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FGC paga investidores do Banco Master e foco vai para renda fixa, dizem especialistas

Cerca de R$ 40,6 bilhões devem retornar ao mercado e exigem decisões mais cautelosas

Banco Master (Foto: Divulgação)

247 -  Cerca de 800 mil investidores que mantinham aplicações no Banco Master começam a receber os valores garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). No total, R$ 40,6 bilhões voltam às mãos dos aplicadores, com um valor médio em torno de R$ 25 mil por pessoa, bem abaixo do teto de R$ 250 mil coberto pelo fundo. O retorno dos recursos ocorre após meses de incerteza e gera um novo desafio: decidir onde reaplicar o dinheiro em um cenário de maior aversão ao risco. Segundo o Infomoney, gestores, analistas e planejadores financeiros avaliam que a experiência levou muitos investidores, especialmente os de menor porte, a priorizar aplicações mais conservadoras, principalmente na renda fixa.

Impacto financeiro e psicológico do episódio

Para João Arthur, CIO da Suno Wealth, o processo deixou marcas além do aspecto financeiro. Segundo ele, apesar de o dinheiro ser devolvido, houve perda de rendimento e desgaste emocional. "Temos de partir do pressuposto de que geralmente o dinheiro de CDBs, qualquer que seja o indexador, CDI, pré ou IPCA, era para ser aplicação conservadora ou no máximo moderada", afirma. Ele ressalta que, na prática, o risco se mostrou maior do que muitos investidores imaginavam. "Ele tinha esse carimbo, mas a aplicação se mostrou mais arriscada do que deveria, mesmo com algumas pessoas apontando esse risco há muito tempo", acrescenta.

Arthur lembra que, entre a decretação da liquidação do banco e o pagamento pelo FGC, os recursos ficaram praticamente três meses sem render. Esse intervalo pode ter feito o ganho final ficar abaixo do CDI, reforçando a sensação de frustração entre os aplicadores.

Tesouro Selic como porto seguro

Nesse cenário, o Tesouro Selic surge como uma das alternativas mais citadas. "A opção seria o Tesouro Selic, ou LFT, porque é a aplicação mais conservadora do Tesouro Direto", explica Arthur. Ele observa que, mesmo com expectativas de queda da taxa básica ao longo de 2026, o patamar atual ainda é elevado. "O mercado, segundo o relatório Focus, projeta a Selic em 12,25% no fim do ano, e o mais otimista do mercado fala em 11%, mas na prática vamos ter uma Selic média muito alta", afirma. Para ele, a redução tende a ser gradual. "O juro sobe de elevador, mas desce de escada, devagar, 0,25 ponto, 0,50 ponto a cada reunião."

Bancos de primeira linha ganham espaço

Outra tendência apontada é a migração para títulos de instituições financeiras consideradas mais sólidas. Arthur avalia que LCIs, LCAs e CDBs de grandes bancos devem ganhar demanda. "Os investidores vão ter um retorno menor, é óbvio, mas porque o risco é menor, pois não se espera que essas instituições passem pela situação que o Master passou", diz.

Fundos de renda fixa exigem critério

Os fundos abertos de renda fixa também aparecem como opção, mas com ressalvas. "O investidor precisa ver a liquidez do fundo, se o resgate é em 5, 10 ou 30 dias, se isso é condizente com o perfil do investidor, e analisar também os ativos e passivos desse fundo", afirma Arthur. Ele observa que os spreads das debêntures estão relativamente baixos. "Então é preciso analisar se está compensando a relação risco-retorno."

O perfil do passivo do fundo também é decisivo. Segundo ele, fundos muito concentrados em investidores de varejo podem sofrer resgates em massa em momentos de estresse. "Dá para investir nesses fundos, desde que com muito critério, selecionando fundos que tenham um passivo bem pulverizado, bem estabilizado, e uma base de investidores de longo prazo", afirma.

Perfil do investidor e cautela na decisão

Camilla Dolle, head de Research de Renda Fixa da XP, destaca que o momento de liquidez exige planejamento. "Para quem ainda não tem, ou precisa complementar a reserva de emergência, essa pode ser uma boa oportunidade. Além disso, contar com carteiras recomendadas e o acompanhamento de especialistas ajuda a tomar decisões adequadas ao seu momento e realidade de vida", afirma. Para ela, é essencial diversificar a carteira entre diferentes classes de ativos, indexadores e prazos.

Dolle reforça que o investidor deve respeitar seu perfil. Para ela, é "fundamental que o investidor avalie seu perfil, horizonte e objetivos antes de reaplicar o dinheiro, evitando assumir riscos maiores do que aqueles compatíveis com seu perfil".

Renda fixa e o freio de arrumação

Sobre a tentação de migrar para a bolsa após a forte alta do ano passado, Arthur recomenda prudência. "O Brasil é um país que remunera muito bem a preguiça, é só colocar o dinheiro no CDI e não fazer besteira que ele chega lá." Segundo ele, os atuais retornos da renda fixa permitem ganhos relevantes sem exposição excessiva à volatilidade.

Hora de reorganizar a estratégia

A planejadora financeira Patrícia Palomo, CFP pela Planejar, avalia que muitos investidores vivem um misto de alívio e desconforto. Mesmo com o dinheiro de volta, a confiança foi abalada. Para ela, a decisão mais racional não é buscar imediatamente uma aplicação com rentabilidade semelhante à perdida. "Em muitos casos, o primeiro movimento adequado é estacionar os recursos temporariamente em aplicações de altíssima liquidez e baixo risco, ganhando tempo para decidir com clareza, sem a pressão do 'preciso reaplicar agora'", afirma.

Considerando o valor médio de R$ 25 mil, Patrícia aponta que há espaço para diversificação dentro da renda fixa, sem assumir riscos excessivos. É possível combinar títulos públicos atrelados à taxa básica de juros, papéis indexados à inflação e produtos bancários de instituições mais sólidas. Para ela, o principal cuidado é não repetir o erro de decidir apenas com base na taxa prometida.

"É fundamental olhar quem é o emissor, qual é a solidez do balanço, como funciona a liquidez do produto e em que situação o dinheiro pode ser resgatado sem perdas relevantes", diz. Ela acrescenta que o FGC não elimina o tempo, a burocracia e o estresse envolvidos em processos de ressarcimento, fatores que raramente entram no cálculo inicial do investidor.

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