Flávio recua 13 pontos no Polymarket após áudio a Vorcaro
Na plataforma de mercado de previsão, o parlamentar aparecia com 43% nas projeções da plataforma no início do dia e caiu para 30%
247 - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recuou 13 pontos percentuais no Polymarket após a divulgação de um áudio enviado a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sobre pagamentos destinados ao filme “Dark Horse”, produção que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL). Na plataforma de mercado de previsão, o parlamentar aparecia com 43% nas projeções da plataforma no início do dia e caiu para 30% às 16h20. A informação foi publicada pelo Antagonista nesta quarta-feira (13).
De acordo com o material, que cita reportagem do The Intercept Brasil, o recuo ocorreu poucos minutos depois da publicação do áudio em que Flávio cobra o banqueiro por parcelas relacionadas ao longa. O levantamento também mostra o presidente Lula na liderança do mercado de apostas, com 43%, enquanto o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema avançou para 8,6%.
A revelação colocou o senador no centro de uma nova crise política ligada ao entorno bolsonarista. O áudio mostra Flávio Bolsonaro cobrando uma posição de Vorcaro sobre pagamentos pendentes para a produção do filme “Dark Horse”, projeto que tinha previsão de lançamento em 11 de setembro.
O episódio ganhou maior peso porque a reportagem atribui ao dono do Banco Master ao menos US$ 10 milhões, cerca de R$ 60 milhões, em repasses feitos entre fevereiro e maio de 2025. Segundo o material divulgado, a promessa total de investimento chegava a US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões.
Áudio expõe cobrança por parcelas do filme
Flávio Bolsonaro gravou e enviou o áudio a Daniel Vorcaro em 8 de setembro de 2025. Na mensagem, o senador menciona um momento difícil, afirma que sente desconforto em fazer cobranças e demonstra preocupação com compromissos assumidos pela produção do filme.
“Irmão, preferi mandar um áudio aqui para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente tá passando por um dos momentos mais difíceis das nossas vidas, né? Não sei como vai ser tudo daqui para frente, como tudo vai acabar, mas tá na mão de Deus aí. Você eu sei que tá passando por um momento dificílimo aí também. Essa confusão toda, né. Você sem saber como vai caminhar isso tudo…
E, apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou para o filme, né. Imagina a gente dando calote num Jim Cavieziel [ator principal], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme]… os caras renomadíssimos no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim. Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir nesse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara.
Então, se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel… Porque a gente precisa saber o que que faz da vida, cara, porque já tem muita conta para pagar esse mês, e o mês seguinte também. E agora que é reta final a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos, porque se não a gente perde tudo, cara. Todo o contrato. Perde ator, diretor, perde equipe, perde tudo. Se puder me dar um toque aí, irmão, abração.. fica com Deus.”
A mensagem indica que Flávio Bolsonaro acompanhava a situação financeira da produção e buscava uma resposta direta do banqueiro. O senador cita o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, nomes envolvidos no projeto, e afirma que atrasos poderiam comprometer contratos, equipe, ator e diretor.
Documentos apontam seis operações
Segundo o material divulgado, Daniel Vorcaro pagou ao menos US$ 10 milhões, em seis operações, para a produção do filme “Dark Horse”. A reportagem menciona cronogramas de desembolso, comprovantes bancários e cobranças ligadas às parcelas previstas no acordo.
O texto afirma que os documentos não apresentam evidências de que Vorcaro tenha feito os outros oito pagamentos previstos. Esse ponto amplia a relevância do áudio, já que Flávio Bolsonaro cobra uma definição do banqueiro em meio à reta final do projeto.
A reportagem também afirma que o contato entre Vorcaro e a produção do filme contou com intermediação do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do deputado Mário Frias e de outros articuladores ligados ao entorno bolsonarista.
A relação entre o banqueiro e figuras próximas a Jair Bolsonaro já havia gerado repercussão em março deste ano. Na ocasião, a imprensa noticiou uma doação feita pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, à campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro afirmou, naquele momento, que a contribuição ocorreu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”.
Mensagens reforçam proximidade entre Flávio e Vorcaro
O material também relata trocas de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro na véspera da prisão do banqueiro pela Polícia Federal. Segundo o texto, o senador perguntou se o empresário poderia atender uma ligação.
“Fala mermão, pode atender?”, escreveu o senador.
Vorcaro respondeu na manhã de 16 de novembro de 2025.
“Fala irmaozao, to na igreja”, escreveu o banqueiro às 10h37.
Horas depois, Flávio enviou duas mensagens em formato de visualização única, às 15h38 e 15h43. Em seguida, o senador reforçou apoio ao empresário.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu Flávio Bolsonaro.
Às 15h52, Vorcaro respondeu também com uma mensagem de visualização única. Na sequência, Flávio escreveu: “Amém!”.
O texto ainda informa que Vorcaro também teria usado mensagens de visualização única em conversas com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
CMN proibiu contratos de previsão no Brasil
O caso também recoloca o Polymarket no debate sobre plataformas de previsão e apostas políticas. O Conselho Monetário Nacional aprovou, em 24 de abril, uma resolução que proíbe, em território brasileiro, a oferta e a negociação de contratos de previsão ligados a eventos esportivos, políticos, eleitorais, culturais e de entretenimento.
Segundo o texto, a norma publicada pelo Banco Central entra em vigor em 4 de maio e atinge plataformas internacionais como Kalshi e Polymarket, além de outras 25 empresas do setor. O material afirma que essas plataformas estão inacessíveis no Brasil desde 24 de abril.
Mesmo com essa restrição no país, a queda de Flávio Bolsonaro no Polymarket ganhou repercussão política porque ocorreu logo após a divulgação do áudio pelo The Intercept Brasil. O movimento expôs a sensibilidade do mercado de apostas a revelações ligadas à disputa presidencial e ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Queda amplia desgaste político do senador
A perda de 13 pontos nas projeções do Polymarket ocorreu em meio a um novo foco de desgaste para Flávio Bolsonaro. O áudio, os documentos citados e as mensagens com Daniel Vorcaro conectam o senador a tratativas sobre pagamentos milionários para um filme de alto interesse político para o bolsonarismo.
A divulgação do material também reforça questionamentos sobre a participação de empresários no financiamento de projetos vinculados à imagem de Jair Bolsonaro. A reportagem mencionada aponta valores altos, parcelas em atraso e cobranças diretas feitas por Flávio ao dono do Banco Master.
A combinação entre áudio, documentos e mensagens aumentou a pressão sobre o senador no mesmo dia em que o Polymarket registrou forte recuo em suas chances projetadas. O episódio mantém Daniel Vorcaro, o Banco Master e o filme “Dark Horse” no centro de uma controvérsia que atinge diretamente o núcleo político da família Bolsonaro.
Outro lado
O senador do PL emitiu uma nota após o áudio vazado. "Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet", afirmou.
"Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme. Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ".



