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Código de conduta no STF será debatido com consenso e diálogo, diz Fachin

Presidente da Corte rejeita impor regras "goela abaixo"

Edson Fachin (Foto: Victor Piemonte/STF)

247 - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou que não pretende impor de forma unilateral um código de conduta para a atuação dos ministros da Corte. Segundo ele, qualquer iniciativa nesse sentido deverá ser construída com diálogo e consenso entre os integrantes do tribunal. As informações são do jornal Valor Econômico.

Fachin disse que não há intenção de empurrar regras "goela abaixo" e que o debate exige tempo e escuta. Para o ministro, a construção de normas em ambientes democráticos depende de interlocução e consideração de posições divergentes. "Pretendo tratar do tema com diálogo e consenso, sem açodamentos. A democracia exige tempo, interlocução e consideração de argumentos distintos. Só em ditaduras se empurram regras goela abaixo", afirmou.

Avanços no CNJ

De acordo com o presidente do STF, a elaboração de um código de conduta ainda enfrenta resistência dentro da Corte. Para lidar com esse cenário, Fachin tem mantido conversas individuais com outros ministros. Apesar disso, ele conta com apoio para avançar em regras semelhantes no âmbito do Conselho Nacional de Justiça, voltadas aos tribunais superiores.

"Em democracias, elas se constroem com participação. É isso que no momento estamos fazendo com todos os integrantes do colegiado", disse o ministro, ao reforçar que o processo será coletivo.

A proposta de um código de conduta para o Supremo não é nova. Fachin defende a iniciativa desde antes de assumir a presidência da Corte. O debate ganhou força após reportagem do jornal O Globo revelar que o ministro Dias Toffoli, relator do caso Master, viajou com o advogado de um dos diretores do banco envolvido no processo.

Preocupação com exposição e críticas

Entre ministros, a avaliação é de que o STF atravessa um período sensível e que a adoção de um código poderia ampliar a exposição do tribunal e intensificar críticas à atuação da Corte e de seus integrantes. Nesse contexto, o desafio de Fachin é avançar na discussão sem ficar isolado internamente.

Enquanto isso, a elaboração de um código de conduta para os tribunais superiores tem avançado no CNJ, com a adesão dos presidentes do Superior Tribunal de Justiça, do Tribunal Superior do Trabalho, do Tribunal Superior Eleitoral e do Superior Tribunal Militar. O Supremo, no entanto, não está subordinado ao Conselho.

No CNJ, Fachin criou o Observatório Nacional de Integridade e Transparência do Poder Judiciário. Em novembro, o colegiado definiu temas que deverão ser debatidos nos próximos meses, como transparência da remuneração na magistratura, ética, lobby e conflito de interesses.

Histórico da proposta e influências externas

Desde que tomou posse como ministro do STF, em 2015, Fachin já defendia a adoção de regras éticas mais claras. O tema voltou a ganhar força em 2023, após uma conversa com um ministro do Tribunal Constitucional da Alemanha, país que possui um código de conduta para seus magistrados e que serve de referência para o presidente do Supremo.

O ministro também tem dialogado com ex-integrantes da Corte, como Rosa Weber e Celso de Mello. Mello já se manifestou publicamente a favor da iniciativa. Rosa Weber tentou avançar com proposta semelhante durante sua gestão, mas não obteve êxito.

Pouco depois de assumir a presidência do STF, em setembro, Fachin recebeu da Fundação Fernando Henrique Cardoso um documento com recomendações ao tribunal, entre elas a adoção de um código de conduta.

Modelo alemão

O código que inspira Fachin no modelo alemão é enxuto. Ele estabelece que juízes devem declarar ganhos financeiros obtidos com palestras e atividades privadas, além de determinar que essas atividades não prejudiquem o exercício da função jurisdicional. O texto também prevê que manifestações e comportamentos de magistrados não podem comprometer a reputação do tribunal.

No Supremo, há a avaliação de que a percepção de imparcialidade é central para a confiança nas decisões judiciais. Nesse sentido, ministros consideram que a crise de confiança gerada pelo caso Master pode impulsionar a discussão sobre regras éticas mais claras.

Diretrizes éticas em gestação

Em discurso de encerramento do ano do Judiciário, Fachin abordou o tema publicamente pela primeira vez. Ele afirmou que está "em gestação" a adoção de um "conjunto de diretrizes éticas para a magistratura".

Segundo o presidente do STF, a legitimidade das decisões da Corte está apoiada na "força da razão pública". "Desde há muito se realça que a consolidação da democracia depende da internalização de práticas institucionais impessoais e da superação de personalismos que fragilizam as estruturas republicanas", disse.

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