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Kakay alerta para ameaça ao Judiciário, critica CPI do Senado e vê risco institucional no Brasil

Advogado afirma que ofensiva contra ministros do STF pode abrir caminho para o esvaziamento das CPIs e diz que a ultradireita tenta desgastar a democracia

Kakay (Foto: Diego Bresani/Divulgação)

247 – Em entrevista concedida à jornalista Denise Assis no programa Denise Assis convida, exibido no canal da TV 247 no YouTube neste domingo, 19 de abril de 2026, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, fez um duro diagnóstico do cenário político e institucional do País. Ao comentar desde a prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa até a atuação da chamada CPI do crime organizado no Senado, ele afirmou que o Brasil vive um momento “muito grave” e classificou como “um dos maiores escândalos” a tentativa de parlamentares de atingir ministros do Supremo Tribunal Federal.

Ao longo da entrevista, Kakay também defendeu sua atuação como advogado do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, rebateu suspeitas levantadas no noticiário sobre o caso BRB-Banco Master, criticou a instrumentalização política de investigações e sustentou que parte da ofensiva atual contra o STF busca, na prática, atingir o presidente Lula em meio à polarização e à disputa eleitoral.

Defesa de Ibaneis e resposta às suspeitas no caso BRB

Questionado por Denise Assis sobre sua decisão de assumir a defesa de Ibaneis Rocha, após o nome do ex-governador aparecer no contexto das investigações sobre o BRB e o Banco Master, Kakay reagiu de forma enfática. Ao responder à pergunta sobre se se sentia confortável na defesa, afirmou:

“Eu só entro em caso em que eu tenho tese jurídica”

Na sequência, ele diferenciou o caso de Ibaneis da recusa anterior em defender Jair Bolsonaro. Segundo o advogado, no caso do ex-presidente ele não acreditava na tese jurídica apresentada, enquanto, em relação a Ibaneis, sua convicção é de que há uma linha de defesa sólida, apoiada no fato de que o então governador não teria participado das negociações envolvendo o banco.

Kakay sustentou que o conteúdo até agora revelado pelas investigações reforça a versão de seu cliente. Segundo ele, a menção a Ibaneis em diálogo reproduzido no decreto de prisão de Paulo Henrique Costa seria, na realidade, favorável ao ex-governador. Nas palavras do advogado:

“O diálogo é absolutamente favorável a ele”

Ele explicou que, se Ibaneis tivesse coordenado ou conduzido as negociações, não faria sentido pedir ao presidente do banco uma nota técnica para compreender o que estava acontecendo. Para Kakay, esse gesto confirmaria justamente a ausência de ingerência direta do então chefe do Executivo distrital.

“Ele deu plena absoluta autonomia pro presidente do BRB. Ele não indicou nenhum diretor do BRB. Ele não participava das reuniões do BRB nenhuma, especificamente sobre o Master. Ele não fez nenhum tipo de ingerência, nenhum tipo de pressão, nenhum tipo de pedido”

O advogado também insistiu que a representação criminal movida por partidos políticos de Brasília contra Ibaneis é “fragilíssima” do ponto de vista jurídico e foi produzida, em sua avaliação, mais para repercutir na imprensa do que para se sustentar tecnicamente.

Críticas ao uso político de investigações

Durante a entrevista, Kakay procurou separar o campo jurídico da disputa política. Ele ressaltou que sua atuação profissional não é guiada por afinidade ideológica ou partidária, mas pela existência de fundamento legal para a defesa.

“Eu não sou político”, repetiu em mais de um momento.

Ao citar sua trajetória, lembrou que já advogou para ministros de diferentes governos, inclusive de espectros distintos, e afirmou que o seu critério é jurídico. Segundo ele, há, no entanto, uma tendência crescente de transformar processos criminais midiáticos em instrumentos de pressão política.

Essa crítica apareceu também quando comentou o caso de Luís Cláudio Lula da Silva, o Lulinha. Kakay disse ter participado de conversas com os advogados do filho do presidente Lula e afirmou que a quebra de sigilo, ao contrário do que parte da imprensa sugeriu, acabou beneficiando a defesa por não apontar irregularidades.

