HOME > Entrevistas

Altamiro Borges cobra investigação e diz que Roberto Campos Neto é o ‘Mileizinho do sistema financeiro’

Em entrevista ao 247, o jornalista cobrou a instalação da CPI do Master e também prevê força do campo progressista nas eleições

Roberto Campos Neto, Altamiro Borges e Javvier MIlei (Foto: José Cruz/Agência Brasil I Florion Goga/Reuters I Reprodução (Brasil247) )

247 - O jornalista Altamiro Borges afirmou nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, na TV 247, que investigadores do Poder Judiciário e parlamentares do Congresso precisam aprofundar as investigações sobre o papel do ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto nas fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro.

O analista defendeu a instalação da CPI do Banco Master no Congresso e disse que a Comissão Parlamentar de Inquérito “deveria começar pegando Roberto Campos Neto. Em tom de alerta, Borges afirmou que o ex-presidente do Banco Central, indicado por Jair Bolsonaro (PL), também é o “queridinho da mídia tradicional” brasileira.

Na entrevista, o jornalista sinalizou que Roberto Campos Neto deixou de cumprir o papel fiscalizador do Banco Central. “Liberou geral”, disse Borges em referência a várias ilegalidades sobre fraudes financeiras investigadas pela Polícia Federal.

O analista aproveitou para fazer uma comparação entre Campos Neto e o presidente ultradireitista argentino Javier Milei. “É ultraliberal, é o Mileizinho do sistema financeiro”, continuou o jornalista em alusão ao ex-presidente do BC.

Governo e as eleições

Ainda em sua análise, Altamiro Borges comentou sobre a eleição presidencial e sugeriu que a rejeição pelo Senado da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma o Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao PL da Dosimetria, em decisão do Congresso, não significam que o governo terá um desempenho ruim nas eleições.

"O governo tem o que apresentar", afirmou o jornalista, acrescentando que as pré-candidaturas da direita não tem "projeto de nação", e sim propostas que representam "setores da burguesia", e não a classe trabalhadora. "Lula, quando vai para o ataque, projeta e fortalece a ação do governo", afirmou.

Entenda as fraudes

Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master expandiu suas operações de forma acelerada ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com retornos muito acima do padrão do mercado. Para sustentar esse crescimento, investigações indicam que a instituição passou a assumir riscos elevados e a montar operações que inflavam seus resultados contábeis, enquanto sua liquidez efetiva — isto é, o dinheiro disponível para honrar compromissos com investidores — se enfraquecia.

Apurações conduzidas pela Polícia Federal e análises do Banco Central apontam que a crise enfrentada pelo Master ultrapassou o campo financeiro e alcançou dimensões institucionais. A ligação com a gestora Reag Investimentos, a tentativa de negociação com o Banco de Brasília (BRB) e pressões sobre órgãos de controle tornaram o caso complexo, com reflexos diretos na confiança do mercado e na segurança dos investidores.

No período entre 2023 e 2024, o banco teria movimentado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de operações trianguladas. A instituição concedia crédito a empresas consideradas de fachada, que aplicavam os valores em fundos ligados à Reag Investimentos. Esses fundos, por sua vez, adquiriam ativos sem valor relevante, como títulos do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), inflando artificialmente os preços. O Banco Central identificou seis fundos suspeitos administrados pela Reag, que juntos somavam R$ 102,4 bilhões em patrimônio. Os recursos circulavam entre estruturas ligadas aos mesmos intermediários até alcançar os destinatários finais.

Para prolongar a capacidade de pagamento, o banco oferecia empréstimos com carência de até cinco anos. Ao mesmo tempo, utilizava novos aportes em CDBs para quitar investidores anteriores, prática que caracteriza um modelo de pirâmide financeira. Em determinado momento, o Master chegou a ofertar papéis com rendimento de até 140% do CDI, patamar considerado inviável. Com o surgimento de dúvidas sobre a credibilidade da instituição em 2024, a captação de recursos diminuiu e o caixa entrou em colapso.

Na tentativa de obter liquidez, o banco registrou a compra de uma carteira de crédito avaliada em R$ 6 bilhões da empresa Tirreno. Segundo as investigações, a operação existia apenas nos registros contábeis, sem movimentação financeira real. O Banco Central analisou os dados e concluiu que os contratos não existiam. Posteriormente, a mesma carteira foi revendida ao BRB por R$ 12 bilhões após alteração nas taxas de juros. A autoridade monetária bloqueou a tentativa de venda de parte do banco ao BRB em setembro, ao identificar que a operação poderia servir para diluir irregularidades dentro de uma instituição pública.

O Banco Central impôs limites à captação do Master, restringindo a remuneração a 100% do CDI, o que interrompeu sua expansão. Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a cobrir CDBs vencidos por meio de uma linha emergencial. O controlador tentou recompor o caixa com a venda de ativos pessoais, sem sucesso. A liquidação ocorreu quando o banco não conseguiu honrar sequer 15% dos pagamentos semanais.

Os fundos administrados pela Reag Investimentos tiveram papel central na sustentação das operações. A gestora é suspeita de facilitar a criação de empresas de fachada para alimentar os fundos e inflar ativos inexistentes. A posterior liquidação da Reag pelo Banco Central aparece como desdobramento direto do caso, após a segunda fase da Operação Compliance Zero.

Mesmo representando apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro, a quebra do Master gerou tensão entre instituições públicas. O episódio provocou questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Congresso Nacional. O Banco Central firmou acordo com o TCU para permitir inspeções, preservando o sigilo bancário.

O ministro Dias Toffoli, do STF, que conduz ações relacionadas ao caso, chegou a considerar uma acareação envolvendo dirigentes do Banco Central, mas optou por determinar à Polícia Federal a coleta de novos depoimentos. Após ordenar que todo o material apreendido ficasse sob guarda do STF, ele autorizou a análise com participação da Procuradoria-Geral da República.

Com a liquidação, o FGC assumiu a responsabilidade de ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes, com estimativa de desembolso de R$ 41 bilhões, valor equivalente a aproximadamente um terço do patrimônio do fundo. Trata-se do maior pagamento da história do mecanismo, limitado a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. A liberação depende da consolidação da lista de credores, ainda pendente dois meses após a liquidação.

Investidores em fundos da Reag não contam com essa cobertura, mas podem transferir a administração de seus recursos. Já 18 fundos de pensão estaduais e municipais, que aplicaram R$ 1,86 bilhão em produtos ligados ao Master, não terão ressarcimento por não se enquadrarem nas regras do FGC.

Artigos Relacionados

Artigos recomendados

Gleisi critica Alcolumbre e diz que governo tem que "demarcar o seu campo"
Marinho critica Senado e defende fim da escala 6x1
Alysson Mascaro vê aliança entre Centrão, bolsonarismo e setores do STF para enfraquecer Lula
“Se Lula vier a perder as eleições, a esquerda atravessará um longo deserto", diz Rui Costa Pimenta
Wellington Dias afirma que Flávio Bolsonaro bateu no teto das pesquisas