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Auditoria aponta rombo de R$ 220 milhões na Cedae

Relatório mostra que aporte no Banco Master ocorreu após flexibilização de critérios de investimento

Cedae capta R$ 1,14 bi em 2011 e quita dívida com o tesouro (Foto: Divulgação)
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247 — Uma auditoria interna da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) apontou rombo de R$ 220 milhões na companhia e concluiu que o aporte no Banco Master ocorreu em meio a uma flexibilização de critérios de investimento, em um processo considerado semelhante ao verificado no Rioprevidência. De acordo com os documentos obtidos pela GloboNews e repercutidos nesta terça-feira (2) pelo jornal O Globo, o governo do Rio aplicou quase R$ 4 bilhões no Banco Master. Desse total, cerca de R$ 3,7 bilhões foram destinados por meio do fundo previdenciário estadual, enquanto a Cedae investiu R$ 237 milhões na instituição financeira.

A auditoria concluiu que a estatal pode ter perdido mais de R$ 220 milhões em recursos aplicados no banco. O relatório também identificou que, quando as negociações para um aporte de R$ 200 milhões tiveram início, em 2023, o Banco Master não cumpria os critérios previstos na política de investimentos da companhia.

Segundo a investigação, a instituição financeira tinha classificação de risco inferior à exigida e era avaliada por apenas uma agência de rating. Meses depois, as regras internas da Cedae foram modificadas e passaram a admitir investimentos com o mesmo perfil apresentado pelo banco.

A apuração foi aberta pela atual gestão da companhia após a perda dos recursos. O relatório foi encaminhado pelo presidente da Cedae, Rafael Rolim, à diretoria da estatal, com recomendação de envio aos órgãos de controle.

Alertas internos e suspeitas apontadas pela auditoria

No sábado, 30 de maio, o blog do jornalista Octávio Guedes informou que a auditoria concluiu que a diretoria financeira da Cedae ignorou alertas internos sobre a piora da situação do Banco Master. O documento, segundo a apuração, indicou que o prejuízo ultrapassou R$ 222 milhões.

O relatório também apontou suspeitas de negligência, dolo sistêmico, fraude e risco ao patrimônio da empresa. Entre os nomes citados como principais responsáveis está o então diretor administrativo-financeiro da Cedae, Antonio Carlos dos Santos.

A auditoria reconstituiu a cronologia da operação e concluiu que o Banco Master era inelegível pelas regras vigentes à época. Em março de 2023, a Cedae aprovou uma política que exigia classificação mínima equivalente a "A-" e avaliação de ao menos duas agências independentes.

Em julho daquele ano, a diretoria financeira recebeu documentos do banco com nota "BBB-", emitida pela Fitch. Para os auditores, esse dado deveria ter levado à desclassificação imediata da instituição. Em vez disso, a política de investimentos foi revista e aprovada novamente em setembro, com flexibilização dos critérios de risco e rating.

Negociação teria começado antes do informado à CVM

Outro ponto destacado pela investigação é a data de início das tratativas. Segundo a auditoria, as negociações começaram antes do que havia sido informado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Registros de acesso à sede da companhia indicam que representantes do Banco Master se reuniram com integrantes da diretoria financeira da Cedae em 17 de maio de 2023. A data é mais de um mês anterior ao primeiro contato formal informado pela administração da empresa.

O relatório também identificou uma viagem de Antonio Carlos dos Santos e assessores a São Paulo para uma reunião com Maurício Quadrado, então sócio e co-CEO do Banco Master.

De acordo com os auditores, as tratativas ficaram concentradas na Diretoria Financeira e em um grupo restrito de assessores, sem compartilhamento adequado de informações com outras áreas da companhia. Os alertas sobre riscos reputacionais e financeiros passaram a surgir apenas quando outros setores tiveram conhecimento da operação.

Relatório vê demora na reação da diretoria financeira

A segunda etapa da investigação analisou a gestão dos recursos após a aplicação. O relatório afirma que, a partir de 2025, diferentes áreas da Cedae passaram a alertar para a situação financeira do Banco Master e recomendaram medidas para reduzir a exposição da estatal.

Mesmo assim, segundo a auditoria, a diretoria financeira teria demorado a reagir. Quando a companhia tentou recuperar integralmente os recursos, em setembro de 2025, o banco já enfrentava problemas de liquidez.

Em novembro, uma parcela prevista para devolução dos valores não foi paga. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição.

Reunião ocorreu dias após jantar em Nova York

A auditoria registra que a primeira reunião identificada entre representantes do Banco Master e a diretoria financeira da Cedae ocorreu seis dias após um jantar oferecido pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao então governador Cláudio Castro, em Nova York.

O encontro foi revelado em investigação da PF que tramita no STF. Os auditores, no entanto, ressaltaram que não estabeleceram relação entre o jantar e os investimentos realizados pela estatal.

O que dizem os citados

Antonio Carlos dos Santos afirmou, em nota, repudiar "de forma veemente" as alegações de omissão de informações ao Conselho de Administração. Segundo ele, todas as etapas da política de investimentos foram acompanhadas pelo colegiado, que recebia relatórios mensais sobre as aplicações financeiras.

O ex-diretor também declarou estar tranquilo em relação aos atos de gestão e confiante de que os fatos serão esclarecidos.

A atual gestão da Cedae informou que exonerou os responsáveis pelos aportes no Banco Master, promoveu mudanças na política de investimentos e retirou indicações políticas da diretoria financeira e da área de relações com investidores.

A companhia também afirmou que adotará medidas para identificar responsabilidades, calcular o prejuízo definitivo e buscar o ressarcimento dos cofres públicos.

Cláudio Castro declarou que não interfere nas decisões de investimento da Cedae. Ele afirmou que as mudanças na política de aplicações seguiram os trâmites internos da companhia e foram aprovadas por unanimidade, além de negar qualquer relação entre o jantar em Nova York e os aportes feitos pela estatal.

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