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Terras raras aproximam Lula e Trump, avalia Brian Winter

Analista afirma que necessidade estratégica dos Estados Unidos por minerais críticos ajuda a explicar reaproximação repentina com o Brasil

Kuala Lampur, Malásia - 26/10/2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático-ASEAN (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 – A aproximação recente entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a administração de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, pode estar diretamente ligada à disputa global pelas terras raras — minerais considerados estratégicos para a indústria tecnológica e militar. A avaliação é do analista político Brian Winter, vice-presidente do Council of the Americas e editor da revista Americas Quarterly. Em comentário publicado nas redes sociais, Winter afirmou que a visita de Lula à Casa Branca deve ser compreendida dentro de um contexto geopolítico mais amplo, marcado pela crescente preocupação dos Estados Unidos com a dependência em relação à China no fornecimento de minerais críticos.

“Acho que a visita de Lula à Casa Branca amanhã só pode ser entendida como parte de uma história global”, escreveu Winter.

Disputa entre EUA e China muda prioridades

Segundo o analista, a necessidade norte-americana por terras raras tornou-se urgente em áreas como defesa militar e produtos de consumo. Esses minerais são essenciais para a fabricação de celulares, carros elétricos, radares, drones, semicondutores, turbinas e equipamentos militares avançados.

Winter destacou que a ameaça feita pela China no ano passado de restringir exportações de terras raras teria provocado uma rápida reorganização da política externa dos Estados Unidos.

“A necessidade dos EUA por terras raras — para defesa e para bens de consumo do dia a dia — é aguda e talvez muito mais urgente do que o público imagina”, afirmou.

Ele acrescentou que o endurecimento chinês acelerou mudanças diplomáticas em relação a países com grandes reservas minerais, entre eles o Brasil.

“A ameaça da China no ano passado de interromper a exportação de terras raras parece ter levado a um rápido realinhamento da política externa dos EUA — inclusive em relação ao Brasil, que acredita-se possuir as segundas maiores reservas do mundo”, escreveu.

Mudança de tom com Lula

Brian Winter observou que, até pouco tempo atrás, o governo Trump mantinha postura hostil em relação a Lula. Segundo ele, a mudança ocorreu de forma rápida e praticamente simultânea ao aumento das preocupações estratégicas de Washington com os minerais críticos.

“Praticamente da noite para o dia, o governo Trump passou de um tratamento hostil a Lula (assim como à Austrália, aliás) para um tom amigável e busca de acordos sobre minerais críticos”, afirmou.

Para o analista, a questão das terras raras ajuda a explicar tanto o degelo diplomático entre Brasília e Washington quanto o convite inesperado feito a Lula para visitar a Casa Branca em um momento de elevada tensão internacional.

“O tempo dirá, mas acho que isso — mais do que as dinâmicas internas do Brasil — explica tanto a súbita aproximação do ano passado quanto a decisão repentina e surpreendente de convidar Lula para Washington, mesmo em meio à guerra com o Irã e outras prioridades”, escreveu.

Brasil ganha importância estratégica

O Brasil possui algumas das maiores reservas de terras raras do planeta, especialmente em estados como Goiás, Minas Gerais e Amazonas. Nos últimos meses, o tema ganhou dimensão estratégica crescente diante da disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de minerais críticos.

A China domina atualmente mais de 90% da produção mundial de ímãs de terras raras e possui enorme capacidade de refino e processamento, o que vem sendo tratado por Washington como uma vulnerabilidade de segurança nacional.

O debate ganhou força após a divulgação de investimentos maciços do governo norte-americano em empresas do setor, como a MP Materials, que recebeu apoio direto do Pentágono para reconstruir uma cadeia doméstica de mineração e produção de ímãs estratégicos.

Lula e a nova geopolítica mineral

A visita de Lula ocorre em meio a um cenário internacional marcado pela reorganização das cadeias produtivas globais, pela disputa tecnológica entre EUA e China e pela busca de novos fornecedores de minerais críticos.

Além do petróleo da Margem Equatorial e do avanço brasileiro em energia limpa, as reservas de terras raras ampliam o peso geopolítico do Brasil nas negociações internacionais.

A avaliação de Brian Winter sugere que Washington passou a enxergar o Brasil não apenas como parceiro político regional, mas também como peça-chave na disputa global por recursos estratégicos que podem definir a próxima etapa da competição tecnológica e militar entre as grandes potências.

Assista, abaixo, a uma edição do programa "60 minutes" sobre o tema:

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