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TCU prepara regra para indenizar fundos afetados pelo Master

TCU prepara regra para indenizar fundos afetados pelo Master após aportes não cobertos pelo FGC, diz Vital do Rêgo

Vital do Rêgo (Foto: TCU/Flickr)
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247 - O Tribunal de Contas da União (TCU) prepara uma regra para indenizar fundos de previdência afetados pelo Banco Master após aportes não cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), afirmou o presidente do tribunal, ministro Vital do Rêgo, em entrevista à Folha de São Paulo.

Segundo Vital, o tribunal pretende definir parâmetros para ressarcimentos a entes que investiram no Banco Master e ficaram expostos a perdas bilionárias, especialmente fundos públicos estaduais e municipais de previdência que ultrapassaram o limite de cobertura de R$ 250 mil do FGC.

“O que o TCU deve fazer é regular como vai ser a indenização nesse processo a determinados entes que passaram dos R$ 250 mil e que estão na fila para receber suas indenizações pelo que aconteceu”, disse o presidente da corte.

O caso envolve a atuação do Banco Master e do BRB, tema que já levou o TCU a fazer cobranças e acompanhar os desdobramentos da liquidação. Vital afirmou que cabe ao Banco Central exercer a rigidez regulatória do sistema financeiro, enquanto ao TCU compete fiscalizar a atuação do próprio BC.

“A liquidação foi um ato que caberia somente ao Banco Central. Nós estamos fazendo o nosso papel de regular o Banco Central”, afirmou.

Ao ser questionado sobre a razão pela qual o tribunal ainda não concluiu o processo, Vital afirmou que a análise aguarda a conclusão do inquérito policial e reforçou que a corte deve tratar da forma de indenização.

“O que o TCU deve fazer, e eu não estou antecipando, é regular como vai ser a indenização nesse processo a determinados entes que passaram dos R$ 250 mil e que estão na fila para receber as suas indenizações pelo que aconteceu”, declarou.

Questionado se se referia aos fundos de previdência, o ministro ampliou o escopo dos possíveis afetados. “Tem uma série de outros fundos privados, públicos, como os fundos de previdência, que estão aí esperando a decisão da Justiça e, por conseguinte, uma decisão do tribunal”, disse.

Contas do governo foram aprovadas com ressalvas

Na entrevista, Vital também comentou a aprovação das contas do governo federal pelo TCU. A corte aprovou as contas com uma série de ressalvas, em decisão unânime.

O presidente do tribunal afirmou que a instituição tem obrigação constitucional de fiscalizar rigorosamente os recursos públicos. “Nós temos a obrigação constitucional de apertar sempre em nome da fiscalização. Cada centavo da União precisa ser rigorosamente fiscalizado”, disse.

Segundo ele, o TCU constrói um histórico de alertas, ressalvas, aprovações e reprovações. Vital destacou indicadores positivos da economia, como inflação baixa e desemprego reduzido, mas ponderou que os juros altos seguem pressionando a dívida pública.

“Neste ano, o que está sendo bom? Números macroeconômicos, inflação baixa, desemprego quase zerado, mas ao mesmo tempo nós temos do outro lado juros mantendo-se altos, e isso impacta diretamente a dívida”, afirmou.

Painel das emendas será lançado em julho

Vital também prometeu lançar em julho o painel de acompanhamento das emendas parlamentares. A ferramenta, segundo ele, permitirá rastrear todas as etapas do uso do recurso público indicado por deputados e senadores às suas bases eleitorais.

“[O painel vai mostrar] a emenda sair do deputado, do senador, vai para o município, é criado um instrumento jurídico, um contrato ou um convênio. Esse instrumento jurídico passa a ser acompanhado até o final”, explicou.

De acordo com o ministro, o sistema permitirá verificar edital, licitação, empresa vencedora, número de licitantes, CPF da empresa, medições, pagamentos e notas fiscais. “O cidadão vai saber que aquela escola, aquela obra, aquela rodovia, está sendo feita desde o começo”, afirmou.

Vital disse ainda que eventuais irregularidades também deverão aparecer no painel. “A irregularidade que acontecer vai ser colocada naquele painel. Faltou dinheiro, o contratante não entregou a obra, faltou o nexo de causalidade, a obra está lá, mas como ela foi feita? Cadê a nota fiscal? Está tudo lá”, declarou.

Presidente do TCU defende autonomia das agências reguladoras

O presidente do TCU também criticou o contingenciamento de recursos das agências reguladoras. O governo bloqueou 18% do orçamento dessas instituições, e há avaliação nos bastidores do tribunal de que a medida pode ter descumprido decisão da corte. “Eu sou da tese de que agência reguladora não pode ser contingenciada. O acórdão do TCU diz isso”, afirmou.

Vital defendeu que Congresso e Executivo se articulem para garantir maior autonomia às agências, sob o argumento de que elas fiscalizam e autuam em volume muito superior ao necessário para sua manutenção.

“Eu acho que o Congresso e o Poder Executivo têm que se juntar e dar autonomia à agência. Porque ela [a agência reguladora] fiscaliza e autua centenas de vezes mais do que precisa para se manter”, disse.

Ele citou a Agência Nacional de Mineração como exemplo de estrutura insuficiente. “Você imagina, a Agência Nacional de Mineração, num país com recursos minerais como o nosso, são seis pessoas para fiscalizar. A gente tem uma agência de mineração paupérrima”, afirmou.

Transposição do São Francisco aguarda análise

Outro tema abordado foi o projeto do governo para transferir a operação da transposição do rio São Francisco a uma empresa. O contrato, previsto para 30 anos, é estimado em R$ 13 bilhões e está em análise no TCU.

Segundo Vital, a unidade técnica solicitou revisão da matriz de risco do projeto. Ele afirmou ter conversado com o relator, ministro Jhonatan de Jesus, que pediu prioridade para levar o caso a julgamento. “Eu já falei com o relator, que é o ministro Jhonatan de Jesus, e ele me falou que pediu prioridade absoluta para colocar na próxima semana ou daqui a 15 dias, a depender da resposta da unidade técnica”, disse.

TCU rejeita crítica de que consensualismo substitui fiscalização

Vital também defendeu a secretaria de consenso do TCU, especialmente em processos envolvendo concessões. Segundo ele, muitos contratos foram impactados por desequilíbrios após a pandemia, levando concessionárias a devolverem concessões ou interromperem serviços.

“As concessões estavam paradas ou eram devolvidas porque havia desequilíbrio no contrato. Chegou um momento, depois da pandemia, em que esses contratos foram desequilibrados”, afirmou.

O ministro citou o caso do Galeão e concessões rodoviárias. Para ele, o consensualismo é uma prática consolidada no direito administrativo e deve buscar o interesse público.

“O consensualismo é a prática do direito administrativo no mundo inteiro. Ninguém sai da mesa dizendo: ‘Ah, ganhei 100%’. A gente premia o interesse público”, declarou.

Vital diz que mudaria regra sobre férias

Na entrevista, Vital foi questionado sobre o direito de ministros do TCU a 60 dias de férias e reconheceu que se confundiu ao responder inicialmente que teria apenas 30 dias. “Eu me confundi, peço desculpa. Acho que é uma generosidade excessiva”, afirmou.

Questionado se mudaria a regra, o presidente do TCU disse que sim. “Mudaria essa regra, porque o meu modo é de 30 dias”, declarou.

Ele também afirmou que apoiaria eventual projeto legislativo para alterar essa norma.

Gratificação no TCU é defendida pelo presidente da corte

Vital também foi questionado sobre uma gratificação criada no TCU que pode chegar a 15% do salário, conforme o nível do auditor ou secretário. Especialistas apontaram que o benefício poderia driblar entendimento do Supremo sobre os chamados penduricalhos.

O ministro argumentou que o tribunal enfrenta dificuldade para atrair auditores experientes para funções de chefia quando não há ganho adicional.

“Como é que eu faço para chamar um auditor que tem 30 anos de TCU para comandar uma turma de 50 auditores? Ele diz: ‘Ministro, eu não vou aceitar não, porque eu não ganho nem um centavo a mais’”, afirmou.

Segundo Vital, permanecer no cargo técnico pode ser mais confortável para o auditor do que assumir uma chefia com maior responsabilidade. “É muito mais cômodo para um auditor ficar ganhando o que ele ganha legalmente do que ir para um cargo de chefia botando o CPF dele lá”, disse.

Responsabilidade fiscal deve valer para todos os Poderes

Ao comentar pautas aprovadas pelo Senado com impacto fiscal estimado em R$ 111 bilhões por ano, Vital afirmou que a responsabilidade fiscal deve ser compromisso de todos os Poderes. “A responsabilidade fiscal é dever de todos os Poderes constituídos. [Nós do] Congresso, como nós cobramos, temos que cobrar pelo exemplo”, declarou.

Ex-parlamentar e atual presidente do TCU, Vital do Rêgo Filho tem 63 anos, nasceu em Campina Grande, na Paraíba, é médico e bacharel em direito. Filiado ao MDB, iniciou a carreira política como vereador, foi deputado estadual por três mandatos, deputado federal e senador. Em 2014, foi escolhido pelo Senado para ocupar uma vaga de ministro do TCU. Em dezembro de 2024, foi eleito presidente da corte para o biênio 2025-2026.

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