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PF encontra planilhas de emendas com ex-assessora de Arthur Lira

Documentos apreendidos indicam controle do orçamento secreto e são analisados pela Polícia Federal

Mariângela Fialek (Foto: Pablo Valadares/Câmara)

247 - A Polícia Federal apreendeu dezenas de planilhas com informações sobre emendas parlamentares de deputados federais durante a Operação Transparência, realizada em dezembro de 2025. O material foi encontrado em um endereço ligado à advogada Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, que atuou como braço-direito do deputado federal Arthur Lira (PP-AL) no período em que ele presidiu a Câmara dos Deputados, informa Fábio Serapião, no UOL.

Segundo a investigação, Mariângela Fialek ganhou projeção em Brasília por sua atuação direta na gestão do chamado orçamento secreto entre 2021 e 2022, período em que Arthur Lira esteve à frente da Câmara. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos tanto na residência da advogada quanto em seu antigo gabinete na Presidência da Casa, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino.

Além de documentos físicos, os investigadores localizaram um computador antigo que armazenava a maior parte das planilhas. Os arquivos permanecem sob análise da Polícia Federal desde a apreensão. Um dos principais focos da apuração é verificar se os dados correspondem ao registro das emendas de relator, mecanismo que ficou conhecido como orçamento secreto.

A PF apura se os documentos detalham a distribuição das emendas entre parlamentares e se revelam a lógica de divisão dos recursos, possivelmente orientada por interesses políticos de Arthur Lira e de outras lideranças do Congresso. A suspeita central é que Mariângela Fialek tenha exercido papel estratégico na organização dessas verbas.

No pedido de autorização para as buscas, a Polícia Federal afirmou: "Estamos falando em uma atuação longeva na organização desses recursos, que remonta à época da pandemia e coincide com o mandato de Arthur Lira na presidência da Câmara dos Deputados". A investigação aponta que Tuca teria sido responsável pelo “controle e organização do chamado orçamento secreto na sua primeira modalidade, qual seja, através da chamada emenda de relator”.

O orçamento secreto foi proibido pelo STF em 2022, mas, até então, foi responsável pelo empenho de cerca de R$ 45 bilhões entre 2020 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Desse montante, aproximadamente R$ 20 bilhões foram executados sem transparência, sem a identificação dos parlamentares responsáveis pelas indicações.

A ausência de informações públicas sobre a autoria das emendas dificultava, por exemplo, a atuação de órgãos de controle em casos de suspeita de corrupção. Também não era possível mensurar quanto cada deputado destinava por meio desse tipo de emenda, o que ampliava as críticas ao modelo.

A Operação Transparência também investiga se Mariângela Fialek teria continuado a atuar na gestão de recursos semelhantes ao orçamento secreto durante a presidência da Câmara sob comando do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). Nesse contexto, a PF analisa o uso das chamadas emendas de comissão, consideradas uma nova versão do mecanismo após a proibição das RP9.

As apurações tiveram início a partir de depoimentos do senador Cleitinho (Republicanos-MG) e dos deputados Adriana Ventura (Novo-SP), Glauber Braga (PSOL-RJ), José Rocha (União Brasil-BA), Fernando Marangoni (União Brasil-SP) e Dr. Francisco (PT-PI). Os parlamentares relataram suspeitas de desvios envolvendo emendas de comissão.

Procurada pelo UOL, a defesa de Mariângela Fialek não respondeu aos contatos da reportagem. A assessoria de Arthur Lira optou por não se manifestar. Da mesma forma, a equipe de Hugo Motta não comentou o caso.

Criado em 2019, por meio de projeto aprovado no Congresso Nacional, o orçamento secreto concentrou poder no Legislativo ao permitir a distribuição de recursos federais sem transparência. Mesmo após a decisão do STF, o Congresso manteve outros tipos de emendas com baixo nível de publicidade, o que tem provocado novos atritos entre o Judiciário e o Legislativo, especialmente com o ministro Flávio Dino, e ampliado investigações sobre possíveis irregularidades no uso dessas verbas públicas.

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