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"Yankee go home": europeus se revoltam contra as ameaças do 'aliado' Trump

União Europeia tenta barrar tarifas ligadas à Groenlândia e prepara retaliação, enquanto líderes dizem que “a Europa não será chantageada”

Manifestantes protestam na Groenlândia contra ameaças de Trump (Foto: Reuters)

247 – A União Europeia entrou em modo de alerta total neste domingo diante das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma nova onda de tarifas contra países europeus caso Washington não obtenha o direito de “comprar” a Groenlândia. A escalada provocou indignação política e reações públicas, em um ambiente que expõe o desgaste da relação transatlântica e alimenta protestos contra a pressão do suposto “aliado” norte-americano.

Segundo a Reuters, embaixadores da União Europeia chegaram a um amplo entendimento para intensificar as tentativas de dissuadir Trump, ao mesmo tempo em que o bloco organiza medidas de retaliação caso as tarifas se concretizem.

A ameaça anunciada por Trump prevê sobretaxas progressivas a partir de 1º de fevereiro sobre países europeus — Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Holanda e Finlândia — além do Reino Unido e da Noruega, “até que os Estados Unidos sejam autorizados a comprar a Groenlândia”. Grandes países europeus classificaram a postura como chantagem, enquanto governos tentam evitar que o confronto descambe para uma espiral de represálias e volatilidade econômica.

Cúpula de emergência e duas rotas de resposta

Os líderes europeus devem discutir opções em uma cúpula de emergência em Bruxelas, marcada para quinta-feira. Entre as alternativas, uma primeira medida teria mais apoio interno: um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros em importações dos Estados Unidos, que poderia entrar automaticamente em vigor em 6 de fevereiro, após o término de uma suspensão de seis meses.

A segunda rota — mais dura e até agora inédita — envolve o chamado “Instrumento Anti-Coerção” (ACI), um mecanismo que permitiria ao bloco restringir o acesso a licitações públicas, investimentos e atividades bancárias, além de limitar o comércio de serviços. Esse ponto é particularmente sensível porque os Estados Unidos mantêm superávit com a União Europeia em serviços, incluindo serviços digitais.

Um representante europeu ouvido pela Reuters afirmou que o pacote tarifário parece reunir apoio mais amplo como primeira resposta, enquanto as medidas anti-coerção ainda dividem governos e partidos, com o cenário descrito como “muito misto”.

“A Europa não será chantageada”

O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, afirmou em postagem nas redes sociais que suas consultas com os países do bloco evidenciaram “forte compromisso” de apoiar a Dinamarca e a Groenlândia e prontidão para defender-se contra “qualquer forma de coerção”.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi direta ao reagir: “A Europa não será chantageada”. A frase, reproduzida pela Reuters, sintetiza o sentimento que se espalhou por capitais europeias: a percepção de que Trump tenta impor, por meio de tarifas, uma agenda geopolítica que fere princípios de soberania e integridade territorial.

O chanceler dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, disse que a Dinamarca manteria o caminho do diálogo e mencionou um acordo firmado na quarta-feira entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos para criar um mecanismo de conversas. Ele também ressaltou que a política norte-americana não se resume ao presidente: “Os Estados Unidos são mais do que o presidente. Eu estive lá recentemente. Existem freios e contrapesos na sociedade americana”.

Davos como palco de pressão e negociação

A União Europeia aposta que a via do diálogo ganhará centralidade nesta semana no Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde Trump deve fazer um discurso na quarta-feira, sua primeira participação no evento em seis anos. Um diplomata europeu resumiu o plano do bloco nos seguintes termos: “Todas as opções estão sobre a mesa, haverá conversas em Davos com os Estados Unidos e, depois disso, os líderes se reunirão”.

A estratégia, porém, é atravessada por um dilema: negociar sob ameaça pode normalizar a coerção, mas retaliar cedo pode acelerar a deterioração do comércio e das alianças políticas. Ainda assim, o sinal enviado por Bruxelas é de que o custo político de ceder à pressão pode ser maior do que o custo econômico de reagir.

Países visados falam em “espiral perigosa”

Os oito países mencionados por Trump — já sujeitos a tarifas norte-americanas de 10% e 15% — divulgaram uma declaração conjunta em que alertam que ameaças tarifárias “prejudicam as relações transatlânticas e representam o risco de uma perigosa espiral descendente”. O texto afirma ainda que os governos estão prontos para dialogar, “com base nos princípios de soberania e integridade territorial”.

O episódio ocorre em meio ao aumento da tensão sobre o futuro da Groenlândia, território autônomo dinamarquês no Ártico. A Reuters informou que os países visados enviaram pequenos contingentes militares para a ilha, em um movimento que expõe o nível de deterioração do impasse com Washington.

Divisões internas: instrumento anti-coerção e cálculo político

Nos bastidores, a unidade europeia convive com pressões e diferenças de abordagem. Uma fonte próxima ao presidente francês Emmanuel Macron disse à Reuters que ele defende a ativação do Instrumento Anti-Coerção. Já o primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, avaliou que, embora não haja dúvida de que a União Europeia retaliará, ainda seria “um pouco prematuro” acionar o mecanismo, até hoje não utilizado.

A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, apontada como mais próxima de Trump do que outros líderes europeus, classificou a ameaça tarifária como “um erro” e relatou ter conversado com Trump horas antes, dizendo a ele de forma direta o que pensava.

Do lado britânico, a secretária de Cultura, Lisa Nandy, disse que aliados precisam trabalhar com os Estados Unidos para resolver a disputa e afirmou: “Nossa posição sobre a Groenlândia é inegociável. Está no interesse coletivo trabalharmos juntos e não iniciarmos uma guerra de palavras”.

Impacto nos mercados e risco para acordos comerciais

A ameaça de tarifas já repercutiu nos mercados globais, com o euro e a libra esterlina caindo frente ao dólar e expectativa de retorno da volatilidade, segundo a Reuters. Além disso, o conflito coloca sob tensão acordos comerciais recentes firmados pelos Estados Unidos com o Reino Unido, em maio, e com a União Europeia, em julho — ambos criticados por desequilíbrio, já que Washington manteve tarifas amplas enquanto os parceiros teriam de reduzir seus próprios direitos de importação.

No Parlamento Europeu, a reação também se endureceu: a casa se prepara para suspender os trabalhos sobre o acordo União Europeia–Estados Unidos. A votação, prevista para 26 e 27 de janeiro, sobre a remoção de diversas tarifas europeias, tende a ser adiada. Manfred Weber, líder do Partido Popular Europeu, o maior grupo do Parlamento, disse no sábado que a aprovação não é possível “por enquanto”.

Na Alemanha, o deputado democrata-cristão Juergen Hardt chegou a sugerir ao jornal Bild uma medida extrema, descrita como “último recurso”, para “trazer o presidente Trump de volta à razão na questão da Groenlândia”: um boicote à Copa do Mundo, que os Estados Unidos sediam neste ano.

Uma crise que expõe a fragilidade da “aliança”

A ofensiva tarifária de Trump, associada a uma exigência territorial, alterou o tom do debate político na Europa e ajudou a transformar o desconforto diplomático em revolta aberta — das ruas aos gabinetes. A mensagem que ganha corpo é que o bloco não aceitará a lógica de punição econômica como instrumento de pressão geopolítica, sobretudo quando o alvo é a soberania de um território aliado.

Com a cúpula de emergência marcada, as conversas em Davos e a possibilidade concreta de retaliações, a semana começa sob um clima de confronto que testa não apenas o comércio, mas o próprio sentido da relação entre Europa e Estados Unidos na era Trump.

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