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Genoino cobra explicações de Alexandre de Moraes sobre Vorcaro e defende reforma das instituições

Em entrevista à TV 247, ex-presidente do PT afirma que Alexandre de Moraes deve esclarecer relação com Daniel Vorcaro

Genoino cobra explicações de Alexandre de Moraes sobre Vorcaro e defende reforma das instituições (Foto: ABR)

247 – O ex-presidente nacional do PT José Genoino defendeu que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, dê explicações públicas sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e sustentou que a esquerda não pode se confundir com a defesa acrítica das instituições tal como elas funcionam hoje.

Em entrevista à TV 247, Genoino afirmou que o papel de Moraes no enfrentamento aos golpistas deve ser reconhecido, mas ressaltou que isso não elimina a necessidade de esclarecimentos sobre as revelações envolvendo o caso Master. Ao comentar o tema, ele foi direto: “Nós devemos defender que o Alexandre Moraes dê explicações, dê informações sobre a relação com Vorcaro na medida em que as revelações são claras”.

Ao longo da conversa, Genoino apresentou uma linha política que busca diferenciar a defesa da democracia de uma adesão sem reservas ao atual arranjo institucional. Para ele, o campo progressista precisa sustentar as instituições democráticas, mas ao mesmo tempo defender mudanças profundas no sistema político, no Judiciário, no Congresso e na relação entre os poderes.

Defesa das instituições, mas com mudanças

Na avaliação de Genoino, o PT nasceu “por fora do sistema” e não deve abrir mão dessa origem crítica. Por isso, segundo ele, a esquerda precisa defender as instituições democráticas sem naturalizar seus vícios, distorções e limitações.

“Nós devemos defender as instituições democráticas, mas com reforma, com mudança. Nós não podemos defender o Congresso do jeito que ele tá. Tem que ter mudança nas emendas, tem que ter mudança na relação com o Executivo. A mesma coisa do Supremo”, afirmou.

Ele também propôs uma revisão mais ampla sobre o funcionamento da Suprema Corte, incluindo regras de transparência, limites de atuação dos ministros e redefinição das fronteiras entre o público e o privado. Para Genoino, o erro da esquerda seria abraçar o sistema tal como ele é, permitindo que a extrema direita ocupe sozinha o discurso antissistema.

“Quando a esquerda deixa de ser antissistema, a extrema direita assume este papel”, observou o apresentador Leonardo Attuch durante a entrevista, ecoando o sentimento de parte do público. Genoino concordou com a preocupação e afirmou que esse risco já se apresentou em momentos decisivos da política brasileira.

Caso Master e pressão sobre Moraes

No centro da entrevista esteve a crise desencadeada por revelações sobre supostas mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. Diante do debate que se abriu, Genoino procurou separar os planos político, institucional e jurídico.

Primeiro, afirmou que o presidente Lula não tem qualquer relação com o episódio. “Lula não tem nada a ver com o escândalo do Master. A Polícia Federal e a Receita têm que atuar de maneira independente tecnicamente”, declarou.

Em seguida, fez a distinção que considera essencial: reconhecer o papel de Moraes na contenção do golpismo não significa blindá-lo de questionamentos sobre sua conduta em outros episódios. “Nós devemos destacar o papel do Alexandre Moraes na punição dos golpistas, mas isso não nos leva automaticamente a defender o papel dele na crise do Master”, disse.

Para Genoino, o melhor caminho não é aderir nem ao maniqueísmo da extrema direita nem a uma reação defensiva automática no campo progressista. “Nós não podemos nos confundir que tá tudo bem porque há um maniqueísmo. Nem podemos aceitar o maniqueísmo do sistema da extrema direita. Nem podemos fazer o maniqueísmo com o viés à esquerda. Nós temos que ter uma posição equilibrada”, afirmou.

Crítica ao “lavajatismo” e à mídia corporativa

Outro eixo importante da entrevista foi a crítica de Genoino à permanência de métodos e práticas herdados da Operação Lava Jato dentro do sistema de Justiça e do ambiente político-midiático brasileiro.

Segundo ele, a cultura lavajatista não foi superada. “O lavajatismo tá presente dentro do sistema de justiça. A cultura do lavajatismo, a cultura dos métodos da Lava-Jato não foram revogadas”, afirmou.

Na visão do ex-dirigente petista, essa lógica aparece tanto nos vazamentos seletivos quanto na forma como determinados casos são conduzidos para atingir politicamente Lula e seu entorno. Ele mencionou diretamente a tentativa de associar o caso Master ao presidente e criticou também a exploração midiática de movimentações financeiras atribuídas ao filho de Lula.

“Eles estão fazendo essa espuma em torno da imagem para atingir a imagem do presidente Lula. É a imagem do Lulinha para atingir o Lula”, declarou.

Ao comentar manchetes da imprensa sobre o tema, Genoino relembrou episódio pessoal de quando disputou o governo de São Paulo e viu uma transferência legal de recursos de campanha ser transformada em manchete negativa. O objetivo do relato foi mostrar, segundo ele, como a imprensa corporativa atua politicamente.

“A mídia é o partido da ordem neoliberal. A mídia é o partido da guerra”, disse. Em outro momento, reforçou: “Não há neutralidade nem imparcialidade”.

Lula como estadista e PT mais combativo

Ao projetar os desdobramentos da atual conjuntura, Genoino afirmou que há uma ofensiva em curso para enfraquecer Lula de olho na disputa de 2026. Segundo ele, forças da extrema direita, setores da mídia corporativa e interesses financeiros estariam articulados em torno desse objetivo.

Por isso, defendeu uma divisão de papéis mais nítida dentro do campo governista. Para Genoino, Lula deve manter uma postura de estadista, equilibrada e institucional, enquanto o PT e sua bancada no Congresso precisam atuar com mais ousadia no enfrentamento político.

“O Lula tem que assumir uma posição de estadista. Agora a bancada do PT, o PT tem que ir mais pro enfrentamento”, afirmou.

Em seguida, endureceu o tom ao cobrar mais iniciativa partidária: “A bancada como um todo, o partido como um todo, os filiados, militantes, porque iniciou-se uma guerra política”.

Na avaliação do ex-presidente do PT, essa reação não significa aderir ao caos nem incendiar o ambiente político, mas apresentar uma alternativa mais clara diante da crise do sistema. Ele resumiu essa linha com uma expressão que repetiu mais de uma vez ao longo da entrevista: “Nós temos que ter uma tática muito fio da navalha”.

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