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Irã ameaça fechar totalmente o estreito de Ormuz se EUA atacarem sua infraestrutura energética

Advertência amplia a escalada no Oriente Médio, atinge o coração do comércio global de petróleo e eleva os riscos para a economia mundial

Imagem aérea revela o litoral do Irã e a ilha de Qeshm, localizada no estreito de Ormuz, bandeira do Irã e Donald Trump (Foto: Dado Ruvic/Reuters I Reuters)

247 – O Irã elevou neste domingo o tom de suas advertências em meio à escalada militar no Oriente Médio e afirmou que fechará completamente o estreito de Ormuz caso os Estados Unidos ataquem sua infraestrutura energética. A informação foi publicada pela teleSUR, com base em agências e declarações oficiais iranianas, em um contexto de agravamento dos confrontos envolvendo Teerã, Washington e Israel.

A ameaça foi apresentada enquanto o país executava a 74ª onda da Operação Promessa Veraz 4 contra bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio e alvos israelenses no centro e no sul dos territórios ocupados. A nova sinalização iraniana marca um salto de gravidade no conflito, ao colocar no centro da crise uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta, fundamental para o fluxo mundial de petróleo, gás natural liquefeito e fertilizantes.

No sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu a Teerã um prazo de 48 horas para “abrir” o estreito, sob ameaça de atingir usinas elétricas iranianas, “¡empezando con la más grande!”. A resposta iraniana foi imediata. Inicialmente, o país prometeu atacar instalações energéticas e dessalinizadoras que atendem interesses norte-americanos na região. Neste domingo, porém, a advertência foi ampliada: além de manter a ameaça de retaliação, Teerã passou a afirmar que poderá fechar integralmente Ormuz se suas centrais energéticas forem atingidas.

A declaração mais contundente partiu do tenente-coronel Ebrahim Zolfaqari, porta-voz do Quartel-General Central de Khatam al-Anbiya. Segundo ele, a via marítima permanece fechada “únicamente al paso enemigo y perjudicial” e está “bajo nuestro control inteligente”, ao mesmo tempo em que segue permitindo “el paso seguro” a “embarcaciones que no estén relacionadas con los enemigos”. Em seguida, acrescentou: “El tránsito no perjudicial continúa bajo regulaciones específicas que garantizan nuestra seguridad e intereses”.

A mensagem mais sensível, no entanto, veio na formulação direta sobre o futuro da rota. Zolfaqari afirmou que, se a infraestrutura energética iraniana for atacada, o país “cerrará completamente el estrecho de Ormuz hasta que se reconstruyan las instalaciones dañadas”. A fala explicita que Teerã vincula a reabertura total da passagem à recuperação material de suas instalações, o que pode significar um bloqueio prolongado em caso de ofensiva norte-americana.

Ormuz no centro da guerra energética

O estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao restante do mundo e ocupa posição central no sistema energético global. De acordo com fontes especializadas citadas no texto original, por ali transitava, antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente, além de uma quinta parte dos embarques de gás natural liquefeito e um terço do fertilizante mais utilizado no mundo.

Ainda segundo essas fontes, antes da guerra passavam diariamente 138 embarcações pelo estreito. Desde 28 de fevereiro, data apontada como o início dos ataques israelo-estadunidenses e das represálias iranianas, o tráfego teria despencado mais de 95%. Em pouco mais de três semanas, menos de uma centena de navios cruzou a passagem, com média de cinco a seis por dia, a maioria de bandeira iraniana ou sob instruções e orientação das autoridades de Teerã.

Esses números ajudam a dimensionar a profundidade da crise. Um eventual fechamento total do estreito não seria apenas mais um episódio militar no conflito regional. Seria, na prática, um choque geopolítico com consequências imediatas sobre os preços da energia, os custos logísticos, a inflação internacional e as perspectivas de crescimento em várias economias.

Teerã amplia lista de possíveis alvos

O porta-voz do Quartel-General Central de Khatam al-Anbiya afirmou também que, se as instalações energéticas iranianas forem atingidas, todos os centros de geração de eletricidade, a infraestrutura energética e os sistemas de tecnologia da informação e comunicação de Israel passarão a ser alvos. A advertência não se limitou ao território israelense.

