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Casos Master e INSS colocam Mendonça e Polícia Federal em rota de colisão

Desconfianças sobre investigações do Banco Master e fraudes no INSS ampliam tensão entre ministro do STF e direção da PF

André Mendonça (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Ton Molina/STF)
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247 - As investigações sobre o caso Master e as fraudes no INSS ampliaram o desgaste entre o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em meio a desconfianças recíprocas sobre a condução dos inquéritos e o acesso a informações sensíveis, relata o jornal O Globo.

Interlocutores de Rodrigues avaliam que decisões e movimentos atribuídos ao gabinete de Mendonça teriam contribuído para fragilizar a posição do chefe da PF. Do outro lado, auxiliares do ministro demonstram incômodo com a atuação da corporação, especialmente no tratamento dado às propostas de delação de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, recusadas tanto pela PF quanto pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

O episódio mais recente de tensão ocorreu após uma operação da Polícia Federal apontar um elo entre o caso Master e o senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo Lula (PT) no Senado. Rodrigues teria reagido com irritação à circulação da versão de que a direção-geral da PF teria sido surpreendida pela medida. Interlocutores do delegado afirmam que ele foi avisado por subordinados, como costuma ocorrer em operações desse porte, e atribuem ao entorno de Mendonça a disseminação da ideia de que o chefe da PF estaria alheio a uma investigação relevante.

No diagnóstico de aliados de Rodrigues, o ministro teria interesse em reforçar a percepção de que o diretor-geral estaria enfraquecido internamente e distante de apurações de grande impacto. Auxiliares de Mendonça negam essa interpretação e afirmam que seria natural o chefe da PF ter conhecimento da operação, dada a estrutura necessária para sua execução. Eles também sustentam que não cabe ao STF comunicar diretamente a direção-geral da corporação sobre medidas operacionais.

Procurados, André Mendonça e Andrei Rodrigues não se manifestaram.

O mal-estar entre os dois já havia aparecido quando Mendonça assumiu a relatoria das investigações do Banco Master no Supremo, depois da saída do ministro Dias Toffoli do caso. De acordo com o portal Poder360, em reunião reservada entre ministros do STF, Mendonça teria feito críticas ao relatório da PF que apontava uma relação de Toffoli com Vorcaro. O material havia sido entregue por Rodrigues ao presidente da Corte, Edson Fachin. Ainda segundo a publicação, Mendonça teria afirmado que uma “investida” da Polícia Federal poderia atingir qualquer ministro.

Ao assumir o caso, uma das primeiras decisões de Mendonça foi autorizar o compartilhamento de dados com a PF, permitindo amplo acesso aos materiais apreendidos, mas impondo regras rígidas de preservação de sigilo. A medida foi interpretada por integrantes do governo como uma tentativa de limitar o trânsito de informações sensíveis dentro da cúpula da Polícia Federal, já que Rodrigues é visto como próximo do presidente Lula.

Na decisão, porém, Mendonça citou entendimento já adotado por ele em outros casos, incluindo a investigação sobre fraudes no INSS, na qual também foram impostas restrições sobre quem poderia acessar dados obtidos na apuração. Interlocutores do ministro afirmam que as limitações seguem critérios processuais e de proteção do sigilo, e não uma tentativa de afastar a direção-geral da PF.

Outro ponto de fricção envolve a interlocução do gabinete de Mendonça com a Polícia Federal. Atualmente, a ponte do ministro com a corporação ocorre principalmente por meio do delegado Thiago Marcantonio Ferreira, que atua em seu gabinete. Segundo relatos de interlocutores, Ferreira e Rodrigues não mantêm boa relação. A divergência remontaria a 2022, quando o delegado hoje lotado no gabinete do ministro coordenava a segurança dos candidatos à Presidência.

A aproximação direta entre o gabinete de Mendonça e a PGR também é vista por integrantes da PF como uma forma de “driblar” a cúpula da corporação. Auxiliares do ministro rejeitam essa leitura. Segundo eles, as medidas mais invasivas autorizadas nos inquéritos sob relatoria de Mendonça foram previamente solicitadas pela Polícia Federal e analisadas pela Procuradoria-Geral da República. Ao ministro caberia apenas decidir sobre os pedidos apresentados.

Na versão defendida pelo gabinete, nenhuma diligência desse tipo foi determinada de ofício. Os interlocutores de Mendonça reconhecem a existência de contatos frequentes entre integrantes do gabinete, investigadores da PF e membros da PGR, mas afirmam que essa comunicação é institucional e não significa que o Supremo esteja conduzindo as investigações.

Ainda segundo auxiliares do ministro, a função do gabinete é acompanhar a tramitação dos pedidos e esclarecer questões processuais. A condução das apurações, dizem, continua sob responsabilidade da Polícia Federal. Eles também negam que tenha havido qualquer tentativa de contornar Andrei Rodrigues, argumentando que a interlocução ocorre com as equipes responsáveis pelos inquéritos, que possuem autonomia investigativa.

Integrantes do gabinete de Mendonça afirmam ainda que, ao assumir a relatoria do caso Master, o ministro manteve a estrutura de investigação montada pela própria PF, sem interferir na escolha dos delegados encarregados dos procedimentos.

O desgaste também teria sido alimentado por uma decisão do Ministério da Justiça, ao qual a Polícia Federal é subordinada, de convocar policiais federais cedidos a tribunais, órgãos públicos e administrações estaduais. A determinação partiu do presidente Lula, sob a justificativa de reforçar o combate ao crime organizado. No Supremo, porém, ministros teriam interpretado o movimento como possível retaliação a Mendonça.

Integrantes do STF não receberam bem a medida e viram nela risco de interferência. A Corte fez chegar ao Ministério da Justiça sua contrariedade caso a convocação fosse adiante. Nesse primeiro momento, os policiais federais que atuam no Supremo não foram atingidos e permanecem em seus postos.

Um integrante do Ministério da Justiça afirmou, no entanto, que esses policiais ainda podem ser chamados. Aliados de Lula sustentam que eles foram poupados inicialmente para evitar prejuízos a investigações em andamento. Além de Thiago Marcantonio Ferreira, outros delegados da PF atuam em gabinetes do STF, como Fábio Shor, atualmente vinculado ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes.

O cenário revela um ambiente de tensão institucional em torno de investigações de forte impacto político e financeiro. O caso Master, que envolve apurações sobre Daniel Vorcaro e conexões com figuras públicas, e o inquérito sobre fraudes no INSS passaram a concentrar disputas sobre sigilo, autonomia investigativa, fluxo de informações e limites da atuação de cada órgão no sistema de Justiça.

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