“Não há um único depósito irregular, não há nenhuma ligação com INSS”, afirmou, acrescentando que esse tipo de constatação, quando favorece o investigado, costuma receber menos destaque no noticiário.

Ele também criticou o tratamento dado à movimentação financeira de investigados, sustentando que muitas vezes há má-fé ou desconhecimento técnico na leitura de entradas e saídas bancárias. Para Kakay, somar fluxos financeiros sem examinar a natureza das operações produz distorções graves e alimenta campanhas de difamação.

“Um dos maiores escândalos” e o ataque ao STF

O ponto mais contundente da entrevista veio quando Denise Assis abordou a atuação da CPI do crime organizado no Senado, especialmente após a iniciativa de sugerir o indiciamento de ministros do STF e do procurador-geral da República.

Kakay classificou o episódio como uma ruptura institucional grave. Segundo ele, uma Comissão Parlamentar de Inquérito precisa ter fato determinado e não pode se converter em instrumento de perseguição política ou revisão de decisões judiciais.

“O que ocorreu nessa CPI do crime organizado é um dos maiores escândalos que eu já vi”

O advogado lembrou que a CPI, por definição constitucional, possui poderes relevantes e deve atuar com máxima responsabilidade. Em sua avaliação, ao desviar do objeto original e mirar ministros da Suprema Corte, os senadores ultrapassaram limites elementares da Constituição.

“A CPI é feita para investigar um fato determinado”

Para ele, a tentativa de enquadrar ministros por decisões tomadas no exercício da função jurisdicional representa uma ameaça direta à autonomia entre os Poderes.

“Isso é o fim da autonomia dos poderes, é o fim do poder judiciário”

Kakay foi além e afirmou que esse tipo de comportamento pode levar à desmoralização completa do instituto das CPIs. Segundo ele, os próprios senadores, ao instrumentalizarem a comissão para fins eleitorais e partidários, estão criando as condições para que se discuta, no futuro, o esvaziamento ou até o fim desse mecanismo constitucional.

“Os senadores estão fazendo de tudo para acabar com a CPI, com as CPIs, para tirar a CPI do quadro constitucional”

Supremo atacado por seus acertos

Ao longo da conversa, Kakay desenvolveu uma das teses centrais de sua leitura sobre o momento brasileiro: a de que o STF vem sendo mais atacado por acertos do que por erros.

“O Supremo Tribunal tá apanhando mais pelos seus acertos do que pelos seus erros”

Na avaliação do advogado, a Corte teve papel decisivo na contenção da tentativa de golpe de Estado e na preservação da ordem democrática. Por isso, tornou-se alvo prioritário de setores da ultradireita, de segmentos da elite e de grupos inconformados com a responsabilização de envolvidos na trama golpista.

“Se não fosse o Supremo Tribunal Federal, provavelmente hoje nós estaríamos numa ditadura”

Embora reconheça que toda instituição possa cometer equívocos, Kakay entende que a reação virulenta ao STF está profundamente associada à sua atuação em defesa do Estado democrático de Direito e, também, às investigações sobre o orçamento secreto e o uso político de emendas parlamentares.

Nesse ponto, destacou o papel do ministro Flávio Dino, a quem definiu como “sério”, “independente” e “corajoso”. Segundo o advogado, cabe ao Judiciário agir quando provocado, especialmente diante de indícios graves.

“O poder judiciário é um poder inerte. Ele só age se provocado. Mas quando provocado, ele tem que agir”

José Dirceu, código de ética e a crise no Supremo

Denise Assis também pediu a avaliação de Kakay sobre as críticas do ex-ministro José Dirceu ao Supremo e sobre a discussão em torno de um possível código de ética para a Corte.

Ao comentar as declarações de Dirceu, Kakay disse respeitar profundamente o dirigente petista, mas interpretou sua posição dentro do contexto eleitoral. Segundo ele, quem disputa mandato hoje sofre pressões da opinião pública e das pesquisas, que captam o desgaste do STF.

Ainda assim, deixou clara sua divergência de fundo com ataques generalizados à Corte. Para ele, uma crítica pontual pode ser legítima, mas a erosão sistemática da imagem do Supremo atinge as instituições democráticas.

