"América Latina pertence aos latino-americanos", diz Celso Amorim sobre interferência militar dos EUA na região
Diplomata também disse não acreditar em uma ação direta dos EUA nas eleições no Brasil
247 - O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou nesta quarta-feira (27) que a América Latina precisa fortalecer sua soberania, ampliar mecanismos de integração regional e defender a autodeterminação dos povos diante das tensões geopolíticas globais. As declarações foram dadas em entrevista à RT durante o Fórum Internacional de Segurança, realizado na região de Moscou, na Rússia.
Ex-ministro das Relações Exteriores e um dos principais formuladores da política externa brasileira nos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Amorim criticou a presença militar dos Estados Unidos na América Latina e defendeu uma atuação conjunta dos países da região para preservar sua independência política, econômica e democrática.
"América Latina tem que proteger a si mesma"
Durante a entrevista, o diplomata afirmou que a retomada da integração sul-americana e latino-americana é essencial para enfrentar os desafios internacionais. "Embora as ideologias possam ser um pouco diferentes, isso não importa; a região tem que proteger a si mesma, seus recursos, sua independência e sua democracia", declarou.
Amorim também resgatou a importância de organismos regionais criados nos últimos anos, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), e reiterou a necessidade de fortalecer mecanismos próprios de cooperação.
Críticas à presença dos EUA na região
O assessor especial de Lula classificou como "preocupante" a presença militar dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe. "Acreditamos que a América Latina, incluindo o Caribe, pertence aos latino-americanos", afirmou.
Segundo Amorim, a defesa da paz e a solução pacífica de conflitos devem ser um princípio central da atuação regional. O diplomata destacou que o Brasil mantém relações pacíficas com seus vizinhos há mais de um século. "O Brasil tem 10 vizinhos com os quais não trava uma guerra há 150 anos", disse. "Quantos países do mundo podem dizer isso? Acho que nenhum", acrescentou.
Cuba, Venezuela e autodeterminação dos povos
Ao comentar as ameaças feitas pelos Estados Unidos contra Cuba, Amorim reafirmou o apoio brasileiro ao princípio da não intervenção. "Pode-se ter ou não críticas sobre alguns aspectos, mas cada país é independente para resolver seus próprios problemas", afirmou.
O diplomata também destacou o envio de medicamentos e alimentos brasileiros a Cuba e elogiou os esforços da Rússia para garantir o fornecimento de petróleo à ilha. "É absolutamente necessário respeitar sua autodeterminação e os princípios de não intervenção e solução pacífica de conflitos", declarou.
Sobre a Venezuela, Amorim classificou como "muito condenável" o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças militares estadunidenses em janeiro deste ano. Segundo ele, episódios dessa natureza reforçam a necessidade de fortalecimento das capacidades de defesa regional.
Eleições brasileiras e segurança da informação
Questionado sobre possíveis tentativas de interferência externa nas eleições presidenciais brasileiras de outubro, Amorim afirmou não acreditar em uma ação direta do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral.
O diplomata lembrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve recentemente na Casa Branca para uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Eles tiveram uma conversa muito, muito boa", disse.
Ao mesmo tempo, Amorim alertou para a possibilidade de influência de outros grupos e setores no debate político brasileiro, ressaltando a importância da segurança da informação durante o período eleitoral.
Reunião com Lavrov reforça agenda do BRICS
Também nesta quarta-feira, Amorim se reuniu em Moscou com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov. Os diplomatas discutiram temas relacionados ao Oriente Médio, ao golfo Pérsico, à crise na Ucrânia e à situação política na América Latina.
Os representantes de Brasil e Rússia também reafirmaram o compromisso de ampliar a coordenação diplomática entre os dois países em organismos multilaterais como BRICS, ONU e G20.