Segundo a mesma declaração, também seriam considerados alvos legítimos empreendimentos semelhantes com acionistas norte-americanos na região, além de centrais elétricas localizadas em países do entorno que abriguem bases militares dos Estados Unidos. Trata-se de uma expansão do escopo da ameaça, que passa a envolver não apenas os protagonistas diretos da guerra, mas também a infraestrutura de países aliados de Washington no Oriente Médio.

Em outra frente, o Serviço de Inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica respondeu à ameaça de Trump afirmando que centros tecnológicos críticos situados fora da região serão atacados em até 48 horas caso a planta energética iraniana seja bombardeada. Em sua formulação oficial, o órgão declarou que, “a partir de agora”, “las fuerzas armadas de Irán también tienen en la mira objetivos tecnológicos y políticos extrarregionales asociados con los enemigos de la República Islámica”.

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian também se pronunciou pela rede X. Segundo a publicação, “las amenazas y el terror no hacen más que reforzar nuestra unidad (…) La ilusión de borrar a Irán del mapa muestra desesperación frente a la voluntad de una nación que hace historia”. Na mesma linha, reforçou que, por enquanto, Ormuz “está abierto a todos, excepto a quienes violan nuestro territorio”.

Direito internacional e limites para ataques a civis

O texto destaca ainda a avaliação de especialistas em direito internacional segundo a qual centrais elétricas a serviço da população civil só poderiam ser atacadas se a vantagem militar superasse o sofrimento imposto à população. A observação é relevante porque o centro da troca de ameaças entre Washington e Teerã passou justamente a ser a infraestrutura energética, cujo impacto ultrapassa o campo militar e recai diretamente sobre serviços essenciais.

A guerra, portanto, avança sobre um terreno particularmente sensível. Ao mirar usinas elétricas, sistemas de informação, dessalinizadoras e instalações de energia, os dois lados aproximam o conflito de uma dinâmica de colapso estrutural, com efeitos humanitários e econômicos muito mais amplos do que os de ataques convencionais a bases e posições militares.

Impactos já atingem a economia mundial

A deterioração da situação em Ormuz já produz reflexos concretos. O texto menciona informação do jornal The New York Times, publicada na sexta-feira, segundo a qual ao menos 39 refinarias de petróleo, campos de gás natural e outras instalações energéticas em nove países foram danificados desde o início da guerra.

A interrupção parcial do tráfego no estreito já afeta o abastecimento global de energia e tem impacto na economia mundial, com forte alta dos preços do setor energético e repercussões em cadeia sobre outros segmentos. O efeito já é sentido inclusive nos Estados Unidos, onde consumidores enfrentam o encarecimento de combustíveis e outros bens.

Ainda segundo o material, a Organização Mundial do Comércio alertou nesta semana que, se a guerra se prolongar ao longo do restante de 2026, o crescimento global previsto para o ano poderá ficar em 2,5%, abaixo da previsão anterior de 2,8%. O organismo advertiu que os fluxos comerciais mundiais e a expansão econômica poderão desacelerar ainda mais se a alta dos preços da energia e os problemas no transporte provocados pela guerra no Oriente Médio persistirem.

Operação Promessa Veraz 4 e ataques cruzados

No campo militar, a Guarda Revolucionária Islâmica informou neste domingo o lançamento da 74ª onda da Operação Promessa Veraz 4 contra bases militares norte-americanas na região e posições israelenses em áreas do sul dos territórios palestinos ocupados. Segundo o comunicado, foram empregados mísseis balísticos Emad, Fateh e Qiam, além de drones de ataque.

Entre os alvos citados estão a base aérea Príncipe Sultão, na Arábia Saudita, a Quinta Frota, no Bahrein, e uma posição usada por militantes curdos do Komala, no norte do Iraque. Em Israel, teriam sido atingidos centros militares e de segurança em Tel Aviv, Petah Tikva, Holon e Ramat Gan, com uso de mísseis pesados, incluindo os sistemas Ghadr, Kheibar Shekan e Khorramshahr-4.

