Folha cobra, em editorial, que Toffoli se licencie do STF
Jornal exige afastamento para preservar a credibilidade da corte
247 – O jornal Folha de S.Paulo publicou um editorial em que cobra que o ministro Dias Toffoli se licencie do Supremo Tribunal Federal (STF) diante de novas revelações sobre seu envolvimento com o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e da condução do inquérito que apura um suposto rombo fraudulento superior a R$ 50 bilhões. Na avaliação do texto, Toffoli já havia perdido, “há muito”, as condições de permanecer à frente do caso, mas as informações mais recentes tornariam necessárias providências ainda mais drásticas.
O posicionamento está no editorial “O que a Folha pensa: Fim da linha para Toffoli”, publicado pela Folha de S.Paulo, que sustenta que a sequência de fatos e decisões associadas à relatoria do ministro configura um quadro de suspeição “difícil de conceber” em termos mais óbvios — e que, a esta altura, Toffoli não seria apenas um magistrado em conflito de interesses, mas um investigado em potencial.
A ida do caso ao Supremo e a sequência de decisões questionadas
Segundo o editorial, a crise se agrava desde 3 de dezembro, quando Toffoli chamou para si a relatoria de um inquérito que tramitava na Justiça comum. A justificativa para levar o caso ao STF teria sido um negócio envolvendo um deputado e Daniel Vorcaro. A partir desse movimento, o jornal afirma que passaram a se suceder “decisões anômalas” e “evidências cada vez mais escabrosas” de que o ministro não teria condições de atuar com isenção.
O texto cita, entre os atos contestados, a decretação de sigilo sobre a apuração, a determinação de uma acareação entre suspeitos e um diretor do Banco Central — órgão responsável pela liquidação do Master — e a imposição de limites ao acesso da Polícia Federal às provas colhidas. Para o jornal, esse conjunto de medidas intensificou a percepção de que a condução do caso deixava de seguir um padrão ordinário de investigação, elevando o risco de contaminação institucional.
Viagens, relações societárias e a ligação com Vorcaro
O editorial também lista informações sobre vínculos entre Toffoli e o universo empresarial associado ao banco. Afirma-se que, pouco antes de assumir o caso, o ministro teria feito viagem internacional em jato de empresário, acompanhado de um advogado ligado ao banco. O texto menciona ainda que, até o ano passado, familiares do ministro foram sócios de um resort no Paraná ao lado de um fundo de investimentos da rede comandada por Daniel Vorcaro.
Em seguida, o editorial diz que, a partir de investigação da Polícia Federal, teria sido identificado que o próprio ministro do STF era um dos donos do hotel de luxo, que costumava frequentar utilizando helicóptero e seguranças pagos pela corte, “vale dizer, pelo contribuinte”. O texto afirma ainda que Toffoli é citado em conversas encontradas no celular de Vorcaro e que há indícios de que ele teria recebido, direta ou indiretamente, dinheiro pela venda de sua participação no empreendimento.
Na leitura do jornal, o problema central se amplia porque esses fatos teriam vindo à tona “à revelia” do ministro, que não teria esclarecido previamente a extensão de seus vínculos com o caso.
Suspeição e risco institucional: o recado do editorial
O editorial sustenta que Toffoli deveria ter se declarado suspeito desde o início e afirma que, diante do quadro apresentado, seria necessário ir além do simples afastamento da relatoria. Para a Folha, se o ministro “nada tem a temer”, deveria licenciar-se voluntariamente do tribunal, evitando constrangimentos a seus colegas e preservando o trabalho da Polícia Federal, que, nesse cenário, deveria ser conduzido sob supervisão de outro ministro.
O jornal argumenta que a manutenção de Toffoli na função de relator seria indefensável e que, diante disso, caberia aos próprios integrantes do STF adotar uma medida “profilática” para retirá-lo do caso. O ponto, segundo o editorial, é preservar a credibilidade da instituição: estaria em jogo a imagem de uma corte “democrática fundamental”, que precisaria demonstrar “republicanismo” e reafirmar que seus membros estão submetidos às leis e aos princípios éticos da magistratura, como qualquer cidadão.
Caso Banco Master e a pressão por transparência
A cobrança pública por licenciamento amplia a temperatura política e institucional em torno do caso Banco Master e coloca o STF no centro de um debate recorrente no Brasil: o quanto a credibilidade do sistema de Justiça depende não apenas de decisões formais, mas de padrões rigorosos de transparência e de prevenção de conflitos de interesse.
No pano de fundo, permanece a advertência implícita do editorial: quanto mais a corte demora a neutralizar situações que se assemelham a suspeição evidente, maior o risco de desgaste generalizado e de contaminação da legitimidade do Judiciário — sobretudo quando a investigação envolve grandes interesses financeiros, decisões sensíveis e suspeitas de favorecimento.


