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Julgamento criminal de Netanyahu será retomado em meio a cessar-fogo com o Irã e novo pedido de adiamento

Processo por fraude, suborno e quebra de confiança volta ao centro da crise política

Uma mulher segura um cartaz onde se lê "Procurado por crimes contra a humanidade, Benjamin Netanyahu", durante a manifestação "Red Line For Gaza", em 15 de junho de 2025, em Bruxelas, Bélgica. (Foto: Luis Miguel Caceres/Getty Image)

247 – O julgamento criminal do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deve ser retomado neste domingo, após a suspensão de medidas emergenciais que haviam mantido os tribunais israelenses fechados para processos não urgentes desde o fim de fevereiro. As informações foram publicadas pela Forbes, com base em dados do sistema judicial de Israel e em registros judiciais citados pela Reuters.

No centro da nova etapa do processo está um pedido apresentado nesta sexta-feira pela defesa de Netanyahu para adiar seu depoimento por “pelo menos duas semanas”, alegando “razões de segurança e diplomáticas classificadas relacionadas” aos “eventos dramáticos” no Oriente Médio, segundo a Reuters. O pedido ainda terá de ser analisado pela Justiça.

Netanyahu responde a acusações de fraude, suborno e quebra de confiança e está sendo julgado desde 2020. Ele se declarou inocente de todas as acusações. Ao longo dos últimos anos, o andamento do processo sofreu sucessivas interrupções, muitas delas associadas a ações militares em Israel e na região, especialmente após os ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas e a guerra que se seguiu em Gaza.

A retomada do julgamento ocorre num momento de forte tensão regional, mesmo após o anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. O processo voltou a ganhar dimensão política e diplomática, inclusive por causa das especulações de que a prolongação dos confrontos no Oriente Médio poderia beneficiar Netanyahu ao atrasar sua responsabilização judicial.

Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, atacou publicamente o processo contra Netanyahu e o classificou como uma “caça às bruxas”, expressão usada para descrever uma perseguição política ou judicial. Segundo a Forbes, Trump também pressionou repetidamente o presidente de Israel, Isaac Herzog, para conceder um perdão ao premiê. Em março, afirmou que não queria “que houvesse qualquer coisa incomodando Bibi além da guerra com o Irã”, utilizando o apelido pelo qual Netanyahu é conhecido.

Pedido de adiamento amplia incerteza sobre duração do julgamento

Ainda não está claro se a Justiça israelense aceitará o novo pedido da defesa nem por quanto tempo o julgamento se estenderá após sua retomada. Também permanece indefinido se Netanyahu acabará condenado.

Segundo a Reuters, se for condenado por suborno, Netanyahu poderá enfrentar pena de até 10 anos de prisão. Já as acusações de fraude e quebra de confiança podem render até três anos de prisão cada. Mesmo assim, a legislação israelense permite que ele continue no cargo de primeiro-ministro durante o andamento do processo e, em caso de condenação, também durante eventual recurso.

Até o momento, Isaac Herzog não sinalizou que pretende conceder perdão a Netanyahu. A Reuters destacou ainda que uma medida desse tipo, no meio do julgamento, seria sem precedentes em Israel.

As três frentes do processo contra Netanyahu

Netanyahu foi formalmente denunciado em 2019 e responde a acusações em três casos distintos, que tratam, em linhas gerais, de supostos benefícios políticos e regulatórios em troca de presentes ou cobertura favorável da imprensa.

No chamado Caso 4000, os promotores acusam Netanyahu de ter concedido cerca de US$ 500 milhões em favores regulatórios ao magnata israelense das telecomunicações Shaul Elovitch e a empresas ligadas a ele. Em troca, segundo a acusação, Netanyahu teria obtido influência sobre o site de notícias Walla, controlado por Elovitch, que publicava cobertura favorável sobre o premiê e sua esposa. Nesse caso, o líder israelense responde por suborno, fraude e quebra de confiança, com base no que os promotores classificam como um “acordo recíproco”.

No Caso 1000, Netanyahu é acusado de fraude e quebra de confiança por supostamente receber quase US$ 200 mil em presentes do produtor de cinema Arnon Milchan e do bilionário James Packer, especialmente champanhe e charutos. Em contrapartida, segundo a acusação, teria atuado em favor dos interesses empresariais de Milchan entre 2011 e 2016. Netanyahu sustenta que os presentes eram apenas demonstrações de amizade.