“Esse ataque ao Supremo Tribunal é um ataque às instituições”

Sobre o código de ética, Kakay afirmou que não é contrário à discussão, mas avaliou que o momento em que o tema foi trazido ao centro do debate foi inadequado. Em sua visão, a proposta acabou aprofundando tensões num período em que o tribunal já se encontrava sob forte bombardeio político e midiático.

Ele também argumentou que muitos dos problemas mencionados nesse debate já estão previstos na legislação e poderiam ser enfrentados com representações formais, apuração de casos concretos e atuação mais firme dos órgãos de controle e das entidades de classe.

Lobby, advocacia e degradação institucional

Outro trecho relevante da entrevista tratou da advocacia e das pressões que cercam tribunais e grandes causas no Brasil. Kakay reconheceu que a profissão sempre foi difícil, mas avalia que o problema do lobby e da influência indevida se agravou à medida que o Judiciário se tornou protagonista da crise política nacional.

Segundo ele, nem sempre prevalece o conhecimento jurídico. Em muitos casos, há espaço para relações de influência e prestígio pessoal que deformam a prática profissional. Por isso, reiterou que a advocacia exige coerência ética e compromisso técnico.

Ao comentar esse ambiente, defendeu que denúncias concretas sejam formalizadas quando houver suspeitas reais de conflito de interesses ou atuação irregular. Para o advogado, mais importante do que o discurso abstrato é o enfrentamento direto de práticas que violem a ética e a legalidade.

Senado, eleições e a disputa pelo poder institucional

Na parte final da entrevista, Kakay voltou a associar a escalada contra o STF ao projeto político da ultradireita para 2026. Segundo ele, há uma estratégia clara de ampliar a presença conservadora no Senado, com o objetivo de condicionar ou bloquear um eventual novo mandato do presidente Lula.

O advogado relatou conversa antiga com um senador da direita, que lhe teria dito que o foco central não era apenas derrotar Lula, mas conquistar uma maioria robusta na Casa para governar por meio dela, pressionando o Executivo e o Judiciário.

A seu ver, esse projeto passa por desgastar o Supremo e associar esse desgaste ao governo federal.

“A extrema direita chegou à conclusão que efetivamente tudo que acontece com o judiciário, especialmente o Supremo, cai no colo negativamente do Lula”

Daí, segundo Kakay, a insistência em ampliar o confronto institucional, provocar crises e alimentar a polarização.

Ramagem, bolsonarismo e a conjuntura internacional

Ao ser questionado sobre o caso de Alexandre Ramagem, condenado pelo STF e atualmente nos Estados Unidos, Kakay preferiu não se aprofundar por falta de informações técnicas. Ainda assim, observou que, se alguém está em situação migratória irregular naquele país, a deportação costuma ser imediata.

Ele aproveitou o tema para comentar o ambiente mais amplo da ultradireita internacional e o apoio buscado por bolsonaristas nos Estados Unidos. Nessa parte da entrevista, criticou duramente o governo do presidente Donald Trump, apontando uma política externa agressiva e um cenário geopolítico extremamente instável.

Para o advogado, a ascensão da ultradireita em escala global ajuda a explicar o comportamento de setores bolsonaristas que atuam fora do Brasil, pressionando instituições nacionais e buscando respaldo internacional para sua agenda.

Um retrato de tensão democrática

Ao fim da entrevista, Kakay voltou ao ponto de partida: o Brasil vive, segundo ele, uma fase de alta tensão institucional, na qual investigações criminais, disputas eleitorais, confrontos entre Poderes e campanhas de desinformação se misturam de forma perigosa.

Sua fala, em vários momentos, indicou preocupação com o uso político das instituições e com a tentativa de deslegitimar o Judiciário num momento em que o país ainda lida com as consequências da tentativa de golpe de Estado e com o avanço de investigações sensíveis.

Em síntese, a entrevista a Denise Assis ofereceu um retrato nítido de como uma parte importante do campo jurídico enxerga o atual cenário nacional: uma disputa que ultrapassa casos individuais e atinge o coração do sistema democrático brasileiro.

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