Irã volta a fechar o Estreito de Ormuz após supostas violações dos Estados Unidos
Teerã acusa os Estados Unidos de violarem acordos, restabelece controle militar sobre a rota estratégica e amplia incerteza
247 – O Irã anunciou neste sábado, 18 de abril de 2026, o restabelecimento do controle militar sobre todo o tráfego no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o escoamento de petróleo e mercadorias. Segundo informações publicadas pela RT Brasil, a decisão foi justificada por Teerã como resposta às “repetidas violações” e a atos de “pirataria” atribuídos aos Estados Unidos sob o pretexto de um bloqueio naval.
O anúncio foi feito pelo porta-voz do Quartel-General Central de Khatam al-Anbiya, Ebrahim Zolfaghari, que afirmou que o Irã havia aceitado, “agindo de boa-fé”, permitir a passagem controlada de um número limitado de petroleiros e navios mercantes pelo estreito, em conformidade com entendimentos obtidos em negociações anteriores. Ainda assim, segundo ele, Washington teria mantido práticas consideradas ilícitas por Teerã.
Em sua declaração, Zolfaghari afirmou que, diante desse cenário, “o controle sobre Ormuz voltou ao seu estado anterior e o estreito encontra-se sob estrita vigilância e controle das forças iranianas”. Ele também ressaltou que o Irã “não vai suspendê-lo até que os EUA ponham fim à livre circulação de navios do Irã para o seu destino e vice-versa”.
A nova decisão marca mais um capítulo da escalada no Golfo Pérsico, após dias de tensão militar e diplomática. Depois da agressão de Estados Unidos e Israel, segundo a versão iraniana reproduzida pela RT Brasil, Teerã havia praticamente bloqueado o Estreito de Ormuz e declarado que da região não sairia “nem uma única gota de petróleo” por via marítima, movimento que provocou forte reação nos mercados e impulsionou os preços dos combustíveis.
Ormuz no centro da crise
O Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é considerado uma artéria central do comércio global de energia. Qualquer alteração em seu funcionamento tem potencial para impactar cadeias logísticas, preços internacionais e o equilíbrio geopolítico da região.
Segundo o relato publicado, as forças dos Estados Unidos iniciaram na segunda-feira, 13 de abril, um bloqueio de todo o tráfego marítimo que entra ou sai dos portos iranianos. Em resposta, o Irã passou a condicionar qualquer flexibilização em Ormuz ao fim dessas restrições impostas por Washington.
Houve, no entanto, uma breve tentativa de distensão. Após o acordo de cessar-fogo entre Israel e Líbano, firmado na quinta-feira, 16 de abril, em Washington, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, anunciou que o estreito seria reaberto para navios comerciais “durante o restante do período de cessar-fogo”.
Ao mesmo tempo, autoridades iranianas já indicavam que a continuidade do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos seria interpretada como violação do cessar-fogo. Nesse cenário, Teerã advertiu que voltaria a fechar o Estreito de Ormuz, medida que agora foi efetivamente retomada.
Irã endurece discurso contra os Estados Unidos
A decisão iraniana reforça o discurso de que Washington estaria utilizando a pressão marítima como instrumento adicional de cerco à República Islâmica. Ao alegar “violações” e “atos de pirataria”, o comando militar iraniano procura sustentar juridicamente e politicamente a retomada do controle integral sobre a passagem.
Na prática, a medida amplia a insegurança sobre uma região já profundamente marcada por confrontos, ameaças cruzadas e reconfiguração de alianças. O fechamento ou a limitação severa do tráfego em Ormuz não afeta apenas o Irã e seus adversários imediatos, mas repercute diretamente sobre exportadores de petróleo, rotas comerciais e países dependentes de energia importada.
O gesto de Teerã também demonstra que o cessar-fogo anunciado no teatro regional ainda não foi suficiente para conter os efeitos colaterais da guerra ampliada no Oriente Médio. Mesmo com a trégua entre Israel e Líbano, o conflito segue irradiando consequências econômicas, militares e diplomáticas para além dos territórios diretamente envolvidos.
