Lula é 'peça central' no momento geopolítico, aponta Haddad
Ministro confirma saída do Ministério da Fazenda e defende Dario Durigan para o cargo
247 - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), afirmou que pretende encerrar sua passagem pela pasta ainda em janeiro e indicou que deseja atuar na campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com foco na elaboração do plano de governo de um possível “Lula 4”. Ele também defendeu que o substituto no comando do ministério seja o secretário-executivo Dario Durigan, a quem atribuiu “trânsito” junto à Casa Civil e ao presidente.
As declarações foram feitas em entrevista à GloboNews, em conversa com Míriam Leitão, em conteúdo publicado pelo jornal O Globo. No diálogo, Haddad apresentou um balanço da agenda econômica, respondeu a críticas sobre o ajuste fiscal, comentou a situação dos Correios, tratou do caso Banco Master e avaliou que o centro do debate eleitoral de 2026 deve se deslocar da pauta democrática de 2022 para o cenário de uma “nova ordem global” sob tensão.
Saída da Fazenda e atuação na campanha
Haddad disse que pretende falar com Lula nos próximos dias para discutir sua saída. “Provavelmente vou conversar com o presidente essa semana. Voltei de 10 dias de férias e vamos conversar sobre isso essa semana”, afirmou. Segundo ele, a troca de comando deveria ocorrer no início do ano por causa de obrigações orçamentárias e de execução financeira. “Eu acho que o substituto da Fazenda devia começar o ano no cargo”, disse, ao mencionar a necessidade de atenção “desde o primeiro dia” em rotinas do ministério.
Ao explicar por que mudou de ideia — já que em entrevista anterior havia apontado a intenção de permanecer até o fim do mandato —, Haddad argumentou que pode ajudar de maneira mais efetiva na reeleição. “O presidente tem falado comigo e eu penso que posso colaborar, esse ano, de outra maneira para a sua reeleição”, afirmou. Ele disse ainda que não tem planos de disputar eleição em 2026: “Não está nos meus planos ser candidato em 2026”.
Durigan como sucessor e confiança na equipe
Questionado sobre o nome do possível substituto, Haddad elogiou Durigan e outros integrantes do time econômico, dizendo que costuma dar visibilidade ao trabalho da equipe. “Dario é uma figura excepcional”, afirmou. Mais adiante, minimizou o temor de que um novo ministro não teria força política para resistir às pressões típicas de um ano eleitoral. “O Dario tem muito trânsito na Esplanada, muito. Junto à Casa Civil, junto ao presidente, muito trânsito”, disse.
Haddad também rebateu críticas de que a gestão poderia ter feito mais no ajuste fiscal. “O pessoal da direita diz 'podia ter feito mais no fiscal'. Mas vocês fizeram durante sete anos mais no fiscal? Não, vocês não fizeram mais”, declarou, ao defender que a equipe seguirá perseguindo as metas.
Ajuste fiscal: "déficit em dois anos caiu 70%", diz Haddad
No trecho dedicado às contas públicas, Haddad sustentou que houve esforço fiscal e apresentou os números citados por ele para comparar o cenário herdado com o resultado atual. Ele afirmou que o Orçamento de 2023 enviado pelo governo anterior previa déficit: “O projeto que o Bolsonaro entregou no último ano de mandato para o Orçamento de 2023, ele previa um déficit da ordem de R$ 63 bilhões”.
Na sequência, o ministro citou dois componentes que, segundo ele, agravariam o quadro: a diferença do Bolsa Família e precatórios. “E qual é essa diferença? R$ 52 bilhões”, afirmou, ao tratar do benefício. Sobre a PEC de precatórios declarada inconstitucional pelo STF, disse: “Qual era o valor a mais que deveria constar do Orçamento de 2023 e não constou? R$ 44 bilhões”. Com base nessa soma, Haddad concluiu: “Nós herdamos um déficit de 1,59% e no terceiro ano de governo estamos entregando 0,48%”. E emendou: “De 1,59% para 0,48%, o déficit em dois anos caiu 70%”.
Ao comentar a dívida pública, Haddad atribuiu parte relevante da alta ao patamar de juros. “A dívida está aumentando por conta do juros alto. Não está aumentando por causa do déficit alto, porque o déficit está menor”, afirmou.
