Exploração de petróleo e gás volta ao centro da estratégia das gigantes de energia
Com reservas em queda, demanda crescente e limites para aquisições, petroleiras intensificam busca por novas descobertas
247 – As grandes empresas globais de energia estão recolocando a exploração de petróleo e gás no centro de suas estratégias, marcando o fim de um período prolongado de baixo investimento nessa área. Segundo reportagem da Reuters, executivos do setor reunidos na conferência CERAWeek, em Houston, afirmaram que a reposição de reservas voltou a ser prioridade diante do esgotamento progressivo dos campos atuais.
A mudança ocorre após anos em que as companhias priorizaram a distribuição de lucros aos acionistas, por meio de dividendos e recompra de ações, enquanto a revolução do shale nos Estados Unidos alimentava a percepção de oferta abundante. Ao mesmo tempo, o avanço das energias renováveis levantava dúvidas sobre a demanda futura por petróleo. Agora, porém, esse cenário se altera: a produção na Bacia do Permiano deve atingir um platô, enquanto a demanda global por energia segue em crescimento.
Reposição de reservas volta ao centro do debate
Executivos do setor reconhecem que a indústria deixou de lado, nos últimos anos, uma questão essencial: como substituir a produção atual que se esgota ano após ano. O problema se agrava porque os níveis de reposição de reservas estão muito abaixo dos padrões históricos.
Francisco Gea, diretor-executivo de exploração e produção da Repsol, destacou essa mudança de percepção ao afirmar: “Há cinco anos, ninguém falava sobre reposição, certo? Isso foi esquecido. Mas precisamos começar a pensar em como vamos substituir a produção atual nos próximos anos.”
O alerta é reforçado por dados apresentados durante a conferência por Vicki Hollub, CEO da Occidental. Segundo ela, a indústria tem substituído menos de 25% de sua produção anual — um contraste significativo em relação ao período entre as décadas de 1950 e 1970, quando a reposição superava em mais de cinco vezes o volume produzido anualmente.
Pressão geopolítica e risco de escassez
O ambiente geopolítico também contribui para a mudança de estratégia. A guerra envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã elevou a percepção de risco sobre a oferta global de energia. Executivos alertaram que eventuais déficits de produção podem persistir por mais tempo do que o esperado, reforçando a importância de novas descobertas.
Nesse contexto, cresce a percepção de que a reposição de reservas não poderá ser resolvida apenas por meio de fusões e aquisições. Após uma série de megatransações recentes, especialistas apontam que as oportunidades mais relevantes já foram aproveitadas, o que recoloca a exploração — baseada em geologia e geografia — no centro das decisões estratégicas.
Tecnologia acelera a produção
Se a exploração volta a ganhar protagonismo, ela retorna com novos instrumentos. O avanço tecnológico tem permitido reduzir significativamente o tempo entre a descoberta de um campo e o início da produção.
A Equinor, da Noruega, por exemplo, busca reduzir esse ciclo para dois a três anos, contra cinco a seis anos anteriormente. O CEO Anders Opedal explicou: “Estamos trabalhando de forma diferente com fornecedores, com processos internos e processos de aprovação.” Ele acrescentou: “Eu não vou mais aprovar um projeto por vez. Vou aprovar de seis a oito em conjunto.”
A Exxon Mobil também prioriza a velocidade. Segundo John Ardill, responsável global pela área de exploração, a empresa já considera, antes mesmo de entrar em um bloco exploratório, o tempo necessário para alcançar a produção inicial. A meta da companhia é atingir 5,5 milhões de barris por dia até 2030.
Na BP, o foco tem sido manter um portfólio robusto de projetos em desenvolvimento. Gordon Birrell, vice-presidente-executivo de produção e operações, afirmou: “Somos muito disciplinados na escolha dos projetos em que investimos capital e naqueles que priorizamos.”
Brasil ganha destaque no novo ciclo exploratório
A BP anunciou 12 descobertas em 2025, incluindo o campo de Bumerangue, no Brasil, além de áreas no Egito e no Golfo dos Estados Unidos. A empresa também relatou descobertas na Namíbia e em Angola, por meio da joint venture Azule Energy.
A presença do Brasil nesse cenário reforça seu papel estratégico no novo ciclo global de exploração, embora o setor reconheça que encontrar novas reservas continua sendo uma atividade de alto risco. Países como Brasil e Namíbia são citados como exemplos onde grandes empresas enfrentaram dificuldades para alcançar resultados expressivos.
Pressão por novas grandes descobertas
Desde a descoberta feita pela Exxon na Guiana, em 2015 — estimada em pelo menos 11 bilhões de barris recuperáveis —, a indústria intensificou a busca por novos achados de grande escala. O sucesso na região aumentou a pressão sobre outras companhias para encontrar reservas capazes de sustentar a produção futura.
A Shell, por exemplo, projeta um déficit de produção entre 350 mil e 800 mil barris de óleo equivalente por dia ao longo da próxima década, devido ao envelhecimento de seus campos. O CEO Wael Sawan afirmou que a empresa avalia projetos na Venezuela e pode autorizar investimentos até o fim do ano, dependendo das condições regulatórias.
Já a Chevron registrou, ao final de 2024, seu menor nível de reservas em pelo menos dez anos. A aquisição da Hess ajudou a recompor parte desse volume, mas o CEO Mike Wirth indicou que a retomada da exploração passou a ser prioridade.
Crescimento orgânico volta a ser prioridade
A avaliação predominante no setor é que a estratégia baseada apenas em aquisições chegou ao limite. Claudio Descalzi, CEO da Eni, destacou que as empresas reduziram o foco na exploração nas últimas décadas e passaram a depender de fusões e aquisições para crescer. Agora, o crescimento orgânico volta a ganhar relevância.
A Eni planeja adicionar mais de 850 mil barris por dia por meio de novos projetos nos próximos cinco anos. A estratégia da companhia tem sido apontada como referência por especialistas.
Adam Blythe, sócio do escritório Bracewell, sintetizou essa mudança ao afirmar: “As empresas estão percebendo que esse enorme déficit na reposição de reservas não pode ser resolvido apenas com fusões e aquisições.” E acrescentou: “Embora novas aquisições possam ajudar parcialmente, muitas das oportunidades mais evidentes e impactantes já aconteceram.”
Países aceleram processos para atrair investimentos
Governos também estão se adaptando ao novo cenário. Em Angola, por exemplo, os processos de licenciamento, que antes levavam até dois anos, passaram a ser concluídos em menos de seis meses. A meta é reduzir esse prazo para cerca de três meses.
Alcides Andrade, integrante da agência reguladora do país, destacou o esforço para tornar o ambiente mais competitivo e atrativo para investimentos internacionais.
Retorno às origens da indústria
Para os líderes do setor, o momento atual representa um retorno às bases da indústria de petróleo e gás, agora com maior uso de tecnologia e disciplina financeira. O objetivo é garantir novas reservas em um contexto de demanda persistente e campos em declínio.
O CEO da OMV, Alfred Stern, resumiu essa tendência ao afirmar: “Todos estão voltando a focar em fazer mais exploração novamente.” Ele acrescentou: “Sempre há um equilíbrio entre exploração orgânica e crescimento por aquisições, e a diferença está no tempo necessário para chegar à produção.”
A mensagem central que emerge do encontro em Houston é clara: diante de incertezas geopolíticas, queda nas reservas e demanda ainda robusta, a exploração voltou a ser peça-chave para o futuro da indústria energética global.


