Mearsheimer diz que EUA já perderam guerra contra o Irã e não têm saída clara do conflito
Professor afirma que Donald Trump entrou em uma escalada sem vitória decisiva à vista e alerta para o risco de colapso econômico global
247 – O cientista político John Mearsheimer afirmou que os Estados Unidos já se encontram em uma posição extremamente desfavorável na guerra contra o Irã e que o presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, não dispõe de uma saída clara para encerrar o conflito sem sofrer desgaste político e estratégico. A avaliação foi feita em entrevista concedida ao jornalista Glenn Diesen, em conteúdo publicado no YouTube.
Ao longo da conversa, Mearsheimer sustentou que a aposta de Washington e de Israel em impor uma derrota rápida a Teerã fracassou e que a Casa Branca enfrenta agora um problema central: como encerrar uma guerra que não produziu vitória decisiva. “Está bastante claro que a guerra não está indo bem para os Estados Unidos”, disse. Em seguida, resumiu o impasse de forma contundente: “O problema que ele enfrenta é que não consegue encontrar uma saída”.
Guerra de atrito e impasse estratégico
Na avaliação do professor, o erro central da estratégia americana foi supor que os Estados Unidos e Israel controlariam sozinhos o ritmo da escalada, o começo e o desfecho da guerra. Para ele, essa visão ignora um dado elementar da realidade: o Irã também tem capacidade de decisão, meios de resposta e interesse em prolongar o confronto até arrancar concessões.
Mearsheimer argumenta que, sem uma derrota total e inequívoca do Irã, não existe base real para impor termos unilaterais ao país. “Ninguém consegue contar uma história plausível sobre como essa guerra termina”, afirmou. Segundo ele, ao contrário do que imaginavam setores da administração Trump, Teerã não dá sinais de colapso, nem de disposição para capitular diante de bombardeios mais intensos.
O professor acrescentou que o Irã se preparou para absorver ataques de grande escala e que sua lógica tende a ser a da guerra prolongada de desgaste. “Os iranianos têm um incentivo para continuar a guerra, transformá-la em uma guerra prolongada de atrito, e têm os meios para fazer isso”, declarou.
Irã tem meios para retaliar e ampliar a crise
Um dos pontos mais enfáticos da entrevista foi a avaliação de que o Irã conserva instrumentos concretos para infligir danos severos a seus adversários e ao sistema econômico internacional. Mearsheimer afirmou que Teerã dispõe de muitos mísseis balísticos e drones, além de operar em um ambiente repleto de alvos vulneráveis.
Na leitura dele, caso Estados Unidos e Israel ampliem a destruição de infraestrutura crítica em território iraniano, a resposta poderá vir com ataques contra instalações essenciais em Israel e nos Estados do Golfo. “Se você começar a destruir infraestrutura crítica dentro do Irã, eles destruirão infraestrutura crítica dentro dos Estados do Golfo e dentro de Israel”, advertiu.
Ele destacou especialmente dois conjuntos de alvos nos países do Golfo: a infraestrutura petrolífera e as usinas de dessalinização. Segundo Mearsheimer, esses países dependem fortemente de instalações concentradas e vulneráveis, o que amplia enormemente seu grau de exposição. Ao comentar a Arábia Saudita, o pesquisador citou a dependência de água produzida por dessalinização e sugeriu que um ataque bem-sucedido a essas estruturas poderia gerar efeitos devastadores sobre a vida cotidiana e a estabilidade estatal.
Nesse ponto, sua formulação foi direta: “Você pode arruinar esses Estados”. Para ele, o simples fato de o Irã possuir essa capacidade já desmonta a ideia de “domínio de escalada” por parte de Washington.
Energia, Estreito de Ormuz e risco para a economia mundial
Mearsheimer também sublinhou o peso central da variável energética na guerra. Segundo ele, cerca de 20% do petróleo e do gás do mundo saem do Golfo Pérsico, o que transforma qualquer escalada regional em ameaça sistêmica à economia global.
“A dimensão energética é de enorme importância”, afirmou. Na sequência, alertou: “Se isso se transformar em uma guerra longa, terá consequências desastrosas para a economia mundial”.
Na entrevista, o professor contestou a retórica de Donald Trump sobre a possibilidade de garantir rapidamente a abertura do Estreito de Ormuz. Em sua avaliação, essa não é uma operação simples nem politicamente controlável. “Tudo o que posso dizer é: boa sorte com isso”, ironizou.
Ele lembrou ainda que, mesmo que a passagem marítima permanecesse aberta, isso não resolveria necessariamente o problema, caso o Irã conseguisse destruir a infraestrutura petrolífera dos países do Golfo. Nessa hipótese, a interrupção do fluxo energético ocorreria não apenas por bloqueio marítimo, mas pela destruição da capacidade material de produção e exportação.
Poder aéreo não vence guerra sozinho, diz professor
Outro eixo central da análise de Mearsheimer foi a crítica à crença de que bombardeios estratégicos, por si sós, seriam capazes de produzir mudança de regime ou vitória decisiva. Segundo ele, há ampla literatura histórica mostrando os limites desse tipo de estratégia, da Primeira Guerra Mundial até os conflitos mais recentes.
“O registro histórico é inequivocamente claro sobre isso”, declarou. “Você não pode vencer guerras, especialmente contra adversários formidáveis, apenas com poder aéreo”.
Ao comparar a guerra atual com a invasão do Iraque em 2003, Mearsheimer observou que, naquele caso, os bombardeios vieram acompanhados de forças terrestres. Já no caso do Irã, Washington pretende alcançar objetivos estratégicos máximos sem colocar “boots on the ground”, isto é, sem uma campanha terrestre de ocupação.
Para ele, essa contradição revela o caráter ilusório da estratégia adotada. Os Estados Unidos e Israel podem impor sofrimento maciço ao Irã, mas isso não significa que conseguirão quebrar sua capacidade de resistência ou impor uma rendição política. “O poder aéreo estratégico, sozinho, não vai produzir uma vitória decisiva aqui”, resumiu.
Trump ignorou alertas e caiu em armadilha, afirma Mearsheimer
Mearsheimer afirmou que Donald Trump foi alertado antes da guerra por setores relevantes do aparato estatal norte-americano. Segundo ele, o general Kaine e o Conselho Nacional de Inteligência já haviam indicado que não havia uma opção militar viável capaz de produzir mudança de regime rápida e eficaz.
Ainda assim, o presidente teria ignorado os sinais. “Havia duas luzes laranja piscando, senão vermelhas, diante do presidente, e ele simplesmente as ignorou”, afirmou.
O professor também sugeriu que Trump foi convencido pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que uma ofensiva dura provocaria o colapso do regime iraniano e abriria caminho para uma vitória rápida. “Parece que o primeiro-ministro Netanyahu enganou o presidente Trump”, disse.
Para Mearsheimer, essa ilusão se apoia numa leitura superficial e perigosa segundo a qual bastaria matar líderes ou ampliar bombardeios para provocar desintegração do Estado iraniano. Ele rejeitou frontalmente essa hipótese e tratou como fantasiosa a crença em mudança de regime por decapitação política e guerra aérea.
Rússia, China e o impacto sobre a Ucrânia
Na parte final da entrevista, Mearsheimer avaliou que a guerra é vantajosa para a Rússia em vários aspectos. Segundo ele, os Estados Unidos passam a consumir recursos militares que poderiam ser deslocados para a Ucrânia ou para a contenção da China. Além disso, um eventual choque no mercado energético tende a elevar a importância do petróleo e do gás russos.
“Esta guerra é uma notícia maravilhosa para os russos”, afirmou. Ele acrescentou que não se surpreenderia se Moscou e Pequim estivessem ajudando Teerã com inteligência e, eventualmente, com outros meios de apoio.
Na leitura do professor, a nova frente de conflito enfraquece a posição ocidental em outras arenas estratégicas e amplia o custo global da opção militar escolhida por Washington.
Europa, submissão estratégica e crise ampliada
Mearsheimer também fez críticas duras à postura europeia, afirmando que as potências do continente apoiam retoricamente os Estados Unidos mesmo diante de riscos econômicos catastróficos para a própria Europa. Segundo ele, as elites europeias temem uma redução do compromisso militar americano com a Otan e, por isso, evitam confrontar Washington.
“Os europeus fazem praticamente o que os americanos querem que façam”, disse. Em uma das passagens mais fortes da entrevista, acrescentou que as lideranças europeias acreditam que a única forma de manter os Estados Unidos engajados no continente é “lamber as botas da América” e, neste caso, “lamber as botas do presidente Trump”.
Para o professor, essa postura não protege os interesses europeus, mas aprofunda sua vulnerabilidade. A guerra contra o Irã, afirmou, apenas agrava uma situação já deteriorada desde a guerra na Ucrânia.
Um conflito sem saída fácil
A tese central de Mearsheimer é que os Estados Unidos entraram numa guerra sem plano plausível de encerramento e com uma leitura equivocada sobre a capacidade de resistência do Irã. Para ele, a intensificação dos bombardeios não oferece garantia de vitória e ainda pode acelerar uma espiral de destruição regional com consequências globais.
“Espero estar errado. Espero que eu esteja deixando escapar alguma coisa e que a guerra possa simplesmente ser encerrada. Mas ninguém conseguiu me contar uma história plausível sobre como acabar com isso tão cedo”, afirmou.
Ao fim, a entrevista desenha um cenário sombrio: de um lado, Washington e Tel Aviv sem vitória decisiva; de outro, Teerã com capacidade de prolongar o conflito, retaliar alvos críticos e elevar o preço econômico da guerra para o mundo inteiro. Nesse quadro, a “saída” buscada por Trump parece cada vez mais distante.

