Marandi: Trump perdeu a guerra contra o Irã e tenta vender derrota como vitória
Professor da Universidade de Teerã diz que memorando de entendimento expõe recuo dos EUA, preserva a força iraniana e aprofunda o isolamento de Israel
247 – O professor Seyed Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã e ex-assessor da equipe iraniana nas negociações nucleares, afirmou que o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi obrigado a recuar diante do Irã e agora tenta apresentar uma derrota estratégica como se fosse uma vitória política.
Em entrevista ao jornalista Glenn Diesen, publicada no YouTube, Marandi avaliou que o memorando de entendimento firmado após a guerra representa um avanço para Teerã, embora ainda seja frágil e cercado de disputas. Segundo ele, os Estados Unidos partiram da exigência de “rendição incondicional” e terminaram aceitando negociar com base em uma proposta iraniana.
“A guerra foi um erro catastrófico”
Marandi sustentou que a guerra foi um divisor de águas no cenário internacional. “A guerra em si foi um erro catastrófico e uma grande vitória para o Irã, uma vitória-chave, um ponto de virada no mundo em que vivemos hoje”, afirmou.
Segundo ele, a situação dos Estados Unidos piorou depois do conflito, especialmente após o fracasso do cessar-fogo e o cerco norte-americano aos portos iranianos. “Perder a guerra foi uma coisa, mas derrubar a economia é outra”, disse.
Para o professor, Washington acreditava que conseguiria “estrangular o Irã, fazer o povo iraniano passar fome, colocá-lo de joelhos” e, ao mesmo tempo, impedir que os norte-americanos sentissem o impacto dos preços da energia. “Mas isso não aconteceu. O Irã não cedeu. O Irã permaneceu muito firme e os americanos cederam”, declarou.
Estreito de Hormuz virou instrumento de pressão
Marandi afirmou que o Irã manteve o controle sobre a passagem pelo Estreito de Hormuz como forma de pressão contra países que, segundo ele, ajudaram os Estados Unidos na guerra.
“O Estreito de Hormuz continuou fechado para os países que ajudaram os Estados Unidos na guerra. Nunca esteve fechado para todos”, disse. Ele citou Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein e Catar como países afetados pela medida.
O professor afirmou que, nos últimos dias, a passagem voltou a operar parcialmente, mas ainda com tráfego limitado. Segundo ele, o Irã tem interesse em preservar sua capacidade de pressão durante as negociações.
Memorando divide o Irã, mas fortalece posição de Teerã
Marandi reconheceu que o memorando de entendimento gera controvérsia dentro do Irã. “Algumas pessoas são contra, outras são a favor”, afirmou. Segundo ele, o líder iraniano permitiu a aprovação do texto pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional, embora não estivesse plenamente satisfeito com todos os seus termos.
Para Marandi, essa postura foi uma mensagem aos Estados Unidos. “Ele estava enviando uma mensagem aos americanos de que seus negociadores não serão flexíveis. Eles já concederam o máximo que será concedido”, disse.
O professor resumiu a posição iraniana da seguinte forma: “Ou o cumprimento do acordo, ou nada”.
Sanções, petróleo e ativos iranianos
Segundo Marandi, os Estados Unidos já começaram a cumprir partes do memorando. Ele afirmou que Washington suspendeu o cerco, retirou sanções sobre exportações de petróleo e energia do Irã e deu início ao mecanismo para liberar ativos iranianos bloqueados.
Ele também rejeitou a versão de que o Irã teria sido obrigado a comprar produtos agrícolas dos Estados Unidos. “Os americanos dizem que o Irã tem que comprar bens agrícolas dos EUA, mas isso não é verdade”, afirmou.
Marandi disse ainda que o Irã não aceitou o retorno de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica com um novo mandato aos locais bombardeados. Segundo ele, as declarações de Trump e de integrantes de seu governo servem principalmente ao consumo interno.
Crise energética pressiona Trump
Na avaliação de Marandi, Trump precisa do acordo para evitar uma crise econômica ainda mais grave. Ele citou declarações do próprio presidente dos Estados Unidos sobre a escassez de reservas de combustível.
“Ele disse: ‘Temos apenas mais quatro semanas de reservas’”, afirmou Marandi, acrescentando que a admissão surpreendeu até aliados de Trump. Para o professor, se o conflito for retomado, o impacto poderá ser devastador. “Se o conflito for renovado, acho que uma depressão econômica global pior que a dos anos 1930 estará assegurada”, disse.
Israel e Netanyahu são apontados como sabotadores
Marandi acusou Benjamin Netanyahu de tentar destruir qualquer entendimento. Segundo ele, o primeiro-ministro israelense sabotou o cessar-fogo ao bombardear o Líbano.
“Netanyahu, sozinho, e depois Trump, com o cerco aos portos iranianos, tornaram as coisas muito piores para eles”, afirmou.
O professor também disse que Israel continua tentando inviabilizar o acordo. “Netanyahu fará tudo o que for possível para destruir o acordo”, declarou.
Críticas a Israel crescem nos Estados Unidos
Marandi avaliou que a relação entre Estados Unidos e Israel passa por uma mudança importante. Segundo ele, a guerra em Gaza, os ataques ao Líbano e a crise regional ampliaram a rejeição internacional ao governo israelense.
“Vimos essa hostilidade crescente contra o regime e contra o sionismo em todo o mundo desde 7 de outubro”, afirmou.
Ele também destacou que figuras públicas norte-americanas passaram a criticar Israel de forma mais aberta. “Essas críticas a esse regime israelense, que antes eram impossíveis de ver entre as elites, são algo muito importante”, disse.
Ainda assim, Marandi alertou que o lobby pró-Israel continua poderoso. “Eu nunca subestimaria o poder do sionismo e como ele pode capturar pessoas e forçá-las a fazer sua vontade”, afirmou.
“O caminho à frente não parece bom para Israel”
Para o professor, Israel enfrenta um cenário de crescente isolamento político e moral. “O caminho à frente não parece bom para o sionismo. O caminho à frente não parece bom para o regime israelense”, disse.
Marandi afirmou que a sustentação de Israel depende do apoio político, econômico e militar do Ocidente, mas esse apoio estaria se tornando mais escasso. “Vejo o colapso do império acontecendo diante dos nossos olhos”, declarou.
No encerramento, ele afirmou que os Estados Unidos e Israel estão presos em um dilema. “Se cumprirem o acordo, é uma má notícia para Israel. Se destruírem o acordo, também é uma notícia muito ruim para o regime israelense”, disse.