Lavrov vê impacto continental da guerra
Também neste sábado, em desdobramento diretamente relacionado à crise, foram divulgadas declarações do chanceler russo Sergey Lavrov sobre os efeitos mais amplos da guerra no Oriente Médio. Em coletiva de imprensa após a reunião do Conselho de Ministros das Relações Exteriores da Comunidade dos Estados Independentes, realizada em Moscou, Lavrov apontou que a escalada militar mudou profundamente o ambiente estratégico na Eurásia.
Segundo o ministro russo, “é compreensível que tenha sido dada especial atenção a diversos aspectos da escalada de tensão sem precedentes na região do Golfo Pérsico provocada pela agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã”.
Lavrov afirmou ainda que “a crise gerada na região do Golfo Pérsico, que se estendeu praticamente por todo o Oriente Médio, está mudando radicalmente as tendências gerais no continente euro-asiático”. Em sua avaliação, os efeitos da guerra não se limitam à esfera militar, mas atingem também a segurança alimentar, as rotas de abastecimento energético e a circulação de fertilizantes.
O chanceler acrescentou que será necessário repensar os mecanismos de integração e segurança no continente. Nesse contexto, defendeu a construção de uma nova arquitetura regional envolvendo organismos como a Comunidade dos Estados Independentes, a Organização de Cooperação de Xangai, a ASEAN e outras estruturas de coordenação.
Ao enfatizar que muitos países da Eurásia estão reavaliando os acordos que sustentavam seus interesses econômicos e de segurança, Lavrov indicou que a guerra no Golfo Pérsico pode acelerar uma reorganização geopolítica de longo alcance, com reflexos sobre comércio, energia e alianças multilaterais.
Espaço aéreo iraniano é reaberto parcialmente
Em outro sinal de rearranjo tático em meio à crise, a Organização de Aviação Civil do Irã anunciou neste sábado a reabertura parcial do espaço aéreo do país para voos internacionais. Segundo comunicado oficial, o tráfego foi retomado na região leste do território iraniano, com a reabertura de vários aeroportos a partir das 7h no horário local.
A entidade informou que “as operações de voo nos aeroportos do país serão restabelecidas gradualmente para prestar serviços de transporte de passageiros aos nossos concidadãos, dependendo da preparação técnica e operacional dos setores militar e civil”.
A retomada parcial das operações aéreas civis ocorreu um dia após Teerã ter anunciado a reabertura do Estreito de Ormuz à navegação comercial durante o período de cessar-fogo. Agora, com a decisão de restabelecer o controle militar rígido sobre a passagem marítima, o quadro volta a se deteriorar e evidencia a volatilidade extrema da situação.
Risco para energia e comércio global
O novo fechamento de Ormuz recoloca no centro do debate internacional o risco de desorganização dos fluxos energéticos globais. O estreito é um ponto de passagem decisivo para exportações de petróleo e gás, e qualquer interrupção tende a pressionar preços, encarecer fretes e aprofundar a insegurança nos mercados.
Mais do que uma disputa bilateral entre Irã e Estados Unidos, a crise expõe a fragilidade do sistema regional de segurança no Oriente Médio. Ao mesmo tempo em que cessar-fogos pontuais são anunciados, persistem medidas de bloqueio, pressões militares e ameaças de retaliação que tornam instável qualquer tentativa de normalização.
O movimento de Teerã, ao associar a reabertura de Ormuz ao fim do bloqueio contra seus navios, deixa claro que a navegação no Golfo Pérsico seguirá sendo usada como instrumento de pressão estratégica. Enquanto não houver mudança concreta na postura dos Estados Unidos, a tendência é de manutenção de um cenário de tensão elevada, com impactos diretos para a economia mundial e para a segurança da região.


