A namorada da minha filha
Um doce de pessoa – sensível, delicada, musical
Não me recordo bem no dia de quantos anos da minha filha ela pediu para eu deixá-la na casa da sua namorada.
Um desconforto bateu no fundo da minha alma, mas eu consegui disfarçar, achar que era a coisa mais natural do mundo.
Afinal, duas namoradas não são fato para se estranhar.
Quando vi quem era ela, meu desconforto aumentou de grau.
De longe, me pareceu ser um homem. Muito mais alto que minha filha, mais forte. E então me deixei convencer que minha querida filha tinha se envolvido numa fraude, da qual eu tinha que salvá-la.
Em outro aniversário, tempos depois, minha filha anunciou que iria morar junto com sua namorada.
Eu me recusava a encarar sua eleita, embora tenha concordado com a nova realidade.
Durante muito tempo eu proibi a namorada da minha filha de frequentar a nossa casa. Nunca reclamei em altos brados, mas justificava minha atitude com a suposição de que minha filha tinha sido sequestrada por uma pessoa estranha, que não lhe daria um futuro feliz.
E torcia intimamente por um rompimento: quem sabe ela descobriria que não havia amor nessa relação.
E minha querida filha voltaria ao nosso ninho.
No penúltimo dia do ano passado, pedi à minha filha para vir comemorar o último dia em nossa casa, com minha mulher e o irmão gêmeo da minha filha.
“Posso trazer a Darlene?”, ela perguntou.
“Sei lá”, respondi.
Mais tarde, revirando-me na cama em busca do sono, desci do quarto e disse ao meu filho:
“Vamos fazer um festival de frutas dia 31, convide a sua irmã e a namorada dela”.
Tarde demais. Ela respondeu que já tinham combinado passar o ano novo na casa de uma amiga. Mas poderiam vir no dia seguinte.
Esse “dia seguinte” foi ontem. Comprei todas as frutas frescas da temporada, de melancia a um abacaxi, muita cereja, ameixas, pêssego em compota; meu filho preparou uma sobremesa de origem polonesa e duas saladas de verão.
Eu já era uma outra pessoa, depois de quase morrer.
Do outro lado do Atlântico, meu filho primogênito anunciou o nascimento de sua primeira filha, minha segunda neta. Sua mulher, polonesa, nasceu na mesma cidade onde eu tinha morado por um ano, em 1958, a caminho do Brasil. O nome da cidade não sei escrever direito. Algo como “Walbjegh”. Talvez com mais consoantes. Uma cidade com mina de carvão dentro do perímetro urbano.
Contei a história da namorada da minha filha, sua meia irmã, e meu sábio primogênito alertou: “Você não pode rejeitá-la”.
“Não posso”, respondi. “E não vou mais rejeitá-la”.
Quando as duas chegaram para nosso encontro familiar, a primeira coisa que fiz foi dar uma abraço apertado nela, e em meio a uma cachoeira de lágrimas, seu corpo quente pulsando com o meu, pedi que me perdoasse por eu ter sido tão estúpido e mau por tanto tempo.
Enquanto todos sentavam-se à mesa, menos eu, ainda preso a uma dieta de comida leve, minha filha colocou para tocar, no spotify, as músicas compostas e cantadas pela Darlene. Imediatamente fui envolvido pelas ondas melodiosas, sensíveis, e ao mesmo tempo calorosas de sua voz e de seu arranjo.
Era tudo muito delicado, muito lindo, o som parecia vir do espaço sideral. Pedi para ouvir outra, mais outra. “Tenho um álbum com mais de dez”, ela contou.
Foi o dia mais feliz da minha vida. A música da Darlene, meus filhos e minha mulher saboreando o ano novo, minha neta italiana, meu outro filho, embora um pouco distante, passando o dia no sítio, estava “presente”, com sua mulher e sua filha que chama carinhosamente de “maluquinha”, minha primeira neta que, dias antes, havia sonhado que eu tinha tido alta do Einstein no mesmo dia em que recebi a alta de verdade.
Estou chorando de felicidade até agora.
Entrem no spotify, escrevam o nome do novo membro da minha família - Darlene - e conheçam suas pequenas obras primas que irão, com certeza, emocioná-los do alto das suas cabeças até a ponta dos pés.
Feliz 2026!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