Ao longo do mesmo domingo, o Exército israelense lançou ataques em grande escala contra Teerã. A troca de bombardeios das últimas horas aumentou o número de mortos no Irã, em Israel e no Líbano, ampliando o custo humano de uma guerra que já se expande por toda a região.

Segundo fontes sanitárias iranianas citadas no texto, ao menos 210 crianças morreram e outras 1.510 ficaram feridas no Irã desde o início da guerra. Fontes externas mencionadas pela reportagem apontam mais de 1.400 civis mortos. No Líbano, os ataques de Israel já teriam deixado mais de mil mortos e mais de meio milhão de deslocados. Já os ataques contra Israel provocaram 15 mortes em território israelense e quatro na Cisjordânia ocupada.

Trump enfrenta impasse militar e desgaste político

O texto da teleSUR também aborda os efeitos políticos da guerra para Donald Trump, que é o atual presidente dos Estados Unidos. Após três semanas de ataques cruzados entre Irã, Israel e Estados Unidos, analistas ouvidos na reportagem avaliam que Washington enfrenta erros de cálculo, dificuldade para construir uma estratégia de saída e perda de controle sobre a narrativa política do conflito.

Entre os fatores de desgaste aparecem o envio de mais tropas ao Oriente Médio para possíveis operações terrestres, o risco de novas baixas, a alta dos preços da gasolina, da energia e de produtos de consumo, além do impacto sobre a popularidade do presidente e as perspectivas eleitorais do Partido Republicano nas eleições legislativas de meio de mandato.

A reportagem também destaca a tensão entre Washington e aliados da OTAN, depois de Trump classificá-los como “cobardes” por se recusarem a intervir no estreito de Ormuz. O episódio expõe um isolamento crescente dos Estados Unidos dentro de seu próprio bloco de alianças, em um momento em que a escalada militar exige coordenação internacional e respostas de contenção.

O ex-negociador para o Oriente Médio Aaron David Miller resumiu esse quadro ao afirmar: “Trump se ha metido en un lío con la guerra contra Irán y no sabe cómo salir de él”. Em seguida, acrescentou: “Esa es su mayor fuente de frustración”.

Na mesma direção, analistas sustentam que a resistência dos aliados não decorre apenas da recusa em entrar em uma guerra que não escolheram travar, mas também de uma reação ao desprezo demonstrado por Trump em relação às alianças tradicionais dos Estados Unidos em seu segundo mandato na Casa Branca.

O ex-embaixador norte-americano John Bass também apontou falhas de planejamento. Segundo ele, “No tuvieron en cuenta las posibles contingencias relacionadas con las maneras en que un conflicto con Irán podría desviarse”. Já Brett Bruen, ex-assessor de política externa do governo Obama e atual diretor da consultoria Situation Room, afirmou que Trump “le está siendo difícil controlar el ciclo informativo como solía hacerlo, porque todavía no puede explicar por qué ha llevado a este país a la guerra ni qué sucederá después”.

Escalada sem horizonte claro

O avanço das ameaças iranianas sobre o estreito de Ormuz revela que a guerra entrou em uma fase ainda mais perigosa. Já não se trata apenas de bombardeios e retaliações localizadas, mas de uma disputa que alcança corredores marítimos estratégicos, sistemas energéticos, redes tecnológicas e equilíbrios econômicos globais.

Ao atrelar a eventual interdição total de Ormuz a um ataque contra sua infraestrutura energética, Teerã deixa claro que considera esse tipo de ofensiva uma linha vermelha. Do outro lado, a pressão de Trump por uma abertura do estreito sob ameaça de bombardeios empurra a crise para uma lógica de confronto direto cujo custo pode se espalhar muito além do Oriente Médio.

Com o comércio internacional já pressionado, o mercado de energia em sobressalto e a guerra produzindo mortos e deslocados em vários países, a nova advertência do Irã aprofunda um cenário em que qualquer movimento adicional pode desencadear consequências ainda mais amplas para a segurança regional e para a economia mundial.

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