Europa se distancia dos EUA em meio à guerra no Irã e atritos com Trump
Relação transatlântica se deteriora com críticas de Trump, impasse europeu sobre guerra no Irã e divergências estratégicas entre aliados
247 - A relação entre Europa e Estados Unidos atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos, marcada pelo agravamento da guerra no Irã, críticas públicas de Donald Trump aos aliados europeus e divergências estratégicas sobre o conflito. A postura cautelosa dos países europeus diante da escalada militar tem sido alvo de ataques do presidente norte-americano, ampliando o distanciamento político entre os dois lados do Atlântico, relata a Folha de São Paulo.
O cenário reflete uma mudança significativa na dinâmica transatlântica. Há cerca de um ano, líderes europeus ainda buscavam contornar declarações provocativas de Trump com gestos diplomáticos. Nas últimas semanas, no entanto, o tom se agravou, com o presidente dos EUA passando a combinar ameaças e insultos. A contenção europeia frente à guerra levou Trump a classificar o continente como “covarde”, aprofundando o desgaste nas relações.
Cinco semanas após o início dos bombardeios conduzidos por Israel e Estados Unidos, os países europeus continuam evitando um envolvimento direto no conflito, que consideram caro, fora de contexto e impopular. Mesmo grupos políticos alinhados ideologicamente a Trump, como setores da ultradireita, têm evitado apoiar abertamente a intervenção militar. Na Alemanha, a AfD optou por não endossar a ação norte-americana, influenciada pelo cenário eleitoral. Na França e na Itália, forças semelhantes enfrentaram derrotas recentes.
Diante desse quadro, a Europa tem adotado uma postura discreta no debate internacional, priorizando preocupações internas como o aumento do preço dos combustíveis, possíveis novas ondas migratórias e riscos de terrorismo. A reação às declarações de Trump tem sido, em muitos casos, contida. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, por exemplo, ignorou críticas diretas do presidente americano.
Já o presidente francês, Emmanuel Macron, elevou o tom após ser alvo de comentários pessoais durante um jantar na Casa Branca. Trump mencionou um episódio envolvendo a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, amplamente repercutido nas redes sociais no ano anterior. Em resposta, Macron afirmou que as declarações não eram “nem elegantes nem apropriadas” e que “não merecem resposta”.
O líder francês também criticou a inconsistência das posições americanas. “Quando levamos as coisas a sério, não dizemos o contrário do que dissemos no dia anterior”, declarou, referindo-se às frequentes ameaças de Trump de retirar os Estados Unidos da Otan. Macron ainda destacou a gravidade do momento: “Estamos falando de guerra. Estamos falando hoje de mulheres e homens que estão em combate, de mulheres, homens e civis que estão sendo mortos.”
Apesar do discurso de distanciamento, a atuação europeia no conflito não é inexistente. Infraestruturas no continente continuam sendo utilizadas para operações militares americanas. Bases no Reino Unido, nos Açores portugueses e na Alemanha têm desempenhado papel logístico relevante, incluindo abastecimento de aeronaves e coordenação de ataques aéreos e operações com drones.
Especialistas apontam que essa participação indireta expõe as contradições da posição europeia. Enquanto líderes tentam limitar o envolvimento político e militar, a dependência estratégica em relação aos Estados Unidos permanece evidente. O jornal The Wall Street Journal destacou que essa cooperação evidencia o custo potencial de uma eventual retirada completa das forças americanas da Europa.
Nos bastidores diplomáticos, a estratégia predominante tem sido “administrar” a relação com Trump, diante do receio de enfraquecimento da Otan e do impacto na contenção da Rússia na guerra da Ucrânia. Analistas, porém, alertam para a necessidade de maior autonomia estratégica europeia.
O conflito no Oriente Médio também abriu espaço para movimentações geopolíticas da Rússia. Segundo análises, Moscou conseguiu aliviar pressões econômicas com a flexibilização de sanções e aumento da circulação de sua frota de petróleo. Além disso, o Kremlin teria tentado negociar apoio de inteligência com Washington envolvendo o Irã e a Ucrânia, sem sucesso.
No cenário político europeu, eleições na Hungria adicionam incerteza ao quadro. O pleito parlamentar pode encerrar o longo governo de Viktor Orbán, conhecido por sua proximidade com Moscou. A possível vitória da oposição preocupa os Estados Unidos, que enviaram o vice-presidente J.D. Vance a Budapeste para participar de eventos de campanha.
A combinação de tensões políticas, divergências estratégicas e interesses geopolíticos reforça o afastamento entre Europa e Estados Unidos. Em um contexto de guerra e disputas de poder global, a relação entre os aliados históricos enfrenta um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas.


