PF abre investigação que pode conectar Vorcaro e Flávio a gastos de Eduardo Bolsonaro nos EUA
Polícia Federal vai rastrear pagamentos feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro após pedidos de Flávio Bolsonaro para financiar filme sobre Jair Bolsonaro
247 – A Polícia Federal deve abrir uma investigação para apurar os pagamentos realizados pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência da República. Segundo informações reveladas pelo Intercept Brasil e confirmadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, a PF pretende rastrear o destino dos recursos e verificar se parte do dinheiro foi direcionada a despesas ligadas ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
Eduardo Bolsonaro vive nos EUA desde o ano passado e se tornou alvo de investigações no Brasil por sua atuação política internacional. O ex-deputado trabalhou para pressionar autoridades norte-americanas pela adoção de sanções econômicas contra o Brasil e também atuou em articulações para que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) fossem alvo da Lei Magnitsky, legislação dos Estados Unidos usada para punir estrangeiros acusados de violações de direitos humanos e corrupção.
As informações apontam que Flávio Bolsonaro pediu ao banqueiro uma contribuição de US$ 24 milhões para financiar o filme “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. De acordo com mensagens encontradas no celular de Vorcaro pela PF, pagamentos efetivos de cerca de US$ 10,6 milhões foram realizados entre fevereiro e maio de 2025.
PF quer rastrear destino dos recursos
Uma das principais linhas de investigação será verificar se os recursos foram efetivamente utilizados na produção do filme ou se houve desvio para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-deputado responde a processo relacionado a tentativas de interferência na Justiça brasileira e ampliou nos últimos meses sua ofensiva política junto a setores da extrema direita norte-americana.
Segundo o Intercept Brasil, ao menos US$ 2 milhões teriam sido transferidos pela empresa Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. O fundo tem como representante legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, do advogado Paulo Calixto, apontado como próximo de Eduardo Bolsonaro.
Nos diálogos analisados pela PF, Daniel Vorcaro teria sugerido que os pagamentos fossem feitos “via Entre”, após dificuldades operacionais envolvendo o câmbio do Banco Master. Além disso, informações do jornal O Globo indicam que o Banco Master pagou R$ 2,329 milhões à Entre Investimentos, conforme declarações de Imposto de Renda da instituição financeira.
Flávio Bolsonaro admite pedido de dinheiro
Após a revelação das mensagens, Flávio Bolsonaro confirmou que pediu recursos ao banqueiro, mas negou qualquer irregularidade. Em entrevista à GloboNews, o senador admitiu que mentiu anteriormente ao negar relação financeira com Vorcaro.
“Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores”, afirmou.
O senador sustentou que os valores foram destinados exclusivamente à produção do filme. “Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados nesse fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, declarou.
Flávio também explicou a participação do advogado Paulo Calixto na estrutura financeira do projeto. “Para colocar de pé uma estrutura dessa, criar um fundo, cuidar das questões legais, de burocracia, você tem que contratar um advogado, um advogado de confiança do Eduardo Bolsonaro, alguém que cuidou de todo o seu processo de green card. Está dentro do contexto do filme. O advogado é gestor do fundo também”, disse.
Contradições sobre financiamento do filme
As explicações dadas por Flávio Bolsonaro entraram em choque com notas divulgadas anteriormente pelo deputado Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do filme, e pela produtora Goup Entertainment.
Na quarta-feira, a empresa afirmou que “não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário” entre os financiadores da obra.
A declaração contradizia falas do próprio Flávio Bolsonaro, que havia afirmado existir parcelas em atraso referentes à ajuda financeira de Vorcaro.
Diante da repercussão, Mário Frias divulgou uma nova nota tentando harmonizar as versões. Segundo ele, não há contradição, mas “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”.
“Quando afirmei anteriormente que não há ‘um centavo do Master’ no filme, referia-me ao fato de que Daniel Vorcaro não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico, assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora. O nosso relacionamento jurídico foi firmado com a Entre, pessoa jurídica distinta”, afirmou Frias.
Eduardo Bolsonaro nega benefício pessoal
Na noite de quinta-feira, Eduardo Bolsonaro usou as redes sociais para negar que tenha recebido dinheiro do fundo de investimento ligado ao filme. O ex-deputado classificou as suspeitas como “toscas”.
“Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem”, afirmou.
Eduardo também alegou que teria problemas com as autoridades migratórias dos Estados Unidos caso recebesse recursos de maneira irregular devido ao seu status migratório no país.
O ex-parlamentar confirmou ter apresentado o advogado Paulo Calixto ao deputado Mário Frias para estruturar juridicamente o projeto cinematográfico.
“Apresentei ele ao Mário, que estava procurando investidores para o filme, por saber da sua competência. Gostariam que apresentassem advogados petistas e que não conheço?”, declarou.
Eduardo Bolsonaro ainda argumentou que toda a produção foi estruturada nos Estados Unidos porque o longa teria caráter internacional. “Além do mais, devido ao estado de exceção, ninguém se arriscaria investir num filme do Bolsonaro no Brasil”, afirmou.
CPI do Banco Master e reação política
Em meio à repercussão do caso, Flávio Bolsonaro divulgou nota defendendo a criação de uma CPI para investigar o Banco Master.
“É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, afirmou o senador.
A Polícia Federal agora deverá aprofundar a análise das movimentações financeiras e dos contratos relacionados ao projeto “Dark Horse”, buscando identificar o caminho percorrido pelos recursos e verificar se houve eventual utilização indevida do dinheiro.



