Em decisão sobre Vorcaro, Mendonça apontou 'riscos inerentes à transferência para cela comum'
Ministro do STF citou avaliação da PGR sobre exposição midiática e possível circulação de orientações no sistema prisional
247 - O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça destacou que a unidade indicada pelas autoridades reúne condições melhores de segurança, custódia e suporte ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. O magistrado levou em conta as manifestações anteriores da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República antes de definir o destino do empresário antes de aprovar a transferência do empresário para a Papudinha (DF). Os relatos sobre o teor da ordem emitida pelo STF foram divulgados nesta quinta-feira (25) pela coluna de Igor Gadelha.
Conforme um trecho da ordem emitida pelo ministro do STF, “a Procuradoria-Geral da República já assinalou que a condução do requerente ao 19º Batalhão da Polícia Militar no Distrito Federal (Papudinha) é medida que se mostra cabível à espécie, dados os riscos inerentes à transferência para cela comum, advindos da exposição midiática do caso e de possível utilização do sistema prisional pelo requerente para obtenção e circulação de orientações a demais membros da organização criminosa”.
O ex-banqueiro está preso na Superintendência da PF em Brasília (DF) desde março deste ano, para ter mais interação com os advogados enquanto negociava um acordo de delação premiada com a PF e a PGR. “Alinhada a essa perspectiva, em manifestação anteriormente apresentada aos autos, a Polícia Federal indicou considerar que a transferência do custodiado para unidade do sistema prisional do Distrito Federal, notadamente a Papudinha, é a medida mais recomendável, porquanto reúne condições mais adequadas de segurança, custódia e suporte ao preso”, diz outra parte da decisão.
Resistência anterior perdeu força
Até esta decisão, Mendonça demonstrava resistência em enviar Vorcaro à Papudinha. O motivo envolvia a presença de outro investigado do caso Master no mesmo local: Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Mesmo com essa preocupação, o ministro concluiu que, no cenário atual, a unidade representa a alternativa mais adequada entre as opções disponíveis. Ele fundamentou a mudança nas avaliações apresentadas pelas instituições responsáveis pela persecução penal.
“Considerando as ponderações apresentadas pelas duas instituições responsáveis pela promoção da persecução penal, verifica-se que, na atual conjuntura, a custódia do investigado no 19º Batalhão da Polícia Militar no Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”, revela-se a alternativa mais adequada dentre aquelas disponíveis”, escreveu Mendonça em sua decisão.
A decisão amplia o peso institucional da transferência, já que PF e PGR convergiram na avaliação sobre o local de custódia. Para as autoridades, a Papudinha reduz riscos e oferece estrutura mais compatível com a situação processual de Vorcaro.
Compliance Zero
A 9ª fase da Operação Compliance Zero mira Jaques Wagner, líder do governo no Senado, e Augusto Ferreira Lima, sócio do Banco Master, em uma apuração da PF sobre irregularidades no sistema financeiro nacional. A corporação iniciou a nova etapa no último dia 18 para investigar a participação de um agente público no suposto esquema.
A PF informou em nota que cumpre 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. A corporação também executa medidas cautelares, como proibição de contato entre investigados e suspensão de passaporte.
Primeira fase prendeu Daniel Vorcaro
A PF deflagrou a primeira fase da Compliance Zero em novembro de 2025. A etapa teve como foco um suposto esquema de emissão irregular de Certificados de Depósito Bancário, conhecidos como CDBs, produtos nos quais investidores entregam recursos a bancos em troca de remuneração futura, segundo o Portal G1.
O Banco Master oferecia juros até 40% superiores à média do mercado, afirmou a PF. Essa prática levantou suspeitas sobre a real cobertura dos títulos por ativos efetivos. O principal alvo da etapa foi Daniel Vorcaro, presidente da instituição. A PF prendeu o banqueiro no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando ele tentava embarcar para Dubai em um jato particular. Vorcaro afirmou que faria a viagem para fechar a venda do banco.
A operação prendeu sete pessoas. Diretores do Banco de Brasília também deixaram suas funções por suspeitas de participação em operações fraudulentas e gestão temerária, prática ligada à assunção de riscos excessivos por administradores.
As autoridades estimaram prejuízo potencial de até R$ 12 bilhões, inclusive para investidores pessoas físicas atraídos pelas taxas elevadas prometidas pelo banco. Após 12 dias preso, Vorcaro deixou a prisão por decisão da Justiça, mas passou a usar tornozeleira eletrônica e cumprir medidas cautelares.
Rastreamento de bens da família Vorcaro
A segunda fase ocorreu em janeiro de 2026 e concentrou a investigação no patrimônio da família de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal cumpriu mandados contra o pai, a irmã e o cunhado do banqueiro, além de outros investidores ligados ao grupo.
O ministro Dias Toffoli, do STF, autorizou 42 buscas e apreensões em diferentes Estados. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens e valores.
Durante as diligências, os agentes apreenderam relógios de luxo, carros importados e dinheiro em espécie. Segundo os investigadores, fundos de investimento teriam servido para ocultar recursos desviados do banco e formalizar patrimônio supostamente ilícito da família Vorcaro.
O empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur também entraram na mira da fase. A PF cumpriu buscas contra os dois e apreendeu celulares.
Terceira fase abriu frente sobre ameaças e espionagem
A terceira fase, deflagrada em março de 2026, ampliou o escopo da investigação para suspeitas de intimidação, espionagem e invasão de sistemas. Daniel Vorcaro voltou à prisão nessa etapa.
