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"Rússia e Irã ficaram ainda mais próximos", diz Pepe Escobar

Analista afirma que encontro entre Abbas Araghchi e Vladimir Putin consolidou Moscou como fiadora da posição iraniana diante dos EUA

"Rússia e Irã ficaram ainda mais próximos", diz Pepe Escobar (Foto: Brasil 247)

247 – A visita do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, à Rússia consolidou uma nova etapa da aliança estratégica entre Moscou e Teerã, segundo o analista Pepe Escobar. Em entrevista ao programa Judging Freedom, no YouTube, ele afirmou que a Rússia se tornou peça indispensável em qualquer negociação envolvendo Estados Unidos, Irã e a guerra na Ásia Ocidental.

“Nenhum possível acordo de paz entre os EUA e o Irã na Ásia Ocidental pode contornar a Rússia a partir de agora”, disse Escobar. Para ele, a recepção de Araghchi por Vladimir Putin em São Petersburgo foi um recado direto a Washington e Tel Aviv.

Moscou assume papel central

Escobar destacou que Araghchi foi recebido não apenas por Sergey Lavrov, mas também por Putin, em uma reunião de cerca de uma hora e meia. Segundo o analista, a duração do encontro reforça sua importância política.

“Putin nunca fala com líderes mundiais por mais de meia hora, talvez 40 minutos. E ele estava falando com o ministro das Relações Exteriores do Irã”, afirmou.

Na avaliação de Escobar, o gesto mostra que Rússia e Irã ficaram ainda mais próximos em um momento decisivo. Ele ressaltou que Putin fez questão de mencionar a soberania e a independência iranianas.

“Ele fala sobre a coragem do povo iraniano e os dois pontos mais importantes: independência e soberania, que é algo que os EUA simplesmente não conseguem tolerar”, disse.

Irã impõe nova ordem de negociação

Segundo Escobar, Teerã definiu uma sequência clara para qualquer negociação futura. Primeiro, exige o fim da guerra, incluindo os ataques contra o Líbano e contra o chamado eixo de resistência.

Depois, quer discutir o Estreito de Hormuz, rota essencial para o comércio mundial de petróleo. Só em uma terceira etapa aceitaria tratar do dossiê nuclear.

“A prioridade iraniana é o acordo nuclear por último. Três etapas. A mais importante é acabar com a guerra, acabar com o bloqueio e acabar com a guerra de forma abrangente”, afirmou.

Recado a Trump

Escobar disse que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, rejeitou essa proposta. Ainda assim, afirmou que Washington não tem mais condições de conduzir sozinho as negociações.

“A Rússia é a garantidora de fato da posição iraniana, muito mais do que os chineses”, declarou.

O analista também criticou a condução norte-americana das tratativas e afirmou que Teerã não aceita mais interlocutores ligados diretamente ao círculo de Trump e de Benjamin Netanyahu.

“A única figura americana com quem os iranianos estão dispostos a falar é JD Vance”, disse.

Disputa chega aos estreitos de Hormuz e Malaca

Escobar também apontou que a crise ultrapassa o Oriente Médio e envolve rotas estratégicas do comércio mundial, como os estreitos de Hormuz e Malaca.

Segundo ele, os Estados Unidos tentam construir um bloqueio global contra países que preservam independência estratégica ou buscam escapar do petrodólar.

“É parte da estratégia americana de instalar um bloqueio global contra qualquer um independente, soberano ou que ouse negociar petróleo contornando o petrodólar”, afirmou.

Para Escobar, o objetivo final é conter a China. “A China sabe exatamente do que se trata. Tudo isso é, mais uma vez, conter a China”, declarou.

Teerã reage com deboche

Ao comentar uma publicação de Trump com ameaças ao Irã, Escobar disse que a reação em Teerã foi de “deboche”.

“O que ele está insinuando? Que vou bombardear vocês de novo porque vocês não querem o meu acordo nuclear que estou tentando impor a vocês? É totalmente ridículo”, afirmou.

Para o analista, a viagem de Araghchi à Rússia deixou claro que Moscou está “totalmente envolvida” na busca de uma solução diplomática e que qualquer acordo futuro terá de passar por Putin.

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