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“O rei está nu”, diz José Dirceu, ao defender reformas no STF

Ex-ministro cobra autorreforma do Supremo, alerta para crise institucional e defende agenda de mudanças nos três Poderes

“O rei está nu”, diz José Dirceu, ao defender reformas no STF (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil)

247 – Aos 80 anos, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu voltou ao centro do debate político ao defender mudanças profundas no Supremo Tribunal Federal (STF) e no sistema institucional brasileiro. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele afirmou que a corte precisa passar por um processo de autorreforma e resumiu o atual momento com uma frase contundente: “O rei está nu”.

A declaração sintetiza a avaliação de Dirceu de que o desgaste do STF junto à sociedade atingiu um nível que não pode mais ser ignorado. Para ele, o caminho mais responsável é que o próprio tribunal conduza mudanças internas, evitando uma intervenção mais dura por parte do Congresso Nacional.

Crítica ao STF e defesa de autorreforma

Dirceu reconheceu o papel histórico do Supremo na defesa do Estado democrático de Direito, mas destacou que isso não impede a necessidade de revisão de práticas e maior transparência. Segundo ele, pesquisas de opinião indicam uma demanda clara por mudanças.

“Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro”, afirmou.

O ex-ministro defende que o STF abra um debate amplo com a sociedade sobre seu funcionamento. Entre os temas que considera essenciais estão a criação de um código de ética para ministros, limites para permanência no cargo — como mandatos ou idade — e regras mais claras sobre atividades privadas.

“O Supremo não precisa ter medo de debater com o país”, disse.

Ao mesmo tempo, ele ressaltou que isso não significa submeter decisões judiciais ao clamor popular. “O Supremo não pode se submeter, por exemplo, ao clamor pela pena de morte no Brasil”, afirmou, diferenciando o papel contramajoritário da corte da necessidade de prestar contas à sociedade.

Alerta sobre reforma imposta pelo Congresso

Na avaliação de Dirceu, a ausência de mudanças voluntárias pode levar a um cenário mais crítico, com o Parlamento assumindo a dianteira na reforma do Judiciário.

“Daqui a pouco se forma uma maioria e ele vai ser reformado pelo Parlamento. Vai ser pior”, alertou.

Ele criticou ainda a ideia de que qualquer questionamento ao STF represente automaticamente um ataque à democracia. Para o ex-ministro, esse argumento já não se sustenta diante da percepção social.

“Não é possível mais dizer: ‘Se criticar o Supremo, você vai enfraquecer o Supremo’. O rei está nu”, afirmou.

Segundo Dirceu, a sociedade brasileira quer discutir limites e responsabilidades do Judiciário. “Os brasileiros querem discutir se haverá ou não um código de ética e quais limitações os magistrados devem ter”, disse.

Crise institucional e necessidade de reformas amplas

A crítica ao STF faz parte de uma visão mais ampla de Dirceu sobre o momento político do país. Para ele, o Brasil caminha para uma crise institucional que exigirá reformas profundas nos três Poderes.

“Todos os Poderes têm que passar por uma reforma”, afirmou.

No Legislativo, ele questionou o modelo atual de emendas parlamentares e alertou para investigações envolvendo congressistas. No Executivo, defendeu a necessidade de uma reforma administrativa. Já no Judiciário, reforçou a urgência de mudanças estruturais no STF.

Dirceu argumenta que a deterioração das instituições pode abrir espaço para soluções autoritárias, caso não haja uma resposta política consistente. “Nós queremos que a democracia seja desmoralizada e que se justifique um regime autoritário no Brasil? Não queremos? Então vamos preservar a democracia reformando o que for necessário”, declarou.

Defesa de Lula e disputa eleitoral

Na entrevista, o ex-ministro também abordou o cenário eleitoral de 2026 e demonstrou confiança na reeleição do presidente Lula. Ele afirmou que o PT tem um legado concreto a apresentar e capacidade de enfrentar a oposição.

“O PT tem o que apresentar. Deu estabilidade institucional ao país. Deu inflação baixa, crescimento, manteve o Brasil fora de conflitos internacionais, conduziu bem as relações com os EUA”, disse.

Dirceu criticou duramente o senador Flávio Bolsonaro, apontado como principal adversário, e questionou sua capacidade de governar o país em meio a uma conjuntura internacional complexa.

“Vamos colocar o Brasil nas mãos do Flávio Bolsonaro, que vai entregar os nossos recursos naturais ao Trump? Que vai liberar o acesso às terras raras aos EUA? Que vai liberar as big techs?”, questionou.

Para ele, o Brasil precisa reafirmar sua posição como potência global e não pode se submeter a interesses externos. “O Brasil é uma potência, um dos maiores países do mundo”, afirmou.

PT, oposição e futuro político

Dirceu também descartou qualquer possibilidade de substituição de Lula como candidato do PT. Questionado sobre Fernando Haddad, foi enfático: “Zero. Zero.”

Ele afirmou ainda que, mesmo em um cenário adverso, o partido já demonstrou capacidade de resistência. Ao citar o golpe de Estado contra Dilma e a prisão de Lula, destacou a trajetória de recuperação da legenda.

“Lula [mesmo derrotado] vai liderar o país”, afirmou.

Para o ex-ministro, o debate eleitoral precisa ser reconduzido aos grandes temas nacionais, como desenvolvimento, soberania, tecnologia e desigualdade, evitando que a agenda política seja novamente dominada por escândalos.

“Freio de arrumação” no Estado brasileiro

Ao comentar a delação do banqueiro Daniel Vorcaro, Dirceu afirmou que o episódio pode servir como catalisador de mudanças mais amplas no país. Ele defendeu um verdadeiro “freio de arrumação geral” nas instituições.

“O país está precisando de um freio de arrumação geral”, disse.

Segundo ele, o Brasil precisará, em algum momento, discutir um pacto nacional envolvendo empresários, trabalhadores e forças políticas para definir um projeto de desenvolvimento de longo prazo.

“Em algum momento teremos que refundar o Estado brasileiro”, afirmou.

Apesar do diagnóstico crítico, Dirceu reconheceu que ainda não há maioria política para uma transformação dessa magnitude. Ainda assim, defende que o debate precisa ser iniciado com urgência, sob risco de agravamento da crise institucional.

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