Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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China sinaliza que não vai ceder espaço aos EUA na América Latina

Documento de política de Pequim indica que a disputa por influência no “quintal” de Washington deve se intensificar

Bandeiras dos EUA e da China em foto de ilustração - 10/04/2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

247 – A China deixou claro que pretende manter e ampliar sua presença na América Latina, mesmo diante da tentativa dos Estados Unidos de recuperar protagonismo na região. A mensagem aparece em um documento de política externa divulgado por Pequim e analisado por especialistas como um prenúncio de maior rivalidade entre as duas potências no continente.

A avaliação foi publicada pelo The Wall Street Journal, que destaca como o novo posicionamento chinês surge em resposta indireta ao endurecimento estratégico do governo Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, que vem associando a América Latina a uma prioridade de segurança nacional e reafirmando a intenção de “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.

Documento chinês aponta “mudança no equilíbrio de poder”

Pouco depois de o governo Trump divulgar sua estratégia de segurança nacional — com referências à necessidade de conter “competidores não hemisféricos” — Pequim publicou um documento de 6.700 palavras sobre América Latina e Caribe, o primeiro do tipo em quase uma década.

O texto afirma que “a China sempre permaneceu em solidariedade com o Sul Global, incluindo América Latina e Caribe”, e sustenta que uma “mudança significativa está ocorrendo no equilíbrio internacional de poder”, formulação associada ao discurso do presidente Xi Jinping de que a era da supremacia global dos EUA estaria em declínio.

Analistas ouvidos pelo jornal veem o documento como uma sinalização calculada de que Pequim não pretende recuar em um espaço que Washington historicamente considera sua zona de influência.

Pequim acompanha cada “frente” aberta por Trump no continente

Segundo a reportagem, a China aparece como contraponto em praticamente todas as frentes latino-americanas em que o governo Trump tenta projetar força — da tentativa de enfraquecer o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, à pressão sobre o Panamá em torno do controle e da influência no Canal do Panamá.

O Center for Strategic and International Studies (CSIS) avalia que “a competição entre grandes potências na região mal começou” e que o documento chinês demonstra a intenção de aprofundar vínculos diplomáticos e econômicos para se consolidar como alternativa aos EUA.

A estratégia chinesa combina investimentos em infraestrutura, expansão do comércio e acesso a matérias-primas estratégicas — como minerais críticos e energia — ao mesmo tempo em que diplomatas de Pequim atuam diretamente com elites políticas e atores regionais.

“Não dar um centímetro”: a fórmula de Pequim

O CSIS observa que o avanço chinês não é apenas simbólico: Pequim já afirma ter 24 signatários na região ligados à Iniciativa Cinturão e Rota, enquanto antes de 2017 não havia nenhum. A China também teria deslocado os EUA como principal parceiro comercial de vários países latino-americanos.

Nesse contexto, o analista Ryan Berg, coautor do estudo do CSIS, resumiu a postura chinesa de maneira direta:

 “A estratégia da China é basicamente não dar um centímetro”

A frase sintetiza o sentido do documento: Pequim quer manter o ritmo de expansão e não aceitar limitações impostas por Washington.

Venezuela vira teste de prioridades e da aliança “para todas as estações”

A reportagem afirma que a Venezuela se tornou um dos primeiros testes concretos da retórica chinesa. Pequim reivindica uma “parceria estratégica para todas as estações” com Caracas e tem reagido ao aumento da pressão militar e econômica dos EUA.

O jornal relata que a China condenou como “hegemonia ilegal” e “bullying unilateral” o fortalecimento militar americano ao redor da Venezuela, citando episódios como a interceptação de navios petroleiros acusados de contornar sanções e transportar petróleo também para a China.

No Conselho de Segurança da ONU, o vice-representante permanente da China, Sun Lei, fez um pronunciamento contundente em defesa de Caracas:

 “Nós nos opomos a qualquer movimento que viole os propósitos e princípios da Carta da ONU e infrinja a soberania e a segurança de outros países”

Apesar do tom duro, o próprio jornal observa que a tendência é de que o apoio chinês se mantenha sobretudo no plano retórico, sem medidas que elevem o risco de confronto militar direto com os EUA.

