércio, investimentos, cooperação universitária e combate ao crime organizado.
"A coisa das taxas foi dos Estados Unidos foi feita de forma totalmente anômala, porque era uma coisa impensável você receber um Twitter e saber da determinação de um país taxar o outro." Para o presidente, a mudança de método — sem reuniões técnicas prévias — alterou o padrão histórico de condução diplomática e econômica entre governos.
“Decidir com a febre baixa”: cautela e ajustes no próprio governo americano
Ao descrever a reação brasileira, Lula afirmou que o governo adotou prudência e evitou decisões tomadas sob pressão, usando uma metáfora pessoal para caracterizar o processo.
"Nós tomamos as decisões com muita cautela. Vocês sabem que eu tenho na minha cabeça a ideia de não tomar nenhuma decisão quando eu estou com 39 graus de febre. Tem que esperar a febre passar pra gente tomar a decisão." Ele acrescentou que, na avaliação do Planalto, as escolhas foram acertadas e que parte do quadro “acabou sendo mudada pelo próprio governo americano”.
Na sequência, Lula mencionou também uma decisão do Judiciário dos Estados Unidos que contrariou a “tese do presidente Trump”, ressaltando que não cabe ao chefe de Estado brasileiro julgar decisões da Suprema Corte de outro país.
"Obviamente que eu não posso julgar a decisão da Suprema Corte de um país. Não julgo do meu, muito menos do outro país." Ainda assim, o presidente indicou que pretende recolocar o foco na relação bilateral e na construção de um ambiente previsível para os dois lados.
Relação Brasil–EUA: “olhar no olho” e pôr tudo na mesa
Lula afirmou que seu objetivo é estabelecer uma conversa direta e franca com Trump para definir o que ambos os países desejam na relação econômica e política. Ele descreveu a ligação como um diálogo entre nações democráticas e líderes experientes, frisando que temas sensíveis não devem ser tratados como “brincadeira”.
"O que eu quero conversar com o Trump é a relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Nós somos as duas maiores democracias da América Latina. Nós somos dois homens com 80 anos de idade, portanto a gente não pode ficar brincando de fazer democracia. A gente tem que tratar com muita seriedade."
O presidente disse ainda que defende uma negociação sem vetos prévios."Não tem veto, não tem nada proibido na mesa da negociação. Vamos colocar todos os temas na mesa da negociação." A fala sinaliza uma tentativa de recompor canais permanentes de interlocução, com a promessa de retomar o hábito de conversas telefônicas sempre que houver “qualquer novidade” entre os dois países.
Minerais críticos: “não vamos só cavar buraco” e exportar bruto
Um dos pontos centrais da declaração foi a defesa de uma mudança histórica na política mineral brasileira, especialmente diante da transição energética global. Lula afirmou que aceita discutir parcerias com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos, mas condicionou qualquer acordo ao processamento e à transformação no território nacional, evitando o padrão extrativista que, segundo ele, marcou décadas da economia brasileira.
"Se é pra poder explorar minerais críticos, é preciso que o processo de transformação aconteça no Brasil, vamos conversar." Em seguida, reforçou a crítica ao modelo baseado em exportação de matéria-prima e importação de manufaturados.
"O que a gente não quer é a nossa terra rasa. A gente só cava buraco e manda o minério para fora para depois comprar produto manufaturado. Não!" O presidente defendeu que a nova riqueza ligada à transição energética exige “muito mais seriedade e objetividade” e propôs a criação de um órgão estratégico no centro do governo para orientar essa virada.
"Nós agora queremos transformar no Brasil. Por isso que nós queremos um conselho nacional, sabe, de política mineral, subordinado à Presidência da República, para que a gente possa dar muito, muito, muito mais seriedade e objetividade no trato dessa nova riqueza que se apresenta nesse momento de transição energética que o mundo tanto necessita."
O recado político é explícito: o Brasil pretende participar da corrida por minerais críticos não como mero fornecedor de insumos brutos, mas como polo industrial capaz de agregar valor, gerar empregos e fortalecer sua soberania econômica.
Pauta longa: comércio, universidades, brasileiros nos EUA e investimento que “deixou de existir”
Lula listou temas que pretende levar ao diálogo com Trump e afirmou que sua pauta inclui, além do comércio, parcerias universitárias e a situação da comunidade brasileira que vive nos Estados Unidos. O presidente destacou também a intenção de recolocar investimentos americanos no Brasil como assunto prioritário, sugerindo que esse fluxo diminuiu significativamente.
"Eu espero que depois dessa reunião a gente possa estar garantido que a gente voltou a ter uma relação altamente civilizada, altamente respeitosa." E completou que deseja normalizar a comunicação direta entre os dois governos.
Sem “nova guerra fria”: relações iguais e soberania como eixo
No trecho final, Lula rejeitou a ideia de que o Brasil deva se alinhar a um bloco contra outro e afirmou que não quer “uma nova guerra fria”. O presidente defendeu relações equilibradas com todos os países, “em igualdade de condições”, e cobrou reciprocidade.
"Nós não queremos uma nova guerra fria. Nós não queremos preferência por nenhum país. Nós queremos ter relações iguais com todos os países. Nós queremos tratar todos em igualdade de condições e receber deles um tratamento também." Ao encerrar, o presidente disse acreditar que, se o diálogo for possível, “tudo voltará ao normal”.