A PF também prendeu Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”. Segundo a corporação, Sicário coordenava grupos usados para obter informações de forma ilegal, intimidar adversários e monitorar autoridades vistas como ameaça aos interesses do banco.
Os investigadores identificaram um grupo chamado “A Turma”. A PF atribui ao grupo tarefas como pressionar testemunhas, intimidar adversários e apagar evidências. Luiz Phillipi Mourão morreu horas após a prisão e não respondeu ao processo. A Polícia Federal concluiu que a morte decorreu de suicídio.
Quarta fase investigou aportes do BRB
Em abril de 2026, a quarta fase avançou sobre transações envolvendo o Banco de Brasília. O principal alvo foi Paulo Henrique Costa, então presidente afastado do banco público. A PF passou a analisar aportes de R$ 16,7 bilhões feitos pelo BRB no Banco Master entre 2024 e 2025. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões apresentavam indícios de irregularidades nas garantias e na origem dos ativos. O restante seguia sob análise.
As movimentações ocorreram no período em que o BRB negociava assumir o controle do Banco Master. Essa circunstância levou investigadores a apurar a suspeita de uso de recursos públicos para socorrer financeiramente à instituição privada.
Paulo Henrique Costa afirmou que as operações eram regulares e faziam parte de práticas tradicionais do mercado financeiro. A PF sustenta que as garantias apresentadas não correspondiam ao valor declarado dos ativos.
Quinta fase atingiu núcleo político
A quinta etapa ocorreu em 7 de maio de 2026 e levou a investigação ao núcleo político do suposto esquema. O principal alvo foi o senador Ciro Nogueira, presidente do PP. A PF cumpriu mandados em endereços ligados ao parlamentar em Brasília e no Piauí. A apuração investiga suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
De acordo com os investigadores, o senador teria recebido pagamentos mensais custeados por Daniel Vorcaro ou por empresas ligadas a ele. Os valores ficariam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil. Segundo a PF, o parlamentar teria atuado em favor de interesses do Banco Master por meio de uma proposta legislativa elaborada com participação da assessoria da instituição financeira.
A fase também prendeu Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, em Minas Gerais. A PF aponta Felipe como operador financeiro dos repasses investigados. A Justiça ainda determinou o bloqueio de R$ 18,85 milhões e suspendeu as atividades de quatro empresas ligadas ao suposto esquema.
Sexta fase prendeu pai de Vorcaro e policial federal
A sexta fase, deflagrada em 14 de maio de 2026, mirou o suposto uso da máquina pública para obtenção ilegal de informações. A PF prendeu Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, sob suspeita de coordenar ações de intimidação dos grupos “A Turma” e “Os Meninos”.
A operação também prendeu o policial federal Anderson Wander da Silva Lima. Segundo os investigadores, o agente acessava bancos de dados sigilosos e repassava informações sobre passaportes, viagens internacionais e movimentações migratórias de pessoas monitoradas pela organização criminosa.
A PF afirma que o grupo usava esses dados para perseguir adversários e proteger interesses financeiros. As apurações também identificaram tentativas de destruição de provas após fases anteriores da operação.
Sétima fase apurou vazamento dentro da PF
A sétima fase ocorreu em 19 de maio de 2026 e mirou um perito criminal federal suspeito de vazar informações sigilosas da investigação. O servidor foi alvo de mandados de busca e apreensão e teve as funções suspensas por decisão do STF.
Segundo a Polícia Federal, o perito teria compartilhado informações reservadas obtidas por meio da análise de materiais apreendidos nas etapas anteriores da Compliance Zero.
As apurações buscam esclarecer se os vazamentos prejudicaram a coleta de provas e a identificação de outros integrantes da organização. A fase também expôs a preocupação das autoridades com a preservação do sigilo da operação.
Oitava fase atingiu Cláudio Castro e o Rioprevidência
A oitava etapa, deflagrada em 26 de maio de 2026, teve como alvo o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. A investigação apura a transferência de cerca de R$ 3 bilhões de recursos estaduais para fundos ligados ao Banco Master.
Segundo a PF, os aportes ocorreram principalmente por meio do Rioprevidência, fundo responsável pela administração de aposentadorias e pensões dos servidores estaduais do Rio de Janeiro.
O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro já havia apontado “graves irregularidades” nas operações e proibido novos investimentos ligados ao grupo Master.
Nesta fase, agentes cumpriram dez mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e no Distrito Federal, por determinação do ministro André Mendonça, do STF. A etapa é tratada como desdobramento da Operação Barco de Papel, que investigava investimentos considerados arriscados e incompatíveis com critérios de segurança financeira para fundos públicos.
Nona fase amplia apuração sobre agente público
A 9ª fase da Compliance Zero levou a investigação a um novo patamar ao mirar a participação de um agente público no suposto esquema de irregularidades envolvendo instituições do sistema financeiro nacional.
Entre os alvos estão o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, líder do governo no Senado, e Augusto Ferreira Lima, sócio no Banco Master. A PF cumpre mandados na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, além de medidas cautelares voltadas a limitar contato entre investigados e restringir deslocamentos internacionais.
Com a nova etapa, a Compliance Zero consolida uma investigação que percorre fraudes financeiras, movimentações bilionárias, fundos públicos, supostos repasses políticos, uso indevido de dados sigilosos e suspeitas de tentativa de obstrução das apurações.