Já o Caso 2000 envolve alegações de que Netanyahu negociou, em 2014, um acordo de troca de favores com Arnon Moses, do grupo de mídia Yedioth Ahronoth. Os promotores afirmam que o primeiro-ministro prometeu impulsionar uma legislação que prejudicaria um jornal rival em troca de cobertura positiva do Yedioth Ahronoth. Apesar disso, não há acusação de que ele tenha efetivamente levado adiante essa legislação.

Guerra e crise regional alimentam suspeitas sobre motivação política

A retomada do julgamento coincidiu com novas suspeitas sobre a relação entre a escalada militar e o calendário judicial de Netanyahu. O chanceler iraniano, Seyed Abbas Araghchi, sugeriu nesta quinta-feira que Israel e os Estados Unidos estariam prolongando deliberadamente o conflito com o Irã para manter Netanyahu fora do tribunal.

Em publicação na rede X, Araghchi escreveu: “Um cessar-fogo em toda a região, incluindo no Líbano, aceleraria o encarceramento de Netanyahu”. Em seguida, acrescentou que o Irã está “preparado” caso o cessar-fogo fracasse. Também afirmou: “Se os Estados Unidos quiserem destruir sua economia ao permitir que Netanyahu mate a diplomacia, essa será, em última instância, uma escolha deles”.

As declarações do chanceler iraniano se somam a especulações mais amplas, mencionadas na reportagem da Forbes, de que Netanyahu teria interesse político em manter a região em estado de guerra, já que isso contribuiria para empurrar adiante sua prestação de contas perante a Justiça. A publicação ressalta, porém, que não há confirmação de que esse seja de fato o objetivo do premiê.

Esse tipo de avaliação já havia surgido anteriormente em meio à guerra de Israel contra o Hamas. Segundo a reportagem, críticos passaram a sustentar que a permanência do estado de conflito beneficia Netanyahu internamente, ao reduzir a pressão imediata sobre seu julgamento e sua possível condenação.

Cessar-fogo com o Irã não encerra tensão com o Líbano

O pano de fundo da retomada do julgamento é a instabilidade do cessar-fogo anunciado nesta semana. Trump informou na terça-feira que os Estados Unidos haviam alcançado um acordo de cessar-fogo com o Irã. Ainda assim, Israel continuou promovendo bombardeios no Líbano, em ações vinculadas à sua campanha contra o Hezbollah, grupo apoiado por Teerã.

Esses ataques colocaram em risco a trégua já considerada frágil e abriram dúvidas sobre o alcance real do acordo, especialmente em relação ao território libanês. Segundo a Forbes, houve confusão sobre se o Líbano estaria ou não incluído no entendimento, com o governo Trump afirmando que o Irã interpretou essa questão de forma equivocada.

A Associated Press, citada na reportagem, informou na quinta-feira que negociações diretas entre Israel e Líbano devem ocorrer na próxima semana. Netanyahu afirmou ter feito “pedidos repetidos” por conversas com Beirute e disse querer “abrir negociações diretas com o Líbano o mais rápido possível”.

Apesar disso, o premiê não deu qualquer sinal de que Israel reduzirá seus ataques no curto prazo. Em mensagem de vídeo divulgada na quinta-feira, afirmou que o país continuará atacando o “Hezbollah com força e não irá parar até restaurarmos” a segurança.

Julgamento volta ao centro da crise israelense

Com a reabertura do sistema judicial e a possível retomada dos depoimentos, o processo contra Netanyahu volta a ocupar posição central na crise política de Israel. Mais do que um julgamento sobre corrupção, o caso se tornou também um ponto de choque entre guerra, diplomacia, disputa institucional e sobrevivência política.

A decisão da Justiça sobre o novo pedido de adiamento será determinante para os próximos passos do processo. Enquanto isso, Netanyahu permanece no centro de uma combinação explosiva: pressões judiciais internas, apoio político externo de Donald Trump, confrontos militares ainda ativos e desconfiança crescente sobre os efeitos da guerra em sua permanência no poder.

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