Hegseth adota pretexto religioso para conduzir agressão contra o Irã
Secretário de Defesa dos EUA invoca fé cristã para legitimar guerra alinhada a interesses estratégicos e econômicos, evocando lógica das Cruzadas
247 – O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, tem recorrido a uma retórica religiosa para justificar a ofensiva militar contra o Irã, em uma estratégia que combina poder bélico, ideologia e interesses geopolíticos. Reportagem do New York Times revela como o chefe do Pentágono vem apresentando a guerra não apenas como uma decisão política, mas como uma missão supostamente respaldada por Deus.
Em meio a bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra uma nação de maioria muçulmana xiita, Hegseth exaltou a capacidade militar norte-americana em termos brutais, afirmando que o país pode fazer chover “morte e destruição dos céus” sobre seus inimigos iranianos. Em seguida, fez um apelo explícito à religiosidade cristã como instrumento de mobilização interna. “Todos os dias, de joelhos dobrados, com suas famílias, em suas escolas, em suas igrejas”, disse ele, “em nome de Jesus Cristo”.
A instrumentalização da fé como justificativa para uma guerra de alta intensidade reacende memórias históricas sombrias. Ao misturar religião com estratégia militar, Hegseth ecoa uma lógica que remete aos períodos mais violentos das Cruzadas medievais — quando conflitos geopolíticos eram revestidos de justificativas religiosas para legitimar massacres e expansões territoriais.
Essa abordagem, no entanto, não ocorre no vazio. A guerra contra o Irã está inserida em um contexto mais amplo de interesses estratégicos e econômicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, incluindo o controle de rotas energéticas, a contenção de potências regionais e o alinhamento direto com Israel. A retórica religiosa surge, assim, como uma camada ideológica que busca conferir legitimidade moral a decisões que, na prática, respondem a cálculos de poder.
Hegseth tem sido um dos principais formuladores dessa narrativa dentro do governo do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, cuja base política inclui setores do cristianismo conservador. Em uma entrevista recente ao programa “60 Minutes”, ele reforçou essa visão ao declarar: “Nossas capacidades são melhores. Nossa vontade é maior. Nossas tropas são melhores. A providência de nosso Deus todo-poderoso está lá protegendo essas tropas, e estamos comprometidos com esta missão.”
A tentativa de apresentar a guerra como desígnio divino, porém, tem sido alvo de críticas inclusive dentro de círculos religiosos. Para líderes cristãos, a associação direta entre fé e destruição militar distorce princípios fundamentais das tradições religiosas. O cardeal Robert McElroy, de Washington, foi categórico ao afirmar: “Na minha própria visão no ensinamento da igreja, esta não é uma guerra moral, é uma guerra imoral, e portanto não estou orando para que esta guerra imoral continue”. Ele defendeu ainda um cessar-fogo imediato.
No mesmo sentido, o Papa Leão 14 criticou a escalada de violência, destacando que “a violência nunca pode levar à justiça, à estabilidade e à paz que os povos aguardam”. As declarações evidenciam o contraste entre a instrumentalização religiosa promovida por Hegseth e a posição de importantes lideranças cristãs, que rejeitam a legitimação espiritual de conflitos armados.
Apesar disso, o secretário de Defesa tem aprofundado essa linha discursiva. Em eventos públicos e aparições oficiais, ele frequentemente afirma que os Estados Unidos são uma nação fundada sobre princípios cristãos e que há uma continuidade histórica entre os Evangelhos e a civilização ocidental. Em seu livro American Crusade, publicado em 2020, ele vai além ao defender as Cruzadas como episódios necessários para a preservação do Ocidente, classificando-as como justificáveis apesar de seu caráter “sangrento”.
A simbologia adotada por Hegseth reforça essa visão. Ele carrega tatuada no corpo a expressão latina “Deus vult” (“Deus quer”), associada diretamente às Cruzadas — um detalhe que sintetiza a fusão entre fé, guerra e identidade civilizacional que orienta seu pensamento.
Ao borrar deliberadamente as fronteiras entre espiritualidade e estratégia militar, Hegseth não apenas radicaliza o discurso oficial dos Estados Unidos, como também reintroduz no debate internacional uma lógica perigosa: a de guerras apresentadas como inevitáveis ou sagradas. Em um cenário já marcado por tensões geopolíticas e disputas por recursos, essa retórica amplia os riscos de escalada e reforça a percepção de que interesses econômicos e alianças estratégicas estão sendo mascarados por um discurso religioso mobilizador.
A guerra contra o Irã, nesse contexto, deixa de ser apenas um conflito regional e passa a refletir uma combinação explosiva de poder militar, interesses econômicos e ideologia — uma equação que, historicamente, tem produzido alguns dos capítulos mais sombrios da humanidade.


