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Analistas já preveem petróleo a US$ 200 após agressões de Trump e Netanyahu à economia mundial

Escalada da guerra no Oriente Médio eleva risco de choque energético global e ameaça crescimento econômico

Irã é decisivo no mercado de petróleo (Foto: Reuters)

247 – A possibilidade de o petróleo atingir US$ 200 por barril deixou de ser considerada improvável e passou a integrar o cenário central de analistas do mercado internacional, após a escalada das agressões militares lideradas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, contra o Irã. As informações foram publicadas pela Al Jazeera, que ouviu especialistas sobre os impactos do conflito no abastecimento global de energia.

Menos de três semanas após os primeiros ataques, iniciados em 28 de fevereiro, o debate no mercado já não gira mais em torno de o barril ultrapassar US$ 100, mas sim até onde pode chegar diante da deterioração do cenário geopolítico. Em 9 de março, o Brent — referência global — atingiu quase US$ 120 e permanece acima de US$ 100 desde o dia 13.

A tensão se intensificou ainda mais após um ataque israelense ao campo de gás South Pars, no Irã, em 18 de março, seguido por retaliações iranianas contra instalações energéticas no Catar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. O movimento impulsionou os preços para mais de US$ 108 por barril.

O principal fator de pressão é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Com o bloqueio imposto pelo Irã e a ameaça de ataques a navios, o fluxo praticamente foi interrompido, gerando forte apreensão nos mercados.

A analista Vandana Hari, fundadora da Vanda Insights, afirmou à Al Jazeera: “Os petróleos de referência do Oriente Médio, como Omã e Dubai, já ultrapassaram o nível de US$ 150, então os US$ 200 já estão no horizonte, mesmo que ainda não para o Brent e o WTI”. Ela destacou ainda que “O quanto o petróleo vai subir a partir daqui depende quase inteiramente de quanto tempo o Estreito de Ormuz permanecer fechado”.

A dificuldade dos Estados Unidos em formar uma coalizão internacional para reabrir a rota marítima agrava o cenário. Segundo a reportagem, poucos navios — principalmente de bandeiras da Índia, Paquistão, Turquia e China — têm conseguido atravessar a região, enquanto países buscam acordos diretos com o Irã para garantir passagem segura.

Mesmo com a liberação coordenada de cerca de 400 milhões de barris das reservas estratégicas por países membros da Agência Internacional de Energia, o impacto não tem sido suficiente para compensar a interrupção do fluxo. Estimativas do OCBC Group Research indicam um déficit global de cerca de 10 milhões de barris por dia, mesmo considerando o uso dessas reservas.

Analistas da consultoria Wood Mackenzie já haviam apontado que o Brent poderia atingir US$ 150 em breve e que um cenário de US$ 200 “não está fora do campo das possibilidades” ainda em 2026. O próprio Irã também passou a mencionar esse patamar, com um porta-voz militar alertando que o mundo deveria “se preparar” para esse salto nos preços.

Chad Norville, presidente da publicação especializada Rigzone, explicou à Al Jazeera que “as reservas estratégicas e barris substitutos podem estabilizar os preços se o mercado acreditar que a oferta atenderá à demanda, mas se os fluxos por Ormuz forem interrompidos de forma significativa por um período prolongado, preços bem acima de US$ 100, chegando perto de US$ 200, são plausíveis”.

Ele acrescentou que o cenário atual pode ser ainda mais grave do que o observado durante a Guerra do Golfo: “Em vários aspectos, as condições hoje podem permitir um movimento ainda mais dramático, dado o maior volume da oferta global em risco e o desequilíbrio mais amplo entre oferta e demanda”.

Impactos na economia global

Um choque dessa magnitude teria efeitos profundos sobre a economia mundial. O Fundo Monetário Internacional estima que cada aumento de 10% nos preços do petróleo, mantido por um ano, eleva a inflação global em 0,4 ponto percentual e reduz o crescimento econômico em 0,15 ponto.

O recorde histórico nominal do Brent foi de US$ 147,50 por barril, durante a crise financeira global de 2008. Em valores atuais, esse pico equivale a cerca de US$ 224, o que mostra que o cenário projetado por alguns analistas não está distante de máximas históricas ajustadas pela inflação.

Adi Imsirovic, especialista em energia da Universidade de Oxford, afirmou que um petróleo a US$ 200 por barril “seria um grande freio para a economia mundial”. Ele detalhou os impactos: “Isso afetaria a inflação, o crescimento, o emprego e, em alguns casos, causaria escassez não apenas de combustíveis, mas também de materiais como fertilizantes e plásticos”.

Divergências e limites do mercado

Apesar do consenso sobre a tendência de alta, nem todos os analistas acreditam que o barril chegará a esse nível extremo. Sasha Foss, analista da Marex, classificou essa possibilidade como pouco provável, destacando o aumento da produção em países como Estados Unidos, Canadá, Argentina, Brasil e Guiana, além de rotas alternativas de escoamento.

Segundo ela, “vimos após a guerra entre Rússia e Ucrânia que preços altos estimulam aumento de produção”, o que tende a limitar movimentos extremos no médio prazo.

Outro fator que pode conter a escalada é o chamado “destruição de demanda”, fenômeno em que consumidores reduzem o consumo diante de preços elevados. Embora o petróleo tenha baixa elasticidade — por ser difícil de substituir —, há um ponto em que a demanda começa a cair, pressionando os preços para baixo.

Bob McNally, presidente do Rapidan Energy Group, observou que “ninguém sabe exatamente qual é esse nível, mas pode estar acima dos picos nominais anteriores de US$ 147 por barril”.

Já Gregor Semieniuk, professor da Universidade de Massachusetts Amherst, sintetizou o momento atual como uma disputa entre duas forças: “compradores competindo por menos barris a qualquer custo versus compradores saindo do mercado devido à destruição de demanda”.

Nesse contexto, a trajetória do petróleo dependerá diretamente da evolução do conflito e, sobretudo, da reabertura — ou não — do Estreito de Ormuz, hoje o principal ponto de estrangulamento da economia energética global.

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