Com o pai preso por trama golpista, Flávio Bolsonaro ocupa cadeira no PL para coordenar pré-campanha
Senador do PL passa a despachar da antiga sala de Jair Bolsonaro e intensifica articulações eleitorais
247 - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passará a despachar do gabinete que era utilizado por seu pai, Jair Bolsonaro, na sede nacional do Partido Liberal (PL), em Brasília. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, a ocupação do espaço é vista por aliados como um gesto simbólico dirigido a parlamentares, dirigentes e quadros do partido, sinalizando continuidade política dentro do grupo bolsonarista.
Mudança simbólica na sede do partido
O gabinete estava desocupado desde que Jair Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar, por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em 4 de agosto. Em novembro, ele iniciou o cumprimento de pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
A mudança também chamou a atenção porque o escritório de Flávio fica acima da sala da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher. Michelle foi deixada de lado na disputa interna sobre quem representaria o grupo na corrida ao Palácio do Planalto. Agora, terá como vizinho de andar o pré-candidato oficial da legenda, que deve receber lideranças partidárias e conduzir articulações políticas no local.
Uma liderança da cúpula do partido afirmou, sob reserva, que há dúvidas sobre como Michelle reagirá à nova configuração. “Vai só assistir; se vai se incomodar e pedir pra mudar de escritório; ou se vai abraçar a causa de uma vez por todas”, disse sob condição de anonimato. Aliados da ex-primeira-dama demonstraram incômodo com o anúncio considerado repentino da pré-candidatura de Flávio, feito em dezembro.
Articulações estaduais e alianças estratégicas
O senador deve iniciar formalmente os despachos na sede nacional do PL após retornar de viagem aos Estados Unidos, onde está acompanhado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e do comunicador Paulo Figueiredo. A agenda não foi divulgada por sua equipe.
A pré-campanha está concentrada na organização dos palanques estaduais. Flávio delegou ao senador Rogério Marinho (PL-RN), secretário-geral do partido, a coordenação das articulações. Marinho negocia diretamente com Jair Bolsonaro, que cumpre pena no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”.
No Rio de Janeiro, há expectativa de que Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo e atual secretário estadual de Cidades na gestão Cláudio Castro (PL), ofereça palanque ao senador em eventual disputa ao governo estadual. Em São Paulo, Flávio busca fortalecer a relação com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ambos devem se reunir no Palácio dos Bandeirantes para sinalizar alinhamento político e reforçar o projeto eleitoral do grupo.
Pesquisas orientam ajustes no discurso
Levantamentos internos têm orientado mudanças estratégicas na comunicação do senador. De acordo com aliados, não haveria, neste momento, concorrência direta à sua candidatura no campo da direita, após período de divisão entre grupos próximos a Tarcísio, Michelle Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
As pesquisas indicam dificuldades entre eleitores indecisos, mulheres e segmentos da classe média, públicos nos quais Tarcísio apresentava desempenho superior. Também há atenção ao eleitorado jovem, diante da avaliação de que políticas educacionais federais, como o programa Pé-de-Meia, possam influenciar esse grupo.
Segundo a reportagem, esses dados motivaram ajustes no discurso de Flávio, com o objetivo de corrigir percepções consideradas “errôneas” por seus aliados. Nos últimos dias, o senador publicou mensagens em defesa do carnaval e do combate ao racismo envolvendo o jogador Vinicius Júnior, além de compartilhar conteúdo direcionado à comunidade LGBT.
A estratégia foi reforçada após pesquisas qualitativas indicarem resistência de setores moderados que associariam o senador ao meio militar, carreira que ele não integrou. A equipe passou a defender um movimento ao centro, buscando ampliar o alcance para além do eleitorado ideologicamente alinhado à direita.
Entrevistas qualitativas apontam ainda que parte do eleitorado conhece Flávio principalmente como “filho de Jair Bolsonaro”, o que representa, na avaliação de sua equipe, um desafio adicional na consolidação de identidade própria na disputa presidencial.


