"China emerge como principal vencedora da guerra contra o Irã", avalia Varoufakis
Ex-ministro da Grécia afirma que conflito expõe fragilidade dos EUA, irrelevância europeia e fortalece papel diplomático chinês no cenário global
247 – O economista e ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis avaliou que a China desponta como a principal vencedora geopolítica da guerra envolvendo o Irã, em meio a um cenário internacional marcado por instabilidade, disputas estratégicas e mudanças profundas na ordem global. A análise foi feita em entrevista ao programa Breaking Points, na qual ele também criticou duramente a condução do conflito pelos Estados Unidos e destacou o papel crescente de Pequim como mediadora internacional.
Logo no início da entrevista, Varoufakis classificou a atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como desastrosa. Segundo ele, trata-se de “um caso clássico de como não iniciar uma guerra, como não conduzi-la e como não encerrá-la”. Apesar das fragilidades do cessar-fogo, o economista acredita que o acordo ainda não colapsou completamente, embora esteja sendo sistematicamente sabotado.
Netanyahu e a estratégia de guerra permanente
Varoufakis atribuiu ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a responsabilidade por minar qualquer tentativa de trégua. Segundo ele, há uma estratégia deliberada de manter conflitos constantes na região.
"Netanyahu sempre defendeu uma guerra permanente na região, tentando desviar a atenção da opinião pública global do genocídio em Gaza e da limpeza étnica na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental", afirmou.
Ele acrescentou que Israel estaria disposto a expandir os conflitos para diferentes países, como Líbano, Iêmen ou Jordânia, com o objetivo de manter o estado de guerra contínuo. Ainda segundo Varoufakis, essa dinâmica acaba envolvendo os Estados Unidos em campanhas militares que, em sua visão, contrariam seus próprios interesses.
Irã sai fortalecido economicamente
Outro ponto central da análise foi o impacto econômico da guerra para o Irã. Varoufakis destacou que o país pode sair financeiramente fortalecido, especialmente com a possibilidade de cobrança de tarifas no Estreito de Ormuz.
Segundo ele, estimativas indicam que o Irã poderá arrecadar entre US$ 70 bilhões e US$ 90 bilhões por ano com essas taxas — valor muito superior ao obtido por canais estratégicos como o Canal do Panamá ou o Canal de Suez.
"Isso representa cerca de 20% a 25% do PIB iraniano. Eles saíram muito bem dessa situação", afirmou.
China consolida liderança diplomática
Para Varoufakis, no entanto, o maior ganho não é econômico, mas geopolítico — e pertence à China. Ele foi categórico ao afirmar:
"Não há dúvida de que a grande vencedora dessa guerra terrível é a China"
Segundo o economista, Pequim não precisou intervir diretamente no conflito para ampliar sua influência. Ao manter uma postura estável e previsível, o país se apresenta como um ator confiável no cenário internacional.
"A China só precisa observar e receber o crédito por ser o adulto na sala, um parceiro confiável que não muda de posição nem ameaça com Armagedom", declarou.
Ele também relembrou o papel chinês na reaproximação diplomática entre Irã e Arábia Saudita, além de sua atuação nos bastidores para estimular negociações de cessar-fogo.
Europa perde relevância internacional
Varoufakis também fez duras críticas à União Europeia, classificando sua atuação como irrelevante e eticamente comprometida.
"A União Europeia tem deslizado para uma irrelevância antiética", afirmou.
Segundo ele, o apoio europeu às ações de Israel em Gaza comprometeu a credibilidade do bloco como mediador internacional. Além disso, apontou falhas estruturais na governança europeia, agravadas desde a crise do euro e aprofundadas na pandemia.
Crise no modelo geopolítico do Ocidente
O economista argumenta que o conflito evidencia uma mudança estrutural na ordem global. Ele afirma que a aliança entre Estados Unidos e Europa está se enfraquecendo e que instituições como a OTAN enfrentam um futuro incerto.
"A fé em um alinhamento estrutural entre Estados Unidos e União Europeia acabou", disse.
Varoufakis também destacou contradições na postura de Donald Trump, que ao mesmo tempo critica a fragilidade militar europeia e pressiona os países do continente a se envolverem mais diretamente no conflito.
Mudanças no direito internacional e na ordem global
Outro impacto relevante apontado por Varoufakis é a possível transformação no direito internacional, especialmente no que diz respeito à navegação marítima.
"Até agora, era impensável cobrar pedágios em águas internacionais. Isso mudou", afirmou.
Ele alertou que a medida pode abrir precedentes perigosos, levando outros atores a adotarem práticas semelhantes em rotas estratégicas globais.
Nova ordem mundial em formação
Para Varoufakis, o conflito acelera a transição para uma nova configuração geopolítica, marcada pelo enfraquecimento do modelo liderado pelos Estados Unidos e pela ascensão de novas potências.
Ele concluiu que a diplomacia chinesa, ao atuar de forma discreta e consistente, está consolidando uma posição central nesse novo cenário global, enquanto o Ocidente enfrenta dificuldades para manter sua influência histórica.
"Estamos vendo uma reorganização profunda da ordem mundial, com a China assumindo um papel cada vez mais decisivo", afirmou.


