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Fundo ligado à família Vorcaro zera avaliação de empresa após denúncia de ativo ambiental fraudado

Remarcação derruba de R$ 14,3 bilhões para zero o valor da Golden Green e expõe efeito em cascata em cadeia de fundos conectada ao Banco Master

Fundo ligado à família Vorcaro zera avaliação de empresa após denúncia de ativo ambiental fraudado (Foto: Divulgação)

247 – Um fundo ligado à família de Daniel Vorcaro, do Banco Master, remarcou de R$ 14,3 bilhões para zero o valor de mercado atribuído à Golden Green, empresa denunciada por ter adquirido ativos ambientais fraudados. A decisão foi formalizada em fato relevante divulgado na terça-feira (10) pelo Jade Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia. A informação foi revelada pelo jornal Valor Econômico.

No fato relevante, o Jade afirma que a decisão de reprecificar a participação na Golden Green “está fundamentada em minuciosa análise técnica efetuada sob o laudo emitido por provedor independente”. O documento, porém, não informa quem é o responsável pelo laudo citado.

A administração do Jade é atribuída à CBSF Trust, antiga Reag, que está em liquidação extrajudicial. No mesmo comunicado, o fundo reconhece que a reprecificação representa a perda integral do valor contábil do investimento, com impacto negativo direto de 100% no patrimônio líquido do próprio Jade.

Na prática, a mudança encerra a sustentação contábil que mantinha a Golden Green na casa de dezenas de bilhões de reais e abre uma nova fase no caso, pois a redução brusca tende a reverberar em outras estruturas de investimento conectadas ao Jade, por meio de participações indiretas.

O Jade é investido por outro fundo, o Jaya. Ainda conforme o jornal Valor Econômico, o Jaya tem, entre seus cotistas, Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Com a reprecificação do Jade, o impacto contábil tende a atingir a cadeia de fundos controladores e cotistas que, direta ou indiretamente, carregavam o valor inflado da Golden Green.

Entre os veículos citados na apuração estão o Zacar, associado a Henrique Vorcaro, além dos fundos Hans 2, Sven e Hans 95. Este último é mencionado como investigado na Operação Carbono Oculto. Até o momento relatado, esses fundos não teriam comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a baixa contábil relativa às suas participações no Jaya.

A ausência de atualização formal em estruturas que refletem o mesmo ativo pode ampliar dúvidas sobre transparência e tempestividade de informações ao mercado. Ao mesmo tempo, o reconhecimento público de perda integral indica que o valor declarado anteriormente não se sustenta diante do material técnico utilizado para a reprecificação, ainda que o laudo não tenha sido identificado no comunicado.

Até então, a Golden Green declarava um patrimônio de aproximadamente R$ 14 bilhões em “Unidades de Estoques de Carbono” (UECs). As UECs, segundo a apuração, não seriam créditos de carbono tradicionais, mas unidades relacionadas à quantidade de carbono alocada no solo.

Esses ativos teriam sido criados pelo empresário José Antônio Ramos Bittencourt a partir da Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM). O ponto central da controvérsia, de acordo com reportagens publicadas pelo jornal Valor Econômico em 2024, é que a propriedade seria fruto de grilagem e teria parte significativa do terreno sobre uma área da União, o Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Aripuanã-Guariba.

Caso essa caracterização se confirme, a origem dos ativos se torna incompatível com a geração privada de ativos ambientais, pois uma área que se sobrepõe a território público e a um projeto de assentamento não poderia sustentar a criação de unidades ambientais privatizadas.

Em 2025, conforme relatado, Bittencourt — que também é cotista do fundo Jaya — teria tentado substituir os ativos antigos por novas UECs que seriam geradas dentro do próprio PAE, com apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A iniciativa avançou a ponto de haver negociações para a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a autarquia.

A movimentação, no entanto, não prosperou após a divulgação de que a geração dos ativos ambientais teria participação de uma empresa ligada a Henrique Vorcaro, a Alliance Participações, além de fundos alocados na gestora Reag, já citada como alvo das operações Carbono Oculto e Compliance Zero.

Em nota, José Antônio Ramos Bittencourt afirmou que o imóvel lhe foi apresentado como privado e que já gerava ativos ambientais antes de ele ter conhecimento do caso. “Ao descobrir a inconsistência fundiária, denunciei espontaneamente os fatos às autoridades”, declarou.

A remarcação do Jade para zero coloca o episódio em um novo patamar, porque deixa de ser apenas uma controvérsia sobre a qualidade do ativo e passa a produzir efeito concreto e imediato nos números dos fundos. Além disso, sinaliza que o risco associado a ativos ambientais fora de padrões consolidados pode se materializar de forma abrupta, com impactos severos para cotistas e estruturas de investimento.

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