'Entrevista de Marcos Pereira à Folha é o puro suco da mentalidade escravista', diz Lindbergh
Deputado do PT reage a declarações sobre escala 6x1 e defende redução da jornada sem corte salarial
247 - O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) criticou nesta quinta-feira (26) declarações do presidente do Republicanos, Marcos Pereira, concedidas ao jornal Folha de S.Paulo. A manifestação do parlamentar petista ocorreu após a publicação da entrevista, que abordou o debate em torno do fim da escala 6x1 e propostas de redução da jornada de trabalho no país.
Na avaliação de Lindbergh, as posições externadas por Marcos Pereira expressam uma visão que ele classificou como retrógrada. Em publicação na rede social X, o deputado afirmou que as declarações representam o “puro suco da mentalidade escravista da elite do atraso que ainda é muito forte no Brasil”.
Ao comentar o posicionamento do dirigente do Republicanos, Lindbergh escreveu: “Para se contrapor ao fim da escala 6x1, ele exibe todo seu preconceito contra os trabalhadores e os mais pobres. Diz com todas as letras que ‘ócio demais faz mal’. Uma vida para além do trabalho, segundo ele, seria para usar drogas e praticar jogos de azar. Diz que pobre não tem lazer e mais tempo livre seria um ‘mal’. Defendeu abertamente a tese de quanto mais trabalho, mais ‘prosperidade’. Resta saber mais ‘prosperidade’ pra quem?”.
O parlamentar do PT também associou a resistência à redução da jornada de trabalho a disputas históricas envolvendo direitos trabalhistas. “Todas as vezes que tentamos ampliar direitos para os trabalhadores, a grita é enorme por parte dos patrões e da mídia. É assim desde a abolição da escravidão, a conquista da CLT, do 13° salário. Não seria diferente agora. Eles estão defendendo a si mesmos!”, declarou.
Segundo Lindbergh, o debate público sobre o tema estaria sendo marcado por previsões negativas em relação à economia. “Todas as opiniões publicadas são fazendo terrorismo e alarme falsos sobre queda de produtividade, desaceleração do PIB, aumento de preços aos consumidores”. Ele acrescentou: “Não tem uma opinião dos trabalhadores que acordam cedo, que não têm tempo para ficar com os filhos, cuidar da própria saúde, desfrutar, sim, do tempo livre como um direito essencial”.
O deputado também criticou o que chamou de discurso uniforme contra o fim da escala 6x1. “Discurso que nega dados e pesquisas, a exemplo do IPEA, que desmontam essa narrativa de perda de lucros das empresas e de catástrofe na economia. Nós somos 70% da sociedade que querem o fim da escala 6x1, a redução da jornada de 44h para 40h, sem redução de salários. Essa é a grande luta dos trabalhadores em 2026. Venceremos!”, afirmou.
A entrevista
Em suas declarações concedidas ao jornal paulista, o presidente do Republicanos, o deputado Marcos Pereira (SP), afirmou que a redução da jornada tirará a competitividade das empresas brasileiras. "Quanto mais trabalho, mais prosperidade", disse.
De acordo com o deputado, se as pessoas "tivessem condições de fazer lazer", a demanda seria válida, mas "o povo não tem dinheiro, infelizmente". O parlamentar disse também que discorda de votar o tema em ano eleitoral.

Propostas
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que a proposta de emenda à Constituição que estabelece o fim da jornada de trabalho 6x1 poderá ser votada no Plenário em maio. O debate ocorre em meio à tramitação de propostas no Congresso Nacional que tratam da jornada de trabalho.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015 foi aprovada em 10 de dezembro do ano passado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Para entrar em vigor, o texto ainda precisa ser aprovado em dois turnos no plenário do Senado e em dois turnos na Câmara dos Deputados, com apoio mínimo de 49 senadores e 308 deputados.
Outra proposta em discussão é a PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (Psol-SP) e outros parlamentares após a repercussão do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). A iniciativa prevê jornada semanal de 36 horas, distribuída em quatro dias de trabalho e três de descanso.
Também tramita na Câmara a PEC 221/2019, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que estabelece a redução gradual da jornada para 36 horas semanais ao longo de dez anos, sem diminuição de salários. O texto ainda aguarda a designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça da Casa.
Além das propostas de emenda à Constituição, está em análise o Projeto de Lei 67/25, apresentado pela deputada Daiana Santos (PCdoB-RS). O projeto fixa o limite de 40 horas semanais para todas as categorias profissionais, com redução progressiva da carga horária: de 44 para 42 horas em 2027 e para 40 horas em 2028.
As discussões sobre o fim da escala 6x1 e a diminuição da jornada de trabalho seguem no centro do debate político, envolvendo parlamentares, partidos e diferentes setores da sociedade.
Pontos de vista
A discussão em torno do fim da escala 6x1 mobiliza argumentos distintos. Quem apoia a mudança sustenta que a ampliação do tempo de descanso tende a contribuir para melhor qualidade de vida, além de potencialmente estimular a produtividade ao elevar o bem-estar e a motivação dos trabalhadores.
Por outro lado, setores contrários à redução da jornada afirmam que a medida pode aumentar os custos das empresas, gerar repasse aos preços finais e comprometer a competitividade, especialmente em áreas que dependem fortemente de mão de obra.
O tema continua em análise no Congresso Nacional, onde diferentes propostas tramitam sob pressão de variados segmentos sociais, enquanto ainda não há definição sobre o cronograma de votação.
Pesquisas
Divulgada em 11 de fevereiro, a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados apontou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6 x 1. Em julho de 2025, a pesquisa Genial/Quaest revelou que 70% dos parlamentares rejeitam a proposta de jornada de quatro dias semanais.