Sinais militares e preocupação com “pontos de apoio estratégico”

Mesmo assim, a reportagem destaca que Pequim tem emitido sinais simbólicos que ultrapassam o campo econômico. A mídia estatal chinesa exibiu recentemente uma simulação de guerra no Hemisfério Ocidental, com forças “vermelhas” enfrentando forças “azuis” nas proximidades de Cuba e do México.

Para Leland Lazarus, consultor de risco baseado em Miami e ex-diplomata americano, tais sinais reforçam que as ambições chinesas já não são apenas comerciais. Ele disse que Washington teme a criação de uma rede global de “pontos de apoio estratégico”, que poderia transformar portos em hubs logísticos militares, incluindo uma possível estrutura em Cuba.

O jornal menciona ainda que, em relatório anual não sigiloso ao Congresso, o Departamento de Defesa dos EUA citou Cuba como o único país das Américas onde a China pode ter considerado instalar uma base militar. Segundo o documento, Pequim também avançou por meio de “soft power” e ajuda tecnológica — como apoio ao lançamento de satélites.

Panamá expõe a disputa direta entre Washington e Pequim

A disputa mais sensível, porém, ocorre no Panamá. O país tornou-se peça central no discurso do governo Trump, que afirma haver influência excessiva de Pequim no entorno do canal e chegou a defender a retomada do controle americano sobre a área.

Sob pressão, o Panamá anunciou que se retiraria da Iniciativa Cinturão e Rota e se afastou de eventos liderados por Xi. Ainda assim, o episódio dos portos do canal mostra como a disputa é complexa. O jornal relata que Trump comemorou um acordo anunciado em março em que um grupo apoiado pela BlackRock compraria o controle de portos operados por uma empresa de Hong Kong desde 1996 — considerado um dos sinais mais claros de presença chinesa.

Mas, segundo a reportagem, Pequim reagiu pressionando para que o acordo fosse reestruturado e o controle acabasse migrando para a Cosco, gigante estatal chinesa do setor de navegação.

Em outro gesto simbólico, o prefeito de uma cidade vizinha ao canal determinou a demolição de um parque da amizade construído pela China, o que provocou irritação na embaixada chinesa.

Taiwan no centro: prioridade máxima da política chinesa

O documento chinês deixa explícita uma prioridade central para Pequim: romper os vínculos remanescentes entre países latino-americanos e Taiwan. A América Latina abriga sete dos 12 governos do mundo que ainda mantêm relações diplomáticas com a ilha — entre eles Guatemala, Paraguai e Haiti.

Segundo o texto citado na reportagem, Pequim promete benefícios não detalhados a países que aceitem o princípio de “uma só China”. Alguns governos já mudaram sua posição nos últimos anos, incluindo o próprio Panamá.

Mas a disputa permanece aberta. O jornal lembra que Honduras recentemente elegeu Nasry Asfura, candidato apoiado por Trump, que criticou a decisão de 2023 de estabelecer relações com Pequim e afirmou que consideraria restaurar vínculos com Taiwan.

Trump retoma a lógica da Doutrina Monroe — e dá munição retórica a Pequim

Ainda que a estratégia de segurança nacional do governo Trump não cite a China nominalmente ao delinear uma espécie de “Corolário Trump” da Doutrina Monroe, o jornal afirma que o alvo é evidente. O texto fala de “custos ocultos” da assistência estrangeira, mencionando riscos como espionagem, armadilhas da dívida e vulnerabilidades cibernéticas.

A estratégia também afirma que os EUA querem se tornar “o parceiro de primeira escolha” na região.

Para Lazarus, esse tipo de retórica neocolonial oferece a Pequim um trunfo narrativo:

 A China estaria “tentando traçar um contraste forte com o renascimento da Doutrina Monroe por Trump”, e a linguagem usada por Washington seria um “presente narrativo” para Pequim

Disputa deve crescer e redesenhar alianças regionais

O quadro descrito pelo The Wall Street Journal indica que o tabuleiro latino-americano deve se tornar um dos principais espaços de competição geopolítica no novo ciclo de rivalidade entre EUA e China. Pequim amplia presença econômica e diplomática, enquanto Washington, sob Trump, tenta reafirmar seu domínio histórico — agora com um discurso de segurança mais explícito e, por vezes, agressivo.

O documento chinês e as reações americanas sugerem que a disputa pelo futuro da América Latina tende a se intensificar, com impacto direto sobre infraestrutura, comércio, mineração, energia, alianças estratégicas e até a própria estabilidade política regional.

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