Reforma tributária e justiça fiscal
Sobre a Reforma Tributária, Haddad disse que o Congresso analisou os projetos encaminhados e que as mudanças não esvaziaram o alcance. “Eu penso que é a maior reforma tributária já feita na história do Brasil em regime democrático, com participação de toda a sociedade”, declarou. Ele apontou a transição como decisiva a partir de 2027: “E ela é uma pequena revolução que nós vamos verificar a partir de 1º de janeiro de 2027”.
O ministro também destacou medidas relacionadas à renda, isenção e compensações via tributação de dividendos, além de mecanismos voltados a reduzir regressividade, citando devoluções a inscritos no CadÚnico por meio de cashback.
Supersalários e títulos isentos: temas que não saem da pauta
Haddad afirmou que pretende retomar o debate sobre títulos isentos, mencionando que o tema tem impacto na rolagem da dívida e concorrência com títulos do Tesouro. Sobre supersalários, disse que insistiu no assunto e que, apesar da resistência no Congresso, a pauta precisa ser enfrentada. “Acho que ninguém falou mais de supersalários do que eu”, afirmou. Para ele, a discussão deve continuar: “Sou da opinião que é um assunto que um governo dos trabalhadores tem que bater nessa tecla o tempo todo até vencer”.
Correios e o custo de universalizar o serviço postal
Haddad disse que o governo aceitou conceder empréstimo aos Correios com aval do Tesouro, desde que acompanhado de plano de reestruturação e pagamento. Já sobre o pedido da estatal para financiar a universalização do serviço postal, afirmou que se trata de outro debate e que está em estudo. “O que os Correios estão pedindo para a Fazenda, o MGI e a Casa Civil é: no mundo inteiro tem uma forma de subsidiar essa universalização, que não está na conta da companhia, que tem que vir de algum lugar. E é isso que nós estamos estudando nesse momento”, afirmou. E concluiu: “Isso eu sou simpático a estudar. Eu acho que cabe essa discussão”.
Caso Banco Master: alerta para possível "maior fraude bancária"
Ao falar do Banco Master, Haddad descreveu impactos que, segundo ele, alcançaram CVM, FGC, Receita Federal e a própria Fazenda, citando riscos para arrecadação e investigações. Foi nesse contexto que afirmou: “pode ser a maior fraude bancária da história do Brasil”. Questionado sobre prazos do ressarcimento via Fundo Garantidor de Crédito, disse que o tema deve ser tratado com o Banco Central. “Isso aí é uma pergunta que cabe fazer ao Banco Central. Eu não tenho essa interlocução”, declarou.
Emendas e STF: "harmonização entre Poderes"
No debate sobre emendas parlamentares, Haddad citou regras pactuadas com o Supremo e afirmou que o montante precisa obedecer limites ligados à despesa discricionária. Ao comentar o papel do STF, defendeu que há coordenação institucional, não interferência. “Eu não penso que há interferência, mas uma harmonização entre Poderes”, afirmou. Sobre a atuação do ministro Flávio Dino na cobrança por transparência, disse: “Não tem havido uma caça às bruxas, está sendo feito de forma institucional”.
Eleição de 2026 e cenário global: Lula como "insubstituível"
Ao projetar o eixo do debate eleitoral de 2026, Haddad disse ver o mundo em transformação acelerada. “O mundo, na minha opinião, está sofrendo mudanças muito dramáticas”, afirmou. Para ele, Lula tem um papel singular por conseguir interlocução direta com chefes de Estado, inclusive Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. “Talvez o único brasileiro que consiga passar a mão no telefone e falar com qualquer chefe de estado no momento que ele precisar, incluindo o Trump”, disse.
Na avaliação do ministro, esse capital político tornaria Lula decisivo para assegurar o espaço do Brasil diante de uma ordem internacional mais tensa. “Ele é uma pessoa central para falar com Xi Jinping, com Putin, com Trump, com Macron, com quem quer falar e garantir o espaço do Brasil nessa nova ordem global, que é tensa, pensando no desenvolvimento e no bem-estar dos brasileiros”, concluiu.

