Putin: sistema comercial do Ocidente perde força, enquanto BRICS avança
Sistema comercial dominado pelo Ocidente perde força, afirma Putin no SPIEF, enquanto BRICS amplia peso no comércio e na tecnologia
247 - O sistema comercial dominado pelo Ocidente perde força em meio ao avanço de novas rotas econômicas, ao crescimento dos BRICS e à busca de países emergentes por soberania tecnológica, afirmou o presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante sessão plenária do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF), nesta sexta-feira (5), segundo a Sputnik International.
Putin participou do SPIEF pela 20ª vez, em um evento que se consolidou desde 2006 como o principal fórum empresarial e econômico da Rússia. Conhecido por alguns observadores como o “Davos russo”, o encontro costuma reunir autoridades, investidores e representantes de diferentes países em debates sobre economia, energia, comércio internacional e geopolítica.
Em seu discurso, o presidente russo afirmou que Moscou permanece disposta a trabalhar com outros países em bases de igualdade e cooperação mutuamente benéfica. Segundo ele, essa disposição inclui a busca conjunta por soluções para desafios globais, como energia, desenvolvimento econômico e transformação tecnológica.
Putin também acusou elites europeias de alimentarem um cenário de instabilidade internacional. Para o presidente russo, enquanto o paradigma do desenvolvimento global passa por mudanças profundas, setores dirigentes da Europa estariam interessados em ampliar o caos e arrastar mais países para esse ambiente de tensão.
O dirigente russo afirmou que o modelo hierárquico de comércio e cooperação internacional passa por uma transformação estrutural. Segundo ele, embora esse sistema tenha sido apresentado durante décadas como universal, sua lógica real teria sido a extração de riqueza e recursos de alguns países em benefício de outros.
Na avaliação de Putin, esse modelo também teria criado mecanismos de exclusão contra nações que passaram a defender maior autonomia política e econômica. O presidente russo sustentou que o mundo caminha para uma configuração multipolar, impulsionada sobretudo por países em desenvolvimento.
“O mundo está se tornando mais equitativo, mais justo, porque o crescimento econômico” está se deslocando para “novos centros de crescimento”, afirmou Putin.
O presidente russo destacou o papel dos BRICS nesse processo. Segundo ele, os países do bloco respondem por quase metade do crescimento econômico recente, enquanto o G7 representa menos de 20% desse avanço. Putin afirmou ainda que “os BRICS já ultrapassaram o G7” e que essa diferença tende a aumentar.
De acordo com Putin, instituições internacionais como o Banco Mundial projetam crescimento anual de 1,1% para o G7, enquanto os países dos BRICS devem avançar 4,4% ao ano. Para o líder russo, esses números indicam uma mudança de eixo na economia global e reforçam a perda de centralidade das potências ocidentais.
Putin citou o Corredor Norte-Sul, a nova rota marítima russa pelo Ártico e outros caminhos comerciais emergentes como sinais de que o comércio global deixa de girar em torno do Ocidente. Na avaliação dele, novas cadeias logísticas e corredores de transporte mostram que a economia internacional passa por uma reorganização.
O presidente russo afirmou que o comércio entre países dos BRICS já supera US$ 1 trilhão por ano. Ele também destacou o papel de países da Ásia Central, como o Uzbequistão, nesse redesenho das rotas comerciais e na ampliação das conexões entre economias emergentes.
Ao tratar da Organização Mundial do Comércio (OMC), Putin responsabilizou países ocidentais pelo enfraquecimento do sistema multilateral. Segundo ele, o Ocidente apoiou as regras da entidade enquanto elas lhe eram favoráveis, mas passou a recorrer a sanções quando começou a perder competitividade.
“A erosão da Organização Mundial do Comércio foi desencadeada pelas nações ocidentais. Quando lhes convinha, elas promoviam a OMC, mas quando o Ocidente começou a perder essa competição, suas regras passaram a ser mais um fardo”, declarou Putin.
O presidente russo afirmou que a pressão contra a Rússia fracassou. Segundo ele, o país mantém uma relação dívida/PIB entre 15% e 16%, nível que classificou como muito baixo em comparação com economias europeias desenvolvidas, onde esse indicador frequentemente supera 100%.
Putin também destacou que o rublo passou a representar 65% das exportações russas. Para ele, esse movimento evidencia uma redução da dependência de moedas ocidentais e uma resposta ao uso de sanções e restrições financeiras contra Moscou.
O presidente russo afirmou ainda que a apreensão de reservas internacionais da Rússia pelo Ocidente serviu como mais um elemento de aceleração da transição para uma nova ordem econômica. Segundo ele, as sanções causaram danos duradouros à posição global do dólar e do euro.
“Gostaria de sublinhar que, assim como a Rússia pode perder instantaneamente o acesso a seus ativos legítimos denominados em dólar ou euro, outros países também podem perder acesso à infraestrutura financeira e de pagamentos ocidental”, afirmou Putin.
No campo tecnológico, Putin disse que os setores de alta tecnologia dos países dos BRICS já representam mais de um terço de suas exportações. Entre as áreas citadas estão inteligência artificial, tecnologia da informação e energia nuclear, com protagonismo de China, Índia e Rússia.
Para o presidente russo, inteligência artificial, sistemas autônomos e soluções baseadas em plataformas digitais serão decisivos para elevar a produtividade do trabalho e sustentar uma nova etapa de desenvolvimento econômico.
Putin defendeu a soberania tecnológica como condição indispensável para os países que desejam manter influência no século XXI. Segundo ele, as nações que não desenvolverem sistemas próprios correm o risco de ficar à margem da economia digital global.
A soberania tecnológica, afirmou Putin, é uma lição que a Rússia teria aprendido após 2022, quando, segundo ele, a política passou a interferir de forma mais direta nas relações econômicas. O presidente russo disse que não deve haver ilusões sobre a necessidade de construir capacidades nacionais próprias.
O líder russo afirmou que o mundo vive uma “corrida pela soberania”. Para ele, soberania significa capacidade de agir com inteligência, força, eficiência e velocidade, além de exigir investimentos, ampliação de capital e modernização produtiva.
No plano interno, Putin apontou um novo ciclo de investimentos e o combate à inflação como prioridades para sustentar o crescimento econômico da Rússia. Ele também citou digitalização, inteligência artificial, sistemas autônomos e comércio eletrônico como áreas centrais para a economia russa, afirmando que o país está entre os líderes globais nesse último setor.
O presidente russo relacionou desenvolvimento econômico à qualidade de vida, aos salários e à dinâmica demográfica. Segundo ele, os salários na Rússia cresceram 30% em termos reais nos últimos cinco anos, já descontada a inflação, enquanto o desemprego está em 2,2%.
Putin também afirmou que soberania econômica passa pelo fortalecimento do setor privado. Ele defendeu maior apoio estatal aos empreendedores, com simplificação regulatória, regimes tributários mais eficientes, soluções digitais, plataformas de negócios, atração de investimentos estrangeiros e um ambiente previsível para as empresas.
Na área de infraestrutura, o presidente russo destacou a importância de ferrovias de alta velocidade, quebra-gelos e ampliação da frota comercial. Segundo Putin, a Rússia pretende entrar no grupo dos dez maiores países do mundo nesse setor.
O discurso no SPIEF reforçou a estratégia de Moscou de apresentar os BRICS, as novas rotas comerciais e a soberania tecnológica como pilares de uma ordem internacional menos dependente do Ocidente. Para Putin, essa reorganização já está em curso e tende a ampliar o peso econômico dos países em desenvolvimento.





