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Presidente da Copasa renuncia após delação citar propina na Aegea

Saída ocorre após investigação revelar pagamentos ilícitos ligados à antiga gestão do executivo

Hamilton Amadeo

247 - O presidente do Conselho de Administração da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Hamilton Amadeo, renunciou ao cargo com efeito imediato, em meio à repercussão de um acordo de colaboração premiada que menciona pagamentos ilícitos relacionados à Aegea Saneamento, empresa que ele comandou no passado. A decisão foi comunicada ao mercado poucas horas depois da divulgação do caso.

As informações foram publicadas pelo portal Brazil Stock Guide que detalha acordos de delação homologados em 2025 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo os depoimentos, ao menos R$ 63 milhões teriam sido pagos entre 2010 e 2018 para obtenção ou manutenção de concessões de água e esgoto em diferentes estados e municípios.

De acordo com os relatos apresentados nos acordos, executivos da Aegea autorizaram repasses a políticos e agentes públicos em pelo menos seis estados e 20 municípios. O suposto esquema envolveria entregas de dinheiro em espécie, contratos de prestação de serviços com valores inflados, aquisição de imóveis e atuação de escritórios de advocacia como intermediários.

Um dos depoimentos descreve a entrega de valores em parcelas dentro da sede da companhia, em São Paulo. Em outro trecho, é mencionada a emissão de notas fiscais que simulavam serviços de consultoria para gerar recursos fora da contabilidade oficial.

A Aegea firmou acordo de leniência com o Ministério Público Federal em abril de 2021, comprometendo-se a pagar R$ 439 milhões à União, em 15 parcelas anuais corrigidas pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Segundo a empresa, o entendimento encerrou definitivamente questões de integridade relacionadas a condutas anteriores a 2018.

Em comunicado, a companhia informou que reformulou sua governança e seus controles internos à época, além de renovar a equipe de gestão. O acordo estabelece a empresa Montese como devedora principal do valor ajustado. A Aegea também declarou que o acerto não afeta concessões vigentes, contratos de dívida ou novos contratos públicos, e que o impacto financeiro foi registrado contabilmente em 2021.

Poucos dias após a assinatura do acordo de leniência, a Itaúsa adquiriu participação minoritária na Aegea por R$ 1,3 bilhão, reforçando o capital do grupo em meio aos leilões bilionários promovidos após a aprovação do novo marco legal do saneamento, em 2020.

Os depoimentos mencionam ainda supostos pagamentos relacionados a concessões em Santa Catarina, com referência a autoridades municipais e integrantes de tribunal de contas estadual. Em Mato Grosso do Sul, há descrição de transferências ligadas a campanhas eleitorais que teriam alcançado até R$ 30 milhões, por meio de contratos fictícios de aluguel. No Rio de Janeiro, os relatos citam repasses vinculados à concessão da Prolagos, na Região dos Lagos. De acordo com a reportagem, os políticos mencionados negaram irregularidades.

A Copasa, em comunicado ao mercado, não fez menção às acusações. A empresa informou apenas ter recebido o pedido de renúncia de Hamilton Amadeo ao cargo de conselheiro, com efeito imediato. Não foi anunciado substituto.

Privatização sob maior escrutínio

A saída ocorre em um momento sensível para a estatal mineira, que está no centro do plano do governador Romeu Zema de privatizar o controle da companhia. O governo estadual sustenta que a venda pode contribuir para reduzir o déficit fiscal de Minas Gerais e ampliar investimentos em infraestrutura de água e esgoto.

O setor de saneamento passou por forte expansão desde a aprovação do novo marco regulatório, que estabeleceu metas para universalizar o acesso à água potável e à coleta de esgoto em 90% dos municípios até 2033. A mudança impulsionou leilões de grande porte e ampliou a presença de operadores privados em áreas antes dominadas por empresas estaduais.

No curto prazo, analistas observam que a transição no comando do conselho pode limitar oscilações no mercado. No entanto, eventuais desdobramentos jurídicos ou políticos podem influenciar o cronograma e o modelo de eventual venda de participação da Copasa, especialmente em um ambiente no qual investidores têm priorizado padrões mais rigorosos de governança corporativa.

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