Guerra contra o Irã entra no 12º dia e expõe fracasso de plano dos EUA e de Israel para impor rendição rápida
Análise da Al Jazeera aponta que mudança de estratégia, com ataque direto à liderança iraniana, eliminou saídas diplomáticas
247 – A guerra conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã chegou ao 12º dia nesta quarta-feira e, longe de reproduzir o desfecho relativamente contido da escalada de junho de 2025, mergulhou o Oriente Médio em uma espiral de destruição sem horizonte claro de encerramento. Em vez de forçar uma rendição rápida de Teerã, a nova ofensiva ampliou o teatro de operações, elevou os custos militares e econômicos e aprofundou o sofrimento civil em diversos países da região.
Segundo reportagem publicada pela Al Jazeera, a atual fase do conflito revela como a estratégia adotada por Washington e Tel Aviv produziu o efeito inverso do pretendido. Ao abandonar o foco anterior na degradação de instalações nucleares e militares e partir para uma ofensiva de “decapitação” da liderança iraniana, os dois aliados teriam destruído as bases mínimas para uma negociação e aberto caminho para uma guerra de atrito, prolongada e sem saída diplomática visível.
No leste de Teerã, os sinais dessa nova realidade já moldam a rotina dos moradores. Um residente identificado como Sepehr mantém a porta do apartamento destrancada para que sua família possa correr imediatamente para um estacionamento subterrâneo quando as explosões voltam a sacudir a capital. Em meio à fumaça espessa e tóxica proveniente de instalações petrolíferas em chamas, a percepção dominante é a de que o conflito pode se arrastar por semanas.
"A guerra pode durar semanas, então minha família e eu só vamos sair se ficar ruim demais", disse Sepehr. "Por enquanto, a vida continua".
A cena traduz o sentimento de déjà vu que atravessa o Irã e o Oriente Médio. Em junho de 2025, exatamente no 12º dia da escalada militar, um cessar-fogo frágil, mediado pelos Estados Unidos, entrou em vigor e interrompeu quase duas semanas de bombardeios intensos. Naquela ocasião, líderes militares de alto escalão e centenas de civis morreram no Irã em ataques israelenses, enquanto 28 pessoas morreram em Israel. O conflito terminou após o lançamento iraniano, em grande medida simbólico, contra a base aérea de Al Udeid, no Catar, que abriga ativos norte-americanos.
Agora, no entanto, o cenário é muito mais perigoso. A diferença central, segundo a análise, está no objetivo político e militar da operação. Em 2025, apesar da violência, os ataques estavam concentrados em instalações nucleares e militares específicas, como Natanz, Fordow e Isfahan, ainda que Teerã também tenha sido duramente atingida. Isso preservava uma margem para tratativas indiretas. O cessar-fogo de 24 de junho daquele ano foi alcançado após intensa mediação de Omã, que facilitava conversas nucleares indiretas em Genebra.
Desta vez, a escolha foi outra. O ataque inicial, em 28 de fevereiro de 2026, assassinou o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e vários membros de sua família em Teerã. A premissa aparente da operação era a de que a eliminação do chefe de Estado provocaria a capitulação imediata do governo iraniano. Essa aposta, porém, fracassou.
Com a morte de Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei, seu segundo filho, foi escolhido como novo líder supremo, recebendo o respaldo da Guarda Revolucionária Islâmica e de outras lideranças centrais do aparato estatal. Em vez de colapso, o que se viu foi a continuidade da cadeia de comando e a adaptação do sistema político-militar iraniano a uma situação extrema.
Ao mesmo tempo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alternou declarações exigindo a “rendição incondicional” do Irã, incentivando uma insurreição popular e oferecendo anistia a comandantes militares que mudassem de lado. Ainda assim, apesar das alegações de Washington e de Israel de que mais de 5 mil alvos foram atingidos e de que a força aérea e a marinha iranianas teriam sido devastadas, o governo de Teerã permaneceu de pé.
As autoridades iranianas afirmam que forças norte-americanas e israelenses bombardearam quase 10 mil alvos civis no país desde o início da guerra e mataram mais de 1,3 mil civis. A dimensão desses números reforça a percepção de que a guerra deixou de ser uma disputa circunscrita a capacidades militares estratégicas para atingir diretamente a infraestrutura social do país.
A doutrina que evitou o colapso
Um dos pontos centrais da análise da Al Jazeera é que Estados Unidos e Israel subestimaram profundamente a doutrina militar iraniana. Especialistas ouvidos pela rede destacam que Teerã passou cerca de duas décadas desenvolvendo um modelo pensado precisamente para sobreviver a um cenário em que sua liderança máxima fosse eliminada.
Formulada pela Guarda Revolucionária, a chamada defesa em mosaico descentralizada distribui comando e controle por camadas regionais. Associada a um plano de redundância de sucessão, ela busca garantir que, mesmo com a morte de dirigentes de alto escalão e com interrupções nas comunicações centrais, unidades locais mantenham autoridade e capacidade operacional.
Na prática, isso significa que a morte do líder supremo não paralisou o Estado iraniano nem o seu aparato militar. Ao contrário: a sucessão foi rapidamente definida, e as forças de mísseis do Irã continuaram operando. Usando mísseis balísticos de curto e médio alcance, além de enxames de drones, Teerã transformou o tempo em arma estratégica, buscando esgotar os estoques de interceptadores israelenses e impor uma paralisia econômica contínua ao adversário.
Essa resposta mostra que a guerra atual não é apenas mais ampla do que a de 2025, mas também mais estruturada do ponto de vista iraniano. O que parecia, na visão dos formuladores da ofensiva, um golpe decisivo, converteu-se numa campanha prolongada, em que o fator desgaste ganhou centralidade.
Um conflito que se espalhou pela região
Outra diferença decisiva em relação ao ano passado é a expansão do campo de batalha. Em 2025, a retaliação iraniana ficou em grande medida contida a Israel e a ativos norte-americanos específicos. Em 2026, o mapa da guerra foi ampliado drasticamente.
Segundo a reportagem, Teerã passou a atingir alvos em nove países. Mísseis e drones alcançaram presença militar dos Estados Unidos e infraestrutura civil em todos os países do Golfo, incluindo Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos. Além disso, o Irã restringiu o tráfego pelo Estreito de Hormuz, uma das rotas mais estratégicas do planeta para o escoamento de petróleo.
O efeito imediato foi a disparada do barril do Brent para acima de 100 dólares, em meio a fortes oscilações, reavivando o temor de uma crise energética global. Em um contexto internacional já marcado por instabilidade, inflação e desaceleração econômica em várias regiões, a ampliação da guerra eleva o risco de novos choques sobre cadeias produtivas, combustíveis e alimentos.
O peso econômico da guerra sem fim
O custo financeiro da operação também cresce de forma acelerada. De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, citado pela Al Jazeera, as primeiras 100 horas da chamada Operação Epic Fury custaram aos Estados Unidos cerca de 3,7 bilhões de dólares, em sua maioria fora do orçamento previsto.
Para Israel, o quadro tampouco é favorável. O país já enfrenta forte desgaste econômico em razão das guerras prolongadas em Gaza e no Líbano. Agora, com sirenes diárias obrigando milhões de pessoas a buscar abrigo em bunkers, a pressão interna tende a aumentar. O prolongamento da guerra cobra preço não apenas militar, mas social, fiscal e político.
Essa combinação de custos crescentes, ausência de vitória rápida e inexistência de saída diplomática torna o conflito especialmente perigoso. Em vez de uma ação de duração limitada com objetivos definidos, consolida-se um cenário de confronto aberto, em que cada nova rodada de ataques aprofunda a dependência de escaladas adicionais.
O custo humano da escalada
Mas é entre os civis que a devastação aparece em sua forma mais brutal. Enquanto dirigentes políticos e chefes militares discutem os parâmetros mutáveis da chamada “vitória”, populações inteiras absorvem as consequências mais duras da guerra.
Segundo os números citados na reportagem, ao menos 1.255 pessoas morreram no Irã, além de 570 no Líbano, 13 em Israel e oito soldados norte-americanos. Entre os mortos iranianos estão 200 crianças e 11 profissionais da saúde.
Um dos episódios mais chocantes ocorreu na cidade de Minab, no sul do Irã. Um ataque destruiu a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, matando 165 pessoas, a maioria jovens estudantes. Embora os Estados Unidos afirmem investigar o episódio, analistas independentes sustentam que destroços de mísseis Tomahawk encontrados no local apontam fortemente para a responsabilidade de Washington.
A imagem descrita pela Al Jazeera é devastadora: em meio aos escombros da escola, um homem tomado pela dor segurava os restos mortais de uma criança de sete anos e gritava acusações de crimes de guerra contra o céu. É uma cena que resume o abismo entre os cálculos estratégicos das potências envolvidas e a experiência concreta das populações lançadas ao centro do conflito.
A guerra mais longa que o planejado
Donald Trump afirmou recentemente que a guerra terminaria “muito em breve”. No terreno, porém, os sinais apontam em sentido oposto. A continuidade dos bombardeios, a manutenção da capacidade de resposta iraniana, a multiplicação de frentes regionais e a ausência de mediação eficaz indicam que o conflito entrou em uma fase mais longa e imprevisível.
A análise da Al Jazeera sugere, assim, que o plano concebido após a experiência de 2025 produziu um impasse estratégico. Ao apostar que a eliminação da cúpula iraniana bastaria para desmontar o Estado e forçar uma rendição, Estados Unidos e Israel acabaram empurrando a região para uma guerra ainda mais extensa, dispendiosa e sangrenta.
No 12º dia de combates, a principal constatação é que a lógica da força não encerrou o conflito. Pelo contrário: ampliou sua duração, expandiu seu alcance e multiplicou seu custo humano. Para milhões de pessoas presas a uma guerra sem corredores diplomáticos, as fórmulas militares e os projetos estratégicos já não oferecem perspectiva de solução, apenas a continuidade da perda, do medo e do sofrimento.


