A democracia veste Prada?
Recuperar a democracia exige mais do que votar. Exige vigilância, cobrança e, sobretudo, recusa à passividade
A democracia representativa brasileira atravessa uma crise que já não pode ser disfarçada por discursos institucionais. O voto, instrumento principal desse modelo, tem funcionado, na prática, como um cheque em branco — entregue a cada eleição e raramente compensado em participação real ou retorno efetivo à sociedade.
A pergunta efetiva: quem, de fato, está sendo representado?
Entre o eleitor e o eleito, abre-se um abismo. De um lado, a população precarizada; de outro, uma parcela da classe política transita por espaços de privilégio, com acesso a benefícios, viagens e estruturas que pouco dialogam com a realidade da maioria. Não se trata apenas de percepção — trata-se de experiência social concreta.
A democracia representativa, nesse contexto, parece ter se convertido em um sistema de autossustentação de arrogantes. Representantes eleitos passam a orbitar uma lógica própria, distante das demandas que os legitimaram. Congressos internacionais, agendas seletivas e rotinas protegidas reforçam a imagem de uma elite política que já não presta contas com a mesma intensidade com que solicita votos.
Ademais, esse distanciamento não se limita ao campo político-partidário. Ele também se projeta sobre outras esferas de poder, como o Judiciário. A forma como são conduzidas as indicações para tribunais superiores, especialmente para o Supremo Tribunal Federal, frequentemente alimenta a percepção de que critérios técnicos se misturam a interesses políticos. Ainda que o rito institucional seja respeitado, a falta de transparência e o baixo grau de participação popular nesse processo reforçam a sensação de afastamento entre as decisões que moldam o país e os cidadãos que deveriam ser seus destinatários.
É nesse ponto que a metáfora se impõe: a democracia, hoje, não apenas governa — ela performa. E, ao performar, veste-se para um público que não é o eleitor comum. Se antes era símbolo de participação, agora, em muitos casos, aproxima-se de um espetáculo cuidadosamente encenado, onde a aparência substitui a essência.
Isso não significa negar o valor da democracia, mas reconhecer sua deformação. Quando o exercício do poder se distancia do bem comum, ele deixa de ser instrumento coletivo e passa a operar como mecanismo de manutenção de privilégios.
Recuperar a democracia exige mais do que votar. Exige vigilância, cobrança e, sobretudo, recusa à passividade. Porque, enquanto o cidadão silencia após as urnas, alguém segue decidindo — e, ao que tudo indica, como um dândi emplumado e egoísta.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



