China exalta posição soberana de Lula sobre terras raras após encontro com Trump
Jornal chinês destaca resistência do presidente brasileiro à pressão dos Estados Unidos e defesa de investimentos abertos, inclusive para a China
247 – O jornal chinês Global Times destacou a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa da soberania brasileira sobre as reservas de terras raras, após sua reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. Segundo a publicação, Lula resistiu à pressão norte-americana para excluir a China das cadeias globais de minerais críticos e reafirmou que o Brasil está aberto a investimentos de qualquer país.
A reportagem, baseada em informações do South China Morning Post, BBC, Bloomberg e Reuters, ressalta que Lula afirmou a Trump que o Brasil pretende compartilhar seu potencial em minerais críticos com qualquer nação disposta a investir no país e realizar o processamento industrial em território brasileiro.
"O Brasil quer compartilhar seu potencial em minerais críticos com quem quiser investir no país — sejam dos Estados Unidos, China, Alemanha, Japão ou França", afirmou Lula, segundo a BBC.
Após a reunião de cerca de três horas com Trump, Lula reiterou sua posição em entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington.
"Não temos preferência. O que queremos é compartilhar com quem quiser investir no Brasil", declarou o presidente.
O Global Times interpretou a fala como uma demonstração de autonomia estratégica do Brasil diante da ofensiva dos Estados Unidos para reorganizar as cadeias globais de minerais estratégicos sem a participação chinesa.
O diretor do Instituto de Pesquisa em Tecnologia de Ponta de Pequim, Zhang Xiaorong, afirmou ao jornal chinês que a posição brasileira evidencia a intenção do governo Lula de não se submeter à pressão geopolítica de Washington.
Segundo Zhang, o Brasil busca deixar de ser apenas um exportador de matérias-primas para assumir papel mais ativo na industrialização e no processamento de minerais estratégicos.
"Ao manter as portas abertas em condições igualitárias e insistir na industrialização doméstica, o Brasil se afirma como um ator soberano determinado a capturar o máximo valor de seus recursos estratégicos", afirmou o especialista.
Outro pesquisador ouvido pelo Global Times, Zhou Mi, da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, disse que o Brasil manteve uma postura independente.
"Isso mostra que o Brasil espera manter uma posição igualitária e imparcial e não estruturará sua cooperação em torno do sistema de alianças sobre terras raras que os Estados Unidos buscam estabelecer", declarou.
O tema ganhou relevância internacional porque o Brasil possui algumas das maiores reservas de minerais críticos do planeta. Segundo a Bloomberg, o país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras e grafite, além de ocupar a terceira posição em reservas de níquel.
As terras raras são consideradas estratégicas para a indústria de alta tecnologia e defesa, sendo utilizadas na fabricação de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de mísseis, equipamentos eletrônicos e motores de aeronaves militares.
Lula também associou a discussão sobre minerais críticos à necessidade de fortalecimento econômico da América Latina e criticou o afastamento histórico dos Estados Unidos da região.
Segundo o South China Morning Post, o presidente afirmou que a China ultrapassou os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil após 2008 porque empresas norte-americanas deixaram de disputar contratos na América Latina.
A visita de Lula aos Estados Unidos ocorreu em meio à intensificação dos esforços do G7 para reduzir a dependência global da China no setor de terras raras. Atualmente, Pequim domina grande parte da capacidade mundial de refino e produção de ímãs ligados aos minerais estratégicos.
Especialistas chineses alertaram que políticas de “desrisking” voltadas à exclusão da China podem provocar instabilidade nas cadeias globais de suprimentos e elevar riscos geopolíticos.
Durante a viagem, Lula informou ainda que o Congresso brasileiro aprovou um novo marco regulatório para minerais críticos. O projeto prevê um fundo garantidor de US$ 2 bilhões e incentivos tributários de US$ 5 bilhões ao longo de cinco anos para estimular o processamento interno desses minerais.
Segundo o governo brasileiro, o objetivo é assegurar que a exploração das riquezas minerais esteja vinculada à industrialização nacional e à geração de valor agregado dentro do país.



