Arbex: ofensiva de Trump na Venezuela é “ato de desespero” e revela fraqueza do imperialismo
Jornalista analisa o sequestro de Nicolás Maduro, a crise do soft power dos EUA e alerta para riscos à soberania brasileira
247 – A ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a Venezuela — incluindo o sequestro de Nicolás Maduro, sua esposa e um filho, segundo relatos discutidos no programa — não representa força, mas sim fraqueza do imperialismo em declínio. Essa é a avaliação do jornalista José Arbex Jr., em entrevista ao programa Forças do Brasil, exibido no YouTube. Para Arbex, o episódio deve ser compreendido como parte de um movimento mais amplo de retração estratégica de Washington diante do avanço de um mundo multipolar e das derrotas recentes dos EUA em diferentes frentes globais.
Logo no início da conversa, Arbex contesta leituras alarmistas e sustenta que o ataque se insere num padrão histórico de decadência: “O imperialismo tá fraco, ele tá desesperado. Isso é ação de desespero”. Na avaliação do jornalista, o que ocorre na Venezuela não é um acontecimento extraordinário, mas o desdobramento de uma crise estrutural do poder norte-americano.
“Eles só estão levando ferro em tudo quanto é lugar”
Arbex argumenta que, ao contrário do discurso dominante na mídia corporativa, os Estados Unidos vivem uma fase de derrotas acumuladas, tanto no plano militar quanto no plano político. Ele cita a guerra na Ucrânia como exemplo de fracasso estratégico: “O imperialismo acaba de sofrer uma derrota histórica na Ucrânia, absolutamente histórica. Toda OTAN junto”. A Europa, segundo ele, estaria “prostrada no chão” após esse processo.
O jornalista também aponta que a ofensiva ocidental na Ásia Ocidental — termo que ele prefere ao rótulo “Oriente Médio” — tampouco teria atingido seus objetivos. Ele menciona a destruição em Gaza como parte de uma estratégia brutal que não produziu estabilidade nem ganhos reais: “Os caras destruíram Gaza… não conseguiram nenhum dos objetivos”, diz, acrescentando que Israel teria sido profundamente atingido pela resistência regional.
Na África, Arbex afirma que a retirada francesa e o fechamento de bases americanas indicariam que o imperialismo já não expande poder, mas recua. “Os caras estão numa posição de retração. Eles não tão numa posição de expansão”, resume.
Doutrina Monroe 2.0 e o retorno do “quintal”
A leitura central de Arbex é que os EUA estão abandonando a pretensão globalista do pós-guerra e retornando a uma lógica de controle direto do hemisfério ocidental. Ele retoma a Doutrina Monroe (1823), que estabeleceu a ideia de “América para os americanos”, e afirma que Trump busca reinstalar esse paradigma como resposta ao avanço chinês e ao enfraquecimento norte-americano.
Segundo Arbex, após o fim da União Soviética, os EUA viveram a ilusão de hegemonia total, mas esse ciclo teria se encerrado com a emergência de novas potências: “Acabou isso daí… com a estratégia do Xi Jinping, da Nova Rota da Seda, formação dos Brics e o surgimento da China”.
O resultado, diz ele, é um retorno agressivo ao controle do continente: “Esse pedaço é nosso e ninguém tasca aqui… Esse é o nosso quintal”. Para Arbex, a ofensiva contra a Venezuela seria um teste e um recado para o restante da América Latina.
Hard power sem soft power: “uma derrota monumental”
Um dos pontos centrais do diagnóstico de Arbex é a perda de legitimidade ideológica e cultural dos Estados Unidos. Ele diferencia o poder bruto (hard power) do poder de persuasão (soft power) e afirma que Washington já não consegue convencer populações nem construir consenso como fazia no passado.
“O poder de um império se baseia muito mais no soft power do que no hard power”, explica, lembrando que, durante décadas, os EUA dominaram essa esfera por meio de Hollywood e propaganda política. Porém, na avaliação dele, isso se esgotou: “O soft power acabou. Os Estados Unidos hoje não tem um discurso persuasivo”.
Assim, a política externa norte-americana estaria reduzida à força bruta, o que, segundo Arbex, é sinal inequívoco de decadência: “Isso é uma derrota monumental com o imperialismo… uma perda de legitimidade”.
Por que a Venezuela virou alvo
Arbex lista razões estratégicas para o foco sobre a Venezuela e sustenta que não se trata de um ato isolado, mas de uma peça central no novo tabuleiro do poder global.
A primeira razão seria óbvia: “A Venezuela é a maior reserva de petróleo do planeta”. Em um cenário em que o comércio de energia começa a escapar do controle do petrodólar, garantir o domínio sobre reservas gigantescas torna-se um trunfo decisivo.
A segunda razão seria Cuba. Arbex afirma que há um cálculo explícito no Departamento de Estado: se um novo governo venezuelano cortar apoio à ilha, Havana pode entrar em colapso. Nesse contexto, ele direciona ataques verbais ao senador Marco Rubio, a quem atribui obsessão política por destruir o regime cubano. Arbex diz que Rubio age por ódio, mas também por cálculo eleitoral.
Há ainda razões simbólicas. Para ele, derrotar a Venezuela significaria esmagar um dos maiores marcos da reorganização da esquerda latino-americana após 1959: “A revolução bolivariana… foi o grande momento de rearticulação das forças de esquerda em toda a América Latina”.
Por fim, Arbex destaca a riqueza mineral e geopolítica do país: reservas de terras raras, ouro e presença na Amazônia. Em suas palavras, trata-se de um território que concentra recursos estratégicos que interessam diretamente aos EUA.
O sequestro de Maduro e a incerteza sobre o desfecho
Ao comentar a informação de que Maduro teria sido sequestrado e levado em um barco, Arbex adota cautela. Para ele, é cedo demais para afirmar se houve traição militar, resistência ou negociação interna, porque o processo ainda está no começo: “Ninguém sabe… nós estamos no começo do começo desse processo”.
Ele cita figuras-chave como Diosdado Cabello e Delcy Rodríguez e afirma que qualquer interpretação definitiva pode ser precipitada. Mesmo a declaração da vice-presidente reafirmando Maduro como presidente pode ser, segundo ele, resistência real ou “para inglês ver”.
Arbex sugere ainda a possibilidade de uma negociação internacional envolvendo EUA, Rússia e China — hipótese que ele mesmo apresenta com reservas. Ele afirma: “Eu não ponho minha mão no fogo”.
Epstein, crise interna e contestação nos EUA
Para Arbex, a ofensiva de Trump também precisa ser entendida à luz da crise interna dos Estados Unidos. O jornalista afirma que o governo enfrenta turbulência, inclusive dentro do próprio campo trumpista. Ele menciona denúncias envolvendo o caso Epstein e afirma que surgiram “novos vídeos… com meninas de 13 anos de idade”, além de críticas públicas de figuras ligadas ao movimento MAGA.
Arbex sustenta que há contestação no Congresso: “Já houve manifestações… dizendo que esse ataque é totalmente ilegal, fere a Constituição”. Isso, para ele, confirma que Trump não age em um ambiente de consenso, mas em meio a instabilidade.
O jornalista também reforça a dimensão social da crise norte-americana, mencionando estagnação do salário mínimo, deterioração do sistema de saúde e insegurança alimentar em larga escala: “Você tem 40 milhões nos Estados Unidos hoje de pessoas que não sabem o que vão comer amanhã”.
O Brasil no centro do alvo: “advertência”
Ao ser provocado sobre as implicações para o Brasil, Arbex diz que o país ocupa posição estratégica singular no hemisfério: território, biodiversidade, reservas de petróleo, terras raras e água. Por isso, na lógica da Doutrina Monroe 2.0, o Brasil seria alvo inevitável: “O Brasil tem tudo aquilo que o imperialismo deseja. Ele é um objeto de desejo do imperialismo”.
Para ele, o que ocorre na Venezuela deve ser entendido como alerta direto à soberania brasileira: “Aquilo que tá acontecendo na Venezuela é uma advertência pro Brasil”.
Arbex elogia a nota do presidente Lula criticando a captura de Maduro e avalia que o presidente tem um diferencial decisivo: sua capacidade de articulação política internacional, isto é, seu “soft power”. “O Lula é o próprio soft power”, afirma, defendendo que Lula use sua liderança para ampliar alianças regionais e globais.
Críticas a Lula e defesa de estratégia mais ofensiva
Apesar disso, Arbex critica decisões anteriores do governo brasileiro em relação à Venezuela, especialmente o bloqueio à entrada do país nos Brics. “Eu acho que ele errou muito… até hoje eu não entendi a posição dele”, diz, defendendo que o Brasil abandone a “letargia” diplomática na América Latina.
Ele sugere medidas como:
- fortalecimento dos Brics e maior integração com iniciativas como a Nova Rota da Seda
- articulações políticas anti-imperialistas na região
- investimento em autonomia tecnológica, satélites e infraestrutura digital própria
- ampliação de acordos estratégicos com China e Rússia
Segundo Arbex, isso não significa confronto militar, mas construção de legitimidade internacional e soberania real.
Mundo multipolar ou barbárie?
A conversa também se aprofunda sobre o significado do mundo multipolar. Arbex reconhece que há risco de um mundo dividido em zonas de domínio, em vez de uma ordem efetivamente cooperativa. Ele avalia que Trump tenta destruir a arquitetura internacional do pós-guerra — ONU, Bretton Woods, multilateralismo — para impor um sistema de força.
“Nada garante que o projeto Trump vai ser bem-sucedido… mas até isso acontecer, o mundo vai sofrer terrivelmente”, afirma. Arbex compara o declínio atual ao do Império Romano, mas alerta para um agravante: o poder destrutivo contemporâneo. “O império romano não tinha armas de destruição em massa”, diz.
Na visão do jornalista, a decadência imperial pode arrastar o mundo para um período prolongado de instabilidade e sofrimento, em que a força substitui qualquer regra.
Narcotráfico como pretexto e a denúncia sobre “hipocrisia”
Ao final, Arbex rebate acusações contra Maduro envolvendo narcotráfico e afirma que o discurso é apenas pretexto. Para ele, os EUA jamais combateram drogas de fato e utilizam o tema como justificativa para intervenções. Ele cita como exemplo o perdão de Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, acusado de envolvimento com grandes remessas de cocaína.
“Isso aí tem a ver com droga é uma piada”, diz, afirmando que o narcotráfico seria parte estrutural do capitalismo global e dos circuitos financeiros internacionais.
Uma crise em aberto
A entrevista termina com Arbex insistindo na necessidade de cautela e análise histórica, sem desespero nem submissão. Para ele, a agressividade de Trump é real e perigosa, mas não deve ser confundida com força invencível. Trata-se, em sua visão, de um império ferido, que reage com brutalidade para tentar preservar o que resta de seu domínio.
“É um império em desespero… é extremamente perigoso, mas é um bicho ferido”, resume Arbex, reforçando que a América Latina — e o Brasil em especial — precisa responder com soberania, articulação e unidade, antes que a lógica da força substitua definitivamente a diplomacia.



