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Guerra caótica de Trump pode provocar mudança de regime nos EUA e não no Irã, diz analista geopolítico

Mark Almond afirma que a escalada militar contra Teerã pode desestabilizar a própria Casa Branca e aprofundar a crise política em Washington

Popularidade de Trump desaba (Foto: Reuters)

247 – A guerra conduzida por Donald Trump contra o Irã pode acabar produzindo uma mudança de regime não em Teerã, mas nos próprios Estados Unidos. A avaliação é do analista geopolítico Mark Almond, diretor do Crisis Research Institute, em Oxford, em artigo publicado no Daily Mail, no qual ele descreve a ofensiva norte-americana como caótica, impulsiva e orientada mais por impacto midiático do que por estratégia.

Segundo Almond, Trump — atual presidente dos Estados Unidos — e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, estariam conduzindo o conflito com foco na aparência e na repercussão política, e não em objetivos militares consistentes. Logo no início do artigo, ele sintetiza sua crítica ao afirmar: “Agora sabemos o que acontece quando apresentadores de TV decidem travar uma guerra internacional”.

O analista argumenta que ambos carregam uma lógica televisiva para dentro da guerra — Trump como ex-apresentador de O Aprendiz e Hegseth como ex-âncora da Fox News — priorizando imagens impactantes e narrativas dramáticas. Essa postura teria ficado evidente após uma operação bem-sucedida de resgate de dois aviadores norte-americanos abatidos no Irã e isolados em território inimigo.

Embora reconheça que a missão representou uma vitória significativa das forças armadas dos Estados Unidos e reafirmou o compromisso de “não deixar nenhum homem para trás”, Almond afirma que o episódio não foi usado como oportunidade para desescalar o conflito. Ao contrário, teria incentivado Trump a endurecer ainda mais o discurso e as ameaças.

O artigo destaca que, após alertar que o Irã teria “48 horas antes que todo o inferno caia sobre eles” caso o estreito de Ormuz não fosse reaberto, Trump elevou o tom no dia seguinte, ameaçando destruir infraestrutura vital do país. Em uma mensagem citada por Almond, o presidente afirmou: “Não haverá nada igual a isso!!! Abram o maldito estreito, seus loucos, ou vocês vão viver no inferno – É SÓ ESPERAR!”.

Em outra declaração, Trump disse: “Se eles não fizerem um acordo, e rápido, estou considerando explodir tudo e assumir o controle do petróleo.” Para o analista, esse tipo de retórica revela não apenas agressividade, mas também uma condução errática e potencialmente perigosa da guerra.

Risco de escalada regional e colapso humanitário

Almond avalia que o objetivo imediato do Irã é sobreviver à ofensiva dos Estados Unidos, o que estaria sendo facilitado por receitas provenientes da exportação de petróleo para países aliados, como a China. No entanto, ele alerta que o regime iraniano e a Guarda Revolucionária Islâmica estariam dispostos a retaliar de forma ampla.

Segundo o analista, além de Israel, países do Golfo que apoiaram, ainda que discretamente, a ação norte-americana — como Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos — também podem se tornar alvos. A tendência, afirma, é que o Irã ataque infraestrutura crítica, como aeroportos, refinarias de petróleo e usinas de dessalinização.

O impacto, segundo Almond, pode ser devastador e prolongado, já que muitos desses sistemas são altamente especializados e levariam anos para serem reconstruídos. Ele acrescenta que o Irã ainda mantém uma parcela significativa de seu arsenal de mísseis, o que amplia o risco de destruição em larga escala.

O analista projeta um cenário extremo, em que a destruição de sistemas de energia, água e refrigeração comprometeria as condições básicas de sobrevivência de milhões de pessoas. Nesse contexto, alerta que “muitos milhares podem morrer neste verão” e que uma nova crise de refugiados poderia superar a registrada durante a guerra civil síria.

Temor nuclear e mudança no comando iraniano

Outro ponto crítico abordado por Almond é o risco de avanço do programa nuclear iraniano. Ele afirma que, em meio aos bombardeios, a Rússia retirou seus engenheiros da usina nuclear de Bushehr, deixando a instalação sob controle exclusivo de técnicos iranianos.

O texto destaca que o ciclo de produção de energia nuclear gera excedentes de plutônio que poderiam ser utilizados na construção de ogivas. Almond também aponta uma mudança relevante no cenário político interno do Irã, ao afirmar que o aiatolá Ali Khamenei, contrário ao desenvolvimento de armas nucleares por considerá-las “proibidas pela lei islâmica”, teria sido morto em um ataque dos Estados Unidos.

Com a ascensão de Mojtaba Khamenei, o analista sugere que a posição iraniana sobre armas nucleares pode mudar, aumentando o risco estratégico global.

Impactos econômicos e crise global de energia

O artigo também destaca os efeitos econômicos da guerra, especialmente após o fechamento do estreito de Ormuz, que estaria bloqueando o fluxo global de petróleo e pressionando a inflação mundial.

Almond menciona que, na Austrália, centenas de postos de combustível já ficaram sem gasolina, enquanto na Itália teve início o racionamento de combustível para aviação, com redução significativa de voos prevista. No Reino Unido, o aumento dos preços pode tornar viagens internacionais inviáveis para grande parte da população.

Segundo ele, Trump chegou a estender o prazo de 48 horas dado ao Irã, mas ressalta que ninguém sabe ao certo o que acontecerá quando esse prazo terminar — “talvez nem mesmo o próprio presidente”.

Crise política nos Estados Unidos e risco de destituição

Almond afirma que, apesar de dificilmente enfrentar acusações internacionais por crimes de guerra, Trump pode enfrentar um desafio interno crescente. Parlamentares tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata estariam alarmados com seu comportamento e suas declarações.

Ele menciona, por exemplo, o encerramento de uma fala do presidente com a expressão “Louvado seja Alá”, interpretada como uma possível provocação ou deboche em relação ao Islã, o que pode gerar tensões com aliados do Oriente Médio.

O analista ressalta ainda que “algumas figuras importantes dos Estados Unidos estão dizendo, com toda seriedade, que ele parece estar fora de si”. Para ele, a pressão de conduzir uma guerra pode levar líderes a reações extremas, e há sinais de que Trump estaria perdendo o equilíbrio diante das responsabilidades.

Nesse contexto, Almond lembra que a Constituição dos Estados Unidos prevê, por meio da 25ª Emenda, a possibilidade de afastamento de um presidente considerado incapaz de exercer suas funções.

Ele conclui com uma advertência direta: “Se isso for acionado, a guerra caótica de Donald Trump para impor uma ‘mudança de regime’ pode acabar atingindo seu objetivo — não no Irã, mas nos Estados Unidos.” E deixa no ar uma questão preocupante: “À medida que se aproxima o 250º aniversário do país, os Estados Unidos enfrentarão um desastre humilhante?”

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