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Ganância: Paulo Henrique Costa tinha tudo e se perdeu pela ambição desenfreada

Ex-presidente do BRB tinha um bom salário, status social e uma família estável, mas se perdeu ao cair diante da tentação oferecida por Vorcaro

Heritage Cyrela, em São Paulo. Foto: Reprodução

247 – A história recente envolvendo o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, expõe um dos traços mais recorrentes — e destrutivos — da condição humana: a ganância. Não se trata da necessidade, da luta pela sobrevivência ou da busca legítima por ascensão. Trata-se do excesso. Da incapacidade de reconhecer limites quando já se alcançou praticamente tudo o que a sociedade convencionalmente define como sucesso.

Paulo Henrique Costa ocupava uma posição de prestígio. Estava à frente de um banco público relevante, com salário elevado, influência política e trânsito em círculos de poder. Tinha também, segundo relatos, uma vida familiar estruturada — ainda que posteriormente abalada por uma crise conjugal. Nada indicava, à primeira vista, a necessidade de correr riscos extremos. Ainda assim, foi justamente nesse ponto que se abriu o espaço para a queda, ao aceitar imóveis avaliados em R$ 145 milhões como propina a ser paga por Daniel Vorcaro pela venda do Master ao BRB.

A ganância raramente se apresenta de forma explícita. Ela se disfarça de oportunidade, de “bom negócio”, de racionalidade econômica. Surge envolta em justificativas técnicas, planilhas, relatórios e discursos sofisticados. No caso investigado pela Polícia Federal, a promessa vinha embalada em operações financeiras complexas e, segundo as apurações, em benefícios indevidos que incluiriam imóveis de altíssimo padrão — símbolos máximos de status e poder.

É nesse momento que se estabelece a ruptura ética. Não é um salto abrupto, mas um deslizamento gradual. Primeiro, a flexibilização de critérios. Depois, a aceitação de exceções. Em seguida, a normalização de práticas que, em outro contexto, seriam inaceitáveis. Quando se percebe, a fronteira entre o público e o privado já foi ultrapassada.

A trajetória descrita nas investigações sugere exatamente esse processo. Mesmo diante de alertas, inclusive a recomendação para colaborar com as autoridades, a escolha foi insistir em uma narrativa de legitimidade técnica. A confiança na própria capacidade de justificar decisões — mesmo diante de evidências crescentes — é outro elemento típico da ganância: a crença de que é possível controlar todas as variáveis e escapar das consequências.

O preço cobrado pela ganância

Mas a ganância cobra seu preço. E ele raramente é apenas financeiro. Há o custo reputacional, a perda de credibilidade construída ao longo de anos, o impacto familiar e, em muitos casos, a privação da liberdade. O que antes era conforto e prestígio dá lugar ao isolamento e à exposição pública.

Há também um componente simbólico importante. Quando figuras que ocupam posições estratégicas no Estado sucumbem à lógica da ambição desmedida, o dano ultrapassa o indivíduo. Atinge a confiança nas instituições, fragiliza a percepção de justiça e reforça a ideia de que o poder pode ser instrumentalizado para interesses particulares.

O caso de Paulo Henrique Costa, ainda sob investigação e sujeito ao devido processo legal, ilustra como a ganância não nasce da falta, mas do excesso sem freio. Não é a ausência que corrompe — é a incapacidade de dizer “basta”.

Em última instância, trata-se de uma lição antiga, repetida ao longo da história em diferentes contextos: quando a ambição deixa de ser motor e passa a ser vício, o destino costuma ser o mesmo. A queda não é um acidente. É consequência.

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