Designação do PCC e do CV como terroristas é o tarifaço 2.0, diz Ricardo Amaral
Editordo Brasil 247 afirma que medida anunciada pelos Estados Unidos pode abrir espaço para interferências políticas e jurídicas no Brasil
247 – O anúncio dos Estados Unidos de que irão classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras provocou reações e debates no cenário político brasileiro. Durante o programa Boa Noite 247, o jornalista e editor especial do Brasil 247 em Brasília, Ricardo Amaral, criticou a iniciativa e a classificou como o “tarifaço 2.0”, avaliando que a medida tem pouco impacto real sobre o combate ao crime organizado, mas pode servir como instrumento de pressão política e de ampliação da influência norte-americana sobre assuntos internos do Brasil.
A medida foi anunciada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e deverá ser oficializada em 5 de junho. Segundo as informações discutidas no programa, PCC e Comando Vermelho passarão a integrar a lista de organizações classificadas como “terroristas globais especialmente designados”, uma categoria utilizada pelo governo norte-americano para aplicar sanções e ampliar mecanismos de atuação internacional.
"Tarifaço 2.0"
Ao analisar a decisão, Ricardo Amaral fez uma comparação com as recentes medidas comerciais adotadas por Washington e afirmou que a classificação das facções brasileiras representa uma nova etapa de pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil.
"Modus in rebus, é o tarifaço dois, né? É a segunda etapa da missão dos traidores da pátria", declarou.
Segundo ele, embora a medida seja apresentada como instrumento de combate ao crime organizado, seus efeitos concretos sobre a atuação das facções dentro do território brasileiro são praticamente inexistentes.
Efeito prático "zero" no combate ao crime
Para Amaral, o enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho depende fundamentalmente da atuação das instituições brasileiras e não de classificações feitas por governos estrangeiros.
"Do ponto de vista do combate ao crime, e o combate às organizações criminosas, o efeito disso é zero", afirmou.
O jornalista destacou que as ações efetivas contra as facções envolvem operações policiais, inteligência financeira e políticas públicas voltadas à recuperação de territórios dominados pelo crime.
"O combate às organizações criminosas no Brasil é feito com a combinação de operações como essa de hoje, operações de inteligência financeira para estrangular a cabeça financeira do crime", disse.
Segundo ele, o problema exige uma abordagem complexa, que envolve também a presença do Estado em áreas vulneráveis e medidas de caráter social.
"Tem que ser combinado com outras ações. Aí é uma coisa mais complexa e que tem que ser vista com muito jeito, que é a ação da polícia nos territórios. Envolve questões sociais, presença do Estado nos territórios, tudo isso", acrescentou.
Preocupação com possíveis interferências
Ricardo Amaral argumentou que o principal impacto da decisão está na possibilidade de ampliar mecanismos de atuação extraterritorial dos Estados Unidos.
"O impacto disso é mais uma vez se abrir brecha lá nos Estados Unidos, mas não aqui, para se operar", afirmou.
Na avaliação do jornalista, a medida reforça uma lógica segundo a qual Washington busca atuar como uma espécie de autoridade global.
"É aquela transnacionalidade arrogante da legislação americana. Eles se acham a polícia do mundo, eles se consideram e atuam e agem assim", declarou.
Ele acrescentou que a preocupação surge quando essa visão se traduz em ações concretas de intervenção.
"O problema é quando eles colocam isso na prática", afirmou.
Amaral citou exemplos do que considera ações intervencionistas dos Estados Unidos em outros países e alertou para os riscos de utilização da legislação norte-americana como instrumento de influência internacional.
Referência à Lava Jato
Durante a análise, o jornalista mencionou a atuação de órgãos norte-americanos em investigações internacionais e citou os efeitos provocados pela Operação Lava Jato sobre empresas brasileiras.
Segundo ele, instrumentos jurídicos dos Estados Unidos já tiveram influência significativa sobre a economia nacional e podem voltar a ser utilizados sob novas justificativas.
"Nós passamos por isso na operação Lava-Jato, quando a FCPA, que é o instrumento deles transnacional de combate ao crime, interferiu violentamente no Brasil", disse.
Na avaliação de Amaral, a aplicação extraterritorial de normas norte-americanas contribuiu para o enfraquecimento de empresas estratégicas brasileiras.
"Levou ao estrangulamento de empresas aqui, a chancelar tudo aquilo que nós vimos na Lava Jato", afirmou.
O jornalista argumentou que a nova classificação pode criar condições para novas formas de atuação de instituições norte-americanas em temas internos do país.
"Está aberta essa oportunidade de novo", alertou.
Debate eleitoral e atuação da extrema direita
Ricardo Amaral também avaliou que a medida possui potencial impacto político e eleitoral no Brasil, especialmente por ocorrer em um momento de intensa polarização.
Segundo ele, setores ligados ao bolsonarismo poderão utilizar a decisão como argumento político nos próximos meses.
"Os Bolsonaros vão usar isso como troféu", afirmou.
Embora a medida tenha sido anunciada durante o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Amaral atribuiu sua formulação a grupos mais amplos da política externa norte-americana.
"Quem trabalha por isso é aquela turma ali do Marco Rubio, são os caras das big techs, da religião do Vale do Silício, que defendem esse intervencionismo, inclusive político na questão brasileira", declarou.
Na avaliação do jornalista, os responsáveis pela iniciativa compreendem plenamente o impacto que ela pode produzir no ambiente político nacional.
"Eles sabem, têm consciência seguramente do potencial de impacto eleitoral dessa medida no debate eleitoral brasileiro, vai ser usado demagogicamente", disse.
Resposta do governo deve ser estratégica
Ao concluir sua análise no Boa Noite 247, Ricardo Amaral defendeu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as forças progressistas enfrentem o tema sem cair em armadilhas narrativas construídas por adversários políticos.
"Cabe ao governo, cabe ao candidato Lula enfrentar essa questão com inteligência, com sabedoria", afirmou.
Segundo ele, é necessário evitar que a discussão seja utilizada para associar a esquerda ao crime organizado.
"Não morder a isca que eles querem colocar, que é a história de que a esquerda, Lula, o PT, o sistema seria aliado do crime organizado enquanto eles o combatem", declarou.
Para Amaral, a resposta ao tema deve ser política e estratégica, evitando reforçar uma narrativa construída pelos adversários.
"Combate com esse tipo de armadilha e com esse tipo de traição ataca", concluiu.



