Petróleo dispara e atinge maior nível em quase quatro anos
O Brent, referência global para o preço do petróleo, fechou a US$ 100,46 por barril, uma valorização de US$ 8,48, ou 9,2%
247 - O barril de petróleo acumulou alta de aproximadamente 9% nesta quinta-feira, renovando o maior patamar em quase quatro anos. O salto foi provocado pela decisão iraniana de intensificar os ataques contra instalações petrolíferas e de transporte em toda a região do Oriente Médio, combinada à declaração do líder supremo do país de que o Estreito de Ormuz permanecerá bloqueado.
O Brent, referência global para o preço do petróleo, fechou a US$ 100,46 por barril — uma valorização de US$ 8,48, ou 9,2% —, após tocar a máxima de US$ 101,60 ao longo do pregão. O WTI, parâmetro para o petróleo negociado nos Estados Unidos, encerrou a sessão a US$ 95,70, com ganho idêntico em termos absolutos: US$ 8,48, representando alta de 9,7%. Os dois contratos atingiram seu nível de fechamento mais alto desde agosto de 2022.
Os dados são referentes ao fechamento dos preços. O valor de US$ 120 por barril que teve repercussão esta semana foi o preço alcançado na manhã da última segunda-feira (9), e não no período da tarde, quando os preços fecham.
Vice-presidente e chefe global de Pesquisa de Petróleo Bruto da S&P Global Energy, Jim Burkhard comentou sobre a alta do petróleo. "O mercado está seriamente desequilibrado e isso continuará até que o Estreito seja reaberto e as operações upstream e downstream voltem ao normal. Isso não acontecerá rapidamente”.
O Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse à CNBC nesta quinta-feira que a Marinha dos EUA não poderia escoltar navios pelo Estreito de Ormuz agora, mas era "bastante provável" a medida ser implementada até o final do mês. É improvável que os preços globais do petróleo atinjam US$200 por barril, pontuou ele, mesmo com o Irã continuando a atacar navios mercantes.
Conforme autoridades iranianas, forças do país asiático atingiram dois navios-tanque de combustível em águas iraquianas. Uma autoridade iraquiana relatou à mídia estatal que os portos de petróleo do país pararam completamente as operações. Omã retirou todas as embarcações de seu principal terminal de exportação de petróleo em Mina Al Fahal, fora do Estreito de Ormuz. Foi uma medida de precaução, informou um relatório da Bloomberg News.
Ao tentar justificar os ataques iniciados em 28 de fevereiro contra o Irã, os EUA alegaram que o Irã pretendia desenvolver bomba nuclear, mas a ONU informou que não encontrou provas das acusações feitas pelo governo do presidente estadunidense, Donald Trump. Desde o começo dos ataques, mais de 1,3 mil pessoas morreram em solo iraniano, conforme estatísticas oficiais, e quase 2 mil foram a óbitos, juntando a soma dos mortos no Irã com pessoas mortas em países próximos.
Ibovespa e dólar
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa registrou baixa nesta quinta (12), muito em função da guerra no Oriente Médio. Neste cenário, menos capital estrangeiro circulando na bolsa brasileira e parte dos investidores locais adotando postura defensiva, a pressão vendedora se sobrepõe às compras, e derruba os índices.
Em outras palavras, quanto mais investidores quiserem vender do que comprar, existe um excesso de oferta de ações no mercado. Vendedores terminam aceitando preços mais baixos para atrair compradores e, quando os preços dessas ações caem de forma generalizada por causa dessa pressão vendedora, o índice como um todo recua.
Com as tensões no Oriente Médio, o dólar teve alta. Com a demanda pela moeda crescendo simultaneamente em diferentes mercados, seu valor se valorizou frente às demais divisas — incluindo o real —, pressionando o câmbio no Brasil para cima.
Estreito de Ormuz
O diplomata Amir Saeid Iravani, embaixador do Irã junto à Organização das Nações Unidas (ONU), disse que a pretensão do país asiático não é bloquear o Estreito de Ormuz, mas, de acordo com ele, e um “direito inerente” do governo iraniano “preservar a paz e a segurança nessa hidrovia".
Entre todas as armas acionadas pelo Irã desde o início do conflito, nenhuma provocou um terremoto econômico tão profundo quanto a interdição do Estreito de Ormuz. O canal, situado na estreita faixa de mar que separa o território iraniano da costa de Omã, é a ligação entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico e escoa cerca de 20% de todo o petróleo transacionado globalmente. O bloqueio da passagem deixou gigantes da Opep — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait entre eles — sem conseguir despachar sua produção para os compradores na Ásia, na Europa e nas Américas.
O recado das Forças Armadas iranianas não deixou margem para interpretações: o comando central declarou que não permitirá "que nem um único litro de petróleo passe pelo Estreito de Ormuz em benefício da América e de seus aliados". A dureza do tom militar, no entanto, destoa da postura adotada pelo embaixador Iravani na ONU, que descartou publicamente o fechamento definitivo da hidrovia — contradição que aponta para uma possível fissura interna no governo iraniano sobre até onde ir no uso do estreito como trunfo de pressão geopolítica.
Medidas anunciadas pelo governo
Além de zerar tributos, o governo Lula criou um imposto sobre as exportações de petróleo bruto e estabeleceu multas de até R$ 500 milhões para distribuidoras e postos que reajustarem preços sem respaldo. O pacote, anunciado pelo Governo do Brasil, mira diretamente a proteção de caminhoneiros, consumidores e setores da economia que dependem do diesel para funcionar diante da crise energética que se alastra pelo mundo.
As medidas têm data de validade: vigoram até 31 de dezembro deste ano. Sua razão de ser é a valorização acelerada do petróleo no mercado internacional, detonada pela guerra no Irã e pelo esgotamento das reservas estratégicas que países de todo o mundo vêm sendo forçados a mobilizar para compensar a queda na oferta.
O motorista deve sentir o alívio de R$ 0,64 em cada litro de diesel abastecido. Esse valor resulta de duas ações combinadas: a isenção fiscal, que retira R$ 0,32 do preço praticado nas refinarias, e o subsídio de igual valor destinado a quem produz ou importa o combustível — cálculo chancelado pelo Ministério da Fazenda. O repasse, porém, não será automático: produtores e importadores só receberão o benefício após comprovarem que o desconto foi realmente absorvido pelo consumidor final, e não retido ao longo da cadeia.
A alíquota de 12% sobre o petróleo exportado in natura serve a dois propósitos: incentivar que o óleo seja refinado dentro do Brasil antes de seguir para o exterior e cobrir o custo financeiro das demais medidas. A renúncia com PIS e Cofins está estimada em R$ 20 bilhões; o subsídio ao diesel consome outros R$ 10 bilhões do caixa federal. O imposto de exportação deverá gerar R$ 30 bilhões até o fim do ano, equilibrando as contas.
Por fim, um decreto separado — de vigência permanente, sem prazo de expiração — impõe novas obrigações de transparência e fiscalização a toda a cadeia de comercialização de combustíveis, com foco no combate à especulação e aos aumentos praticados sem justificativa econômica.


