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Putin e Irã viraram o jogo da guerra, diz Pepe Escobar

Analista geopolítico afirma que encontro entre Araghchi, Lavrov e Putin em São Petersburgo marcou ponto de inflexão geopolítico

Putin e Irã viraram o jogo da guerra, diz Pepe Escobar (Foto: Brasil 247)

247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que a visita do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, a São Petersburgo, onde foi recebido pelo presidente russo Vladimir Putin e pelo chanceler Sergei Lavrov, representa um ponto de inflexão na guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio. A análise foi feita em vídeo publicado no Pepe Café, no qual Escobar sustenta que “o Irã que existia até 50, 60 dias atrás não existe mais” e que um “novo Irã” emerge do conflito com maior capacidade de impor condições diplomáticas.

Segundo Escobar, Araghchi realizou uma intensa rodada diplomática antes de chegar à Rússia. O chanceler iraniano passou por Islamabad, onde conversou com mediadores paquistaneses, seguiu para Omã, foi recebido pelo sultão e retornou ao Paquistão antes de voar para São Petersburgo.

Para o analista, a sequência de encontros teve como objetivo apresentar a nova posição iraniana para qualquer negociação futura com os Estados Unidos.

Irã condiciona acordo nuclear ao fim da guerra

De acordo com Escobar, Teerã deixou claro que não aceitará retomar discussões sobre seu programa nuclear nos moldes anteriores. O tema, segundo ele, agora estaria subordinado ao fim definitivo da guerra, à obtenção de garantias internacionais e ao alívio das sanções impostas ao país.

“O Irã não vai mais negociar sobre o seu programa nuclear como era antes, porque isto está subordinado ao final da guerra”, afirmou Escobar.

O plano iraniano, segundo o jornalista, teria três etapas principais. A primeira seria acabar completamente com a guerra e impedir novos ataques contra o território iraniano. A segunda envolveria a definição de um novo modelo de administração do Estreito de Ormuz. Apenas em uma terceira fase o dossiê nuclear voltaria à mesa.

Escobar disse que esse modelo foi rejeitado por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Para ele, a reação de Washington revela a dificuldade norte-americana em aceitar a nova correlação de forças.

Estreito de Ormuz entra no centro da disputa

Um dos pontos centrais da análise é o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de petróleo. Escobar destacou que, segundo a interpretação iraniana e omanense, não haveria águas internacionais no estreito, já que a passagem estaria dividida entre águas territoriais do Irã e de Omã.

“Não tem águas internacionais no Estreito de Ormuz”, afirmou.

Segundo ele, Teerã e Mascate passaram a discutir uma nova forma de administração da passagem, incluindo a possibilidade de cobrança de pedágio. Escobar afirmou que o parlamento iraniano deverá analisar nos próximos dias e semanas o modelo a ser adotado.

Para o jornalista, a cobrança em moeda iraniana poderia fortalecer o rial e reduzir a vulnerabilidade do país a ataques financeiros e sanções.

Putin recebe Araghchi e sinaliza apoio estratégico

Escobar deu grande ênfase ao encontro entre Abbas Araghchi e Vladimir Putin em São Petersburgo. Segundo ele, o presidente russo dedicou uma hora e meia à conversa com o chanceler iraniano, algo que classificou como “enorme” em termos diplomáticos.

O analista afirmou que o conteúdo mais sensível da reunião não foi divulgado, mas defendeu que Rússia, Irã e China passaram a coordenar respostas geopolíticas diante da pressão dos Estados Unidos.

“A Rússia entrou no chat”, resumiu Escobar.

Ele também destacou a mensagem enviada pelo líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, a Putin. Segundo Escobar, a resposta do presidente russo a Araghchi mostrou respeito político e reforçou a dimensão estratégica da relação entre Moscou e Teerã.

Escobar citou ainda uma declaração de Putin sobre a luta iraniana por independência e soberania. Para o jornalista, a fala teve peso simbólico e político: “Da nossa parte nós vamos fazer tudo que sirva aos interesses de todos os povos da região”.

Aliança entre Rússia e Irã muda o tabuleiro

Na avaliação de Escobar, o apoio russo ao Irã altera profundamente o equilíbrio da guerra. Ele afirmou que não haverá resolução do conflito sem participação de Moscou.

“Não vai ter resolução da guerra sem um insight e sem uma colaboração da Rússia. É isso que mudou o xadrez completamente”, disse.

O jornalista apresentou Rússia e Irã como “dois estados-civilização milenares, soberanos e independentes”, unidos pela resistência à pressão anglo-americana.

Para Escobar, Washington subestimou mais uma vez a capacidade estratégica persa. Ele afirmou que os Estados Unidos confundiram diplomacia com coerção e “pressão máxima”, o que, em sua visão, tornou inviável o modelo anterior de negociação.

Washington enfrenta prazo e impasse estratégico

Escobar também afirmou que Trump terá de prestar esclarecimentos ao Congresso norte-americano sobre a guerra, que, segundo ele, seria impopular mesmo em Washington.

O analista alertou que ainda poderia haver risco de novo ataque dos Estados Unidos contra o Irã antes do fim do prazo político interno em Washington. No entanto, sustentou que qualquer nova ação militar teria de levar em conta um Irã mais forte e apoiado por Moscou.

“A diferença é que agora o império da pirataria vai ter que lidar imperativamente com o novo poderoso Irã que está surgindo por causa dessa guerra”, afirmou.

Para Escobar, o ponto central é que o modelo de negociação anterior está morto. A partir de agora, segundo ele, os Estados Unidos terão de lidar com uma nova realidade regional, marcada pela resistência iraniana, pela centralidade do Estreito de Ormuz e pela entrada decisiva da Rússia no processo diplomático.

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