Coronavírus e Brasileirão: desumanidade, irracionalidade e paixão

O efeito da pandemia no futebol brasileiro é um caso à parte no mundo do futebol; o alto número de casos entre os elencos e o descaso dos gerentes pode levar ao cancelamento do Campeonato Brasileiro

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Leonardo Sobreira, 247 - A situação no futebol brasileiro é verdadeiramente caótica. Cerca de 16% dos jogadores no Brasileirão já desenvolveram anticorpos para Covid-19. Jogos da segunda e primeira divisão já foram adiados, e, dado o número crescente de casos dentro dos clubes, muitos vêm pedindo o cancelamento do campeonato.

O próprio impacto do coronavírus na disponibilidade dos elencos já seria motivo suficiente para isso. No Corinthians, 69% dos jogadores foram infectados. Apesar de nenhum ter apresentado sintomas severos, estes foram devidamente afastados e a situação dentro do clube aparenta estar sob controle. Clubes como Vasco, Ceará e Athletico Paranaense também possuem um número alto de infectados.

A posição do Corinthians ilustra perfeitamente o problema dessa política. Como apontado no GloboEsporte: “O Corinthians lamenta o alto índice de contaminação, mas acredita que pode tirar vantagem disso quando os campeonatos voltarem. Como os atletas que testaram positivo desenvolveram anticorpos, o clube entende que o risco de perder jogadores no futuro por conta da Covid-19 é menor.”

A possibilidade de perder jogadores importantes pela duração de um período de isolamento é um risco que pode levar clubes a passar por grandes dificuldades dentro de campo, levando a danos irreparáveis. E, claramente, o problema não pode ser resolvido através de adiamentos de jogos, já que o calendário de 2021 muito provavelmente sofrerá cortes. 

Esse é um campeonato brasileiro estranho, onde equipes não prezam o bem-estar de seus atletas e respectivas famílias, mas sim o benefício próprio que a doença pode ocasionar. A lógica da ideia de que quanto mais casos de Covid-19 forem acumulados por um time, mais esse time é beneficiado é, na verdade, muito além de estranha, mas sim verdadeiramente macabra. 

O futebol no Brasil se mostrou incapaz de lidar com uma crise que, mesmo sendo inegavelmente terrível para as finanças dos clubes, poderia ter sido pelo menos amortecida de forma diferente. Na Europa, a curva de casos achatou antes da autorização de volta dos campeonatos nacionais e continentais. Por contrapartida, na América Latina no geral, a curva nunca diminuiu, e a maioria dos campeonatos já voltaram ou têm plano de volta.

No final das contas, também temos que admitir que a reação da CBF ao coronavírus não surpreende ninguém. Ninguém espera, corretamente, de que da decadência de seus dirigentes saia uma política verdadeiramente baseada em critérios científicos. 

Talvez, por conta disso, seja melhor aceitarmos nossa realidade. No futebol brasileiro, raramente a racionalidade prevalece. Talvez seja por isso que, apesar de todo o caos, nunca paramos de apoiar nossos times do coração. 